A doce ilusão da escrita criativa

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Pouca coisa me incomoda mais do que a venda de facilidades, quando se

trata da escrita de textos. Digo isso a propósito da enxurrada de ofertas de cursos

de escrita criativa que tem aparecido em meu espaço nas redes sociais.

A maioria dos anúncios tenta vender a ilusão de que esses cursos operam verdadeiros

milagres em quem deseja, do dia para a noite, tornar-se um bom escritor. Ledo

engano. Ou, como dizia o personagem de Stênio Garcia em uma antiga série

televisiva: “Corre, Bino, que é cilada!”

A rigor, nada tenho contra esses cursos. O que me incomoda mesmo é

tentarem vender um produto que não podem entregar ao cliente. Ora, a escrita de

bons textos, no sentido padrão ou no sentido mais literário, é resultado de um

longo e lento processo de aprendizagem que leva em conta, dentre outros fatores,

a compreensão das lógicas que regem a organização das ideias nos textos; a

absorção das mais diversas possibilidades estilísticas decorrente da leitura

permanente e diversificada de grandes escritores e, sobretudo, o exercício

constante e exaustivo da prática da escrita de textos. Portanto não é uma receita

de bolo, não é uma aprendizagem que se resolva do dia para a noite.

Sempre que me deparo com esses anúncios de cursos de escrita criativa,

me pego a fazer altas conjecturas. Com quem Milton Hatoum teria feito um curso

semelhante? Quem teria sido o professor de José Saramago? Qual escola teria

frequentado Ernest Hemingway? E Clarice Lispector, com quem teria aprendido?

E Graciliano Ramos, quem teria sido o seu tutor de redação criativa? O que sei

mesmo é que esses e outros grandes escritores ralaram, e ralaram muito, e

ralaram por muito tempo para conseguir dar aos seus textos aquele feitio de

encantamento que seduz os leitores. E nunca deixaram de ralar.

Mas, como eu dizia, nada tenho contra esses cursos. O que reivindico

deles é a honestidade. Como, por exemplo, a que encontrei logo na abertura do

livro “Para ler como um escritor”, da professora americana Francine Prose, sobre

criação literária: “a criatividade não pode ser ensinada de professor para aluno”.

Ou seja, é preciso deixar claro que um curso de escrita criativa, montado numa

boa plataforma didático-pedagógica, colocará o aluno em contato sobretudo com

algumas particularidades que envolvem o uso das palavras, das frases, dos

parágrafos, dos gêneros textuais, da construção de personagens, tudo sempre

com base em escritores que se tornaram referência. E isso pode ser de extrema

importância para quem quer se envolver na seara da escrita.

Entretanto, diferente da aprendizagem das quatro operações matemáticas,

isso não significa que depois de um curso de escrita criativa o freguês esteja

moldado para escrever bons textos. O ideal é que muito antes disso ele já tenha

ralado e já domine a estrutura básica das ideias em um texto e tenha plena

clareza de que, se alguns caminhos podem ser teoricamente encurtados num

curso de escrita criativa, só a contínua prática da escrita, da leitura e da

aprendizagem permanente dará a ele alguma segurança para navegar nessa

desafiadora seara. Não à-toa o velho Graciliano dizia que, para se atingir a

clareza, qualidade essencial de escreve, “custa anos, porque não está na

gramática, nem em livro algum”.

Afinal, como nos lembra ainda Francine Prose, “como a maioria dos

escritores, talvez todos, aprendi a escrever escrevendo e lendo, tomando os livros

como exemplo”. Esse, sim, é o inevitável caminho.

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