“Os nossos gritos”

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É pela desgraça desmedida que, às vezes, um pedaço do mundo ou um grupamento humano chama a atenção de todos e desencadeia um processo sem volta.

Citemos alguns dos mais emblemáticos: o genocídio no Congo patrocinado pelos empreendimentos de Leopoldo II, Rei Belga, 1908 (África); o Holocausto promovido pelo Nazismo contra os judeus (Europa); o vazamento de petróleo do navio Exxo Valdez, 1989, no Alaska (América); o uso do Napalm sobre a população civil no Vietname (Ásia); a morte de George Floyd, o movimento Vidas Negras Importam e o respectivo julgamento (América/EUA).

Nessa lista, poderíamos incluir, ainda, o Napalm jogado sobre a aldeia dos povos indígenas Ianomami; as mortes por asfixia e sequelas deixadas em sobreviventes das UTI’s neonatais devido à falta de oxigênio nos hospitais de Manaus e o “passar da boiada” na Amazônia, grilando, desmatando e queimando a floresta e animais (América/Brasil).

Os casos citados despertam sentimentos de horror, de repugnância e de inconformismo. Poucos aceitam tais fatos como naturais. De modo geral, nem os mais insensíveis ou os chamados “capitalistas selvagens”, quando tais crimes ocorrem, desejam ver os seus nomes a eles associados.

Pela crueldade que encerram, transformam-se em narrativas que viajam mundo, com consequências inesperadas até.

O caso do Congo desencadeou o fim do colonialismo europeu e a crise econômica que desembocou na Primeira Grande Guerra. O holocausto continua a nos lembrar a insanidade humana e o que Hannah Arendt chamou de “banalidade do mal”. O desastre do Alaska pôs a nu a corrupção das grandes petrolíferas e o desprezo pelo meio ambiente, mas fortaleceu o movimento ambientalista no mundo todo.

O uso do Napalm obrigou o Governo Americano, por força da opinião pública nacional e mundial, pôr fim à Guerra do Vietname. A morte de George Floyd, despertou o mundo para a nojeira do Racismo Estrutural, que se alimenta das omissões de muitos, seja do “Supremacismo Branco” dos americanos ou, no caso brasileiro, da ignorância generalizada das elites e dos “metidos a besta”, sem eira nem beira, mas que se arvoram superiores.

Parece até que esqueci alguma coisa. Não! As coisas da Amazônia ainda não foram tragadas por esse processo sem volta de que falamos. Ainda não conseguiram a força das outras narrativas. Diriam uns, porque são coisas de “coitadinhos”. Outros, porque são narrativas orquestradas por opositores e, portanto, não merecem crédito. Outros, ainda, as vêm como reclamos de colonizados. E, assim, perdem força como argumento contra a brutalidade da dominação.

Poucos percebem que esses discursos de fora para dentro, que nos colocam sempre em posição inferiorizada, moldaram as nossas instituições; estão na fala e nos procedimentos escusos de dirigentes e representantes do povo, que concedem títulos e honrarias rebarbativos; nas formas de alianças e até na falta de caráter de muitos dos escolhidos por nós para velar por nossas coisas. Tais discursos, ainda, “asfixiam” os nossos gritos legítimos, impedem a verbalização da nossa eloquência e da nossa indignação.

O Caso Ianomami é um elo perdido no processo de reparação dos maus feitos da Ditadura, que somados a outros com os nossos povos originários, formam o nosso holocausto.

Os gritos dos asfixiados morrendo por falta de oxigênio e de vergonha do Poder Público ainda ecoam, mas, como fúnebre lembrança, tal qual o choro dos anjos das UTI’s neonatais, clamando por justiça.

Tais acontecimentos parecem não ter peso nem densidade para convencer o aparato de Estado a fazer o mínimo que deve ser feito: apurar responsabilidades.

A tal CPI da COVID, objeto de tantas disputas, com tantas coisas ditas “mais importantes” infiltradas no seu bojo, torna os fatos a serem apurados menores do que são, digamos assim, “leves sussurros”.

Quanto ao “passar da boiada”, só nos resta torcer pelo sucesso das “cartas” assinadas pelas mais ilustres figuras nacionais e internacionais e implorar aos céus para que os “cara de pau” não cheguem primeiro ao caixa das compensações ambientais e se cacifem para o verão Amazônico que se aproxima.

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