Entre Julinho da Adelaide e Chico Buarque havia um general

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O general Ernesto Geisel, escolhido pela Colégio Eleitoral de 1974, assume a presidência em março, num clima tenso, e meses depois promete uma distensão lenta, gradual e segura.

Ao mesmo tempo em que casa e prende o deputado baiano Chico Pinto – que condenara a presenta do ditador chileno Augusto Pinochet no Brasil –, o governo passa a receber representantes da Igreja para tratar das questões de tortura e desaparecidos; e também sinaliza com a possibilidade de eliminar a censura, que todavia continuava. Chegou ao absurdo de proibir o cenário – isso mesmo – do show Tempo e Contratempo, com o MPB-4, e, posteriormente, sua gravação em disco.

Para Chico, após o episódio de Calabar, a situação ficou insustentável. A proporção chegava a ser de duas músicas para uma liberada, mesmo assim com cortes. Como consequência, ele não tinha canções suficientes para um novo disco. A solução foi o LP Sinal Fechado (1974), em que ele interpretava outros compositores. Entre os autores que cederam ou compuseram músicas para o álbum, havia um tal Julinho da Adelaide – cuja canção, Acorda amor, tornou-se um dos grandes sucessos do disco.

 

Jorge Maravilha

(Julinho da Adelaide)

 

Há nada que um tempo

Após um contratempo

Pro meu coração

E não vale a pena ficar,

Apenas ficar chorando, resmungando,

 até quando, não, não

E como já dizia Jorge Maravilha

Prenhe de razão

Mais vale uma filha na mão

Do que dois pais voando

 

Você não gosta de mim

Mas sua filha gosta

Você não gosta de mim

Mas sua filha gosta

Ela gosta do tango, do dengo

Do mengo, domingo e de cosca

Ela pega e me pisca, belisca, petisca

Me arrisca e me enrosca

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

Você não gosta de mim

Mas sua filha gosta

 

Há nada como um dia

Após o outro dia

Pro meu coração

E não vale a pena ficar,

Apenas ficar chorando, resmungando

até quando, não, não, não

E como já dizia Jorge Maravilha

Prenhe de razão

Mais vale uma filha na mão

Do que dois pais sobrevoando

 

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

[…]

Os intérpretes de entrelinhas logo vislumbraram na letra uma referência ao general Geisel, cuja filha, Amália Lucy, manifestara admiração pelas obras do autor.

Em entrevista a Tarso de Castro na Folha de S. Paulo, revelou a origem da imagem utilizada: “Aconteceu de eu ser detido por agentes de segurança, e no elevador o cara me pediu um autógrafo para a filha dele. Claro que não era o delegado, mas aquele contínuo do delegado”. Foram vãs as tentativas de esclarecimento, porque até hoje muita gente crê na interpretação fantasiosa. Respondendo à mesma questão em 2007 para a revista Almanaque, ele diz:

Nunca fiz música pensando na filha de Geisel, mas essas histórias colam, há invencionices que nem adianta mais negar. Durante a ditadura, de um lado e de outro, as pessoas gostavam de atribuir aos artistas intenções que nunca lhes passaram pela cabeça. Achavam que a maioria dos artistas só fazia música pensando em derrubar o governo. Depois da ditadura, falam que o artista só faz música para pegar mulher. Mas aí geralmente acontece o contrário, o artista inventa uma mulher para pegar a música.

Em 1975, uma matéria sobre a censura publicada no Jornal do Brasil revelou que Julinho da Adelaide e Chico Buarque eram a mesma pessoa. A partir de então a Polícia Federal passou a exigir cópias do RG e do CPF dos autores. O divertido compositor legou para a humanidade apenas mais uma canção: Milagre brasileiro.

De Wagner Homem, em História de canções: Chico Buarque  (Leya, 2009)

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