Políticos e artistas se articulam para salvar casas do poeta Thiago de Mello

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As quatro casas do poeta Thiago de Mello na cidade de Barreirinha (AM), adquiridas pelo governo do Amazonas estão abandonadas e deterioradas pela ação do tempo e de vândalos.

As plantas são assinadas pelo arquiteto Lúcio Costa, autor do projeto urbanístico de Brasília (DF), amigo de Thiago de Mello.

O conjunto de três casas chamado de Porantim do Bom Socorro, localizada na rua Terra Preta do Castanhal, bairro São Judas Tadeu, dentro da cidade, foi comprado pelo governo do Amazonas no começo da década de 1990; a outra, adquirida pela prefeitura de Barreirinha, está na avenida Espanha-Centro, na beira do Paraná do Ramos, e enfrenta os impactos da erosão provada pelas águas.

O resguardo dos imóveis esteve sempre confuso. O estado os repassou para a prefeitura de Barreirinha por meio de comodato, uma espécie de aluguel sem pagamento, cuja contrapartida seria a sua proteção e manutenção.

A atual administração municipal prefere não engrossar a polêmica sobre os motivos do abandono, porque pretende reformar os prédios e transformá-los em centros culturais, para abrigar atividades artísticas, visitas escolares e atrair turistas de todo o mundo.

O poeta fez as quatro casas porque decidiu morar em Barreirinha, sua cidade natal, depois que retornou do exílio político, no final da década de 1970.

Thiago de Mello vendeu os imóveis porque decidiu morar no Distrito de Freguesia do Andirá, na localidade Ponta da Gaivota, nas margens do rio Andirá, em casa também projetada por Lúcio Costa.

Andirá e Marau são os principais rios da Terra Indígena Saterê-Maué, que abrange os municípios de Barreirinha e Maués.

O residencial de três casas localizado dentro da cidade, a primeira moradia, é composto da casa principal, de três pisos, de biblioteca e áreas para conferências e reuniões ao ar livre.

Pouca coisa resta intacta desse imóvel. Sem proteção e sem manutenção, foi saqueado por vândalos e ocupado por viciados em drogas.

A casa da beira do rio também seguia o mesmo ritmo de depredação e ocupação por drogados até se tornar moradia do artista plástico João Castro, 49 anos, conhecido na cidade como Preto da  China. Castro a transformou em ateliê e escola para iniciantes em pintura.

O artista disse que foi até a casa para conhecê-la de perto depois de vê-la por meio da internet. “Me sensibilizei com o que vi, eu e minha mulher”, disse. A partir daí, segundo ele, não parou mais de pensar em uma forma de proteger o patrimônio cultural deixado por Thiago.

“O Thiago de Mello é muito grande, assim como Roberto Carlos, assim como o Garantido e Caprichoso, ele é muito importante para a humanidade”, comparou o artista.

Prefeitura

O secretário de Cultura de Barreirinha, Eronildo Mesquita Cabral, disse que a atual gestão do município pretende encontrar meios para recuperar esses imóveis.

O primeiro passo já foi dado. Há duas semana passada, a Câmara Municipal de Barreirinha aprovou as leis, já sancionadas pelo executivo, que criam o sistema municipal de cultura e o fundo municipal de cultura.

São leis que inserem Barreirinha no sistema nacional de cultura, habilitando-a a captar recursos dos governos federal, do governo estadual e da iniciativa privada.

Enquanto isso, o município articula a assinatura de um termo de cooperação técnica com o governo do estado para assumir a guarda dos imóveis.

“A prefeitura já foi impedida até de fazer a limpeza das casas, porque não é sua propriedade”, revelou Eronildo.

O secretário disse que a ideia da gestão atual é transformar casas em centros culturais para atividades artísticas e visitação de turismo cultural, uma vez que Thiago de Mello é conhecido em todo o mundo.

Família

Isabela Thiago de Mello, filha do poeta, disse que está empenhada em transformar esses imóveis em patrimônio cultural em níveis municipal, estadual e federal, para que sejam salvaguardados como bens do povo brasileiro.

Ela também prefere apontar culpados pelo descaso porque, “enfim, há um esforço de políticos, intelectuais e admiradores do poeta em preservar esse valoroso patrimônio”, que também envolve a figura artística e histórica de Lúcio Costa.

As plantas das cinco casas são as únicas assinadas e construídas na Amazônia por Lúcio Costa. Isabela explica que o elo entre Lúcio Costa e o Amazonas também é forte, pois ele é filho de Ferreira, filha de Libânia Ferreira, essa a primeira professora pública de Manaus.

Ambas são nomes de ruas em Manaus, a primeira no bairro Japiim, zona Sul, e a segunda, no Centro. São duas personalidades que, segundo Isabela, merecem respeito e consideração dos amazonenses e amazônidas.

E, para ela, essa importância só cresce à medida que as pessoas passam a ter informações sobre suas obras e legados culturais.

O processo de tombamento no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) já está bem adiantado e, agora, Isabela acredita que existe um esforço das demais instâncias do poder público “para dar esse presente ao poeta Thiago de Mello ainda em vida”.

Em Barreirinha, Isabela disse que conta com o apoio do vereador Luís Carlos Carneiro de Andrade (Avante), o Maninho, e da atual gestão do município; em Manaus, de vereadores e deputados que reconhecem a importância do poeta para a cultura amazonense; e também com o empenho Iphan.

O Iphan, por exemplo, já salvou a casa da beira do Paraná do Ramos de ser derrubada por estar em área onde seria construído um novo porto para a cidade.

Thiago de Mello mora, atualmente, em Manaus e completou 95 anos de idade no dia 30 de março deste ano.

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