A mulher que beijou Saramago

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A madrugada já ensaiava encontrar-se com a luz do dia quando chegou à casa da amiga, com quem dividia confidências e hospedagem no piso superior de um simpático sobrado. A princípio, tomou redobrado cuidado para não a incomodar. Livrou-se dos sapatos, girou a chave na fechadura com a habilidade de um agente secreto e, com a leveza dos passos de uma bailarina, tomou o rumo do quarto contíguo, onde a cama ansiosa a esperava. Mas interrompeu o bailado e passou alguns segundos parada como uma estátua. Tomada pela euforia de uma noite regada a vinho, muito vinho, conversa animada e fortes emoções literárias, não se conteve e se dirigiu ao quarto da amiga. Era urgente contar-lhe um pouco dos encantos daquela histórica noitada. Acordou-a com o máximo de cuidado.

Sentada à beira da cama, ainda a saborear o restinho do sono interrompido, a amiga fez um esforço medonho para se manter acordada e ouvir o quê de tão extraordinário tinha rolado naquela noite que se estendera pela madrugada.

– Abracei o José Saramago e lhe lasquei um beijo na bochecha!

– Como? Me conta, mana! – perguntou a amiga já com os olhos abertos e a curiosidade à flor da pele.

Metódica, fez questão de começar do começo. Lembrou que há dias vinha construindo uma paquera com um coroa enxuto. A amiga entendia perfeitamente o que era “paquera” e o que era “enxuto”, afinal se conheciam desde os tempos do colegial. Pois bem, naquela noite havia acontecido o esperado encontro.

Romântico e armado para o cortejo, ele a levara para jantar num restaurante sofisticado, famoso por lá se reunirem notívagos artistas, escritores e poetas da cidade. Para uma primeira vez, ela se sentiu lisonjeada e, como se dizia nos velhos tempos, gamou com a sensibilidade da iniciativa. Logo ela, amante das artes e da literatura! A noite tinha todos os ingredientes para ser perfeita. E foi.

Sombreados pela luz tênue da vela, deixaram que as sucessivas taças do bom vinho conduzissem livremente seu destino e sua paixão naquela que seria uma noite memorável. Em pouco tempo os pés roçaram um ao outro debaixo do escurinho da mesa, os sorrisos se encontraram e as mãos se entrelaçaram como dois adolescentes cheios de hormônios no primeiro encontro. E o vinho rolava sem parcimônia. Depois, a pretexto de confidências ao pé do ouvido, vieram os beijinhos no canto da orelha, os risos discretos, mas incontidos, e, consequência natural daquele romântico prelúdio, os lábios se encontraram. E o vinho saltava em abundância para as taças e imprimia mais fôlego ainda ao que prenunciava uma paixão avassaladora.

Lá pelas tantas, ele parou a taça no ar, já perto dos lábios. Franziu a testa. Apurou os olhos em direção à escada que dava para o mezanino do restaurante. Cravou a novidade com visível espanto:

– Não acredito, meu amor! Você não vai acreditar! O José Saramago e a Pilar acabam de subir as escadas para o mezanino!

Ela não se interessou pelos detalhes. Desgrudou-se da mão dele, levantou-se extasiada e partiu como um foguete rumo ao mezanino. Em seguida, voltou leve, fagueira e realizada: havia dado um abraço e lascado um beijo na bochecha do José Saramago, para espanto de Pilar, sua mulher, que ficara sem nada entender.

No dia seguinte, já no café da manhã, sentou-se à mesa e se pegou cantarolando descontraída sem mais nem por que, como na música do Chico. A amiga lhe dirigiu um olhar hesitante e compadecido:

– Mana, juro que não queria estragar a tua noite maravilhosa de ontem. Mas eu tenho uma coisa muito chata pra te dizer… Faz dois anos que o José Saramago morreu…

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