O cotidiano nosso de cada dia

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Redundâncias à parte, o cotidiano em tempo de pandemia mudou. É um contrassenso? Cotidiano não é o que se repete? É sobre isto que quero lhes falar: Aquilo que se repete e a repercussão em nós.

Chico Buarque em sua música diz:

“Todo dia ela faz tudo sempre igual,

Me sacode às seis horas da manhã,

Me sorri um sorriso pontual

E me beija com a boca de hortelã.”

Aí está representado o nosso cotidiano, com repetições de comportamentos (automatizados?).

“(…) Todo dia eu só penso em poder parar

Meio-dia eu só penso em dizer não

Depois penso na vida pra levar

E me calo com a boca de feijão…”

E aí temos insatisfações tentando se mostrar em pensamentos silenciados com “a boca de feijão”.

Já observou como acontece com você? Como estão seus comportamentos, sua fala, seus pensamentos? Meio perdido? Apesar de quase um ano de mudança você ainda não se acostumou ou construiu uma nova rotina?

Este é um ótimo momento para perceber e olhar os condicionamentos.

Todos estavam acostumados a uma rotina que se resumia em sair para trabalhar e/ou estudar durante a semana, introduzindo aí uma academia, uma caminhada, nos mesmos horários, fazendo o mesmo trajeto, encontrando as mesmas pessoas. E “descansar” nos fins de semana – encontrar amigos, dançar, beber, almoçar com a família, passear, assistir um filme, uma série…, em resumo, fazer algo diferente da rotina dos dias da semana, que somados se traduzia no que chamamos de cotidiano.

A pandemia obrigou todos à mudança, sair da caixinha de repetição – “cotidiano”, e construir novas práticas para dar continuidade à vida, reorganizar as atividades. Você deixou o horário habitual de acordar, de sair de casa, de encontrar as pessoas que via e convivia diariamente, precisou construir ou conquistar um novo lugar em casa, um novo horário e um novo como para a maioria das coisas que compõem a sua vida (ainda está lutando para isto?). E aconteceu com todos, não só com você.

Em casa, o contato familiar rápido pela manhã, à noite, só nos fins de semana, ou eventualmente, passou a ser todos os dias, todas as horas.

Aí chega a parte da música que diz

“…Todo dia eu só penso em poder parar

Meio-dia eu só penso em dizer não

Depois penso na vida pra levar

E me calo com a boca de feijão”.

Aquele cotidiano que possibilitava as “fugas” já não está aí, o encontro não é mais só nas refeições espremidas entre o noticiário ou a série, ou no fim de semana. Se você ainda não construiu o novo, o silêncio não acontece; se a fala não chega a sair, ela acontece no pensamento ou na sensação de inadequação. Se a fala sai, a irritabilidade emerge, a sensibilidade se apresenta e você se pergunta: “O que está acontecendo comigo?”

Podemos chamar este momento de caos? Você saiu do cotidiano, quebrou com o condicionamento e está tendo a oportunidade de escolher fazer diferente, descobrir que pode parar, pode dizer não ao invés de silenciar com a “boca de feijão”, ou pode silenciar, pensar, analisar e depois falar…, abriu-se um espaço não planejado onde você pode olhar para o cotidiano que construiu, identificar como lida com ele, localizar os modelos que seguiu, analisar a validade dos mesmos sob o viés dessa nova realidade e assumir o controle sobre aquilo que estava condicionado.

Simples assim.

Requer disposição de encontrar o você que está dentro da resposta. Requer abrir-se para o autoconhecimento, requer entender que somos um eterno “vir a ser”, embora pareça confortável estar sempre o mesmo, fazendo as mesmas coisas.

Se estiver difícil e/ou desgastante olhar para o caos e/ou construir um novo cotidiano, você pode estar precisando aprofundar seu olhar, conversar sobre o significado do cotidiano em sua vida, qual o papel dele na medida em que ficou tão difícil alterá-lo. Reflita, pondere e observe o sofrimento que se mostra no não falado, no que sai na explosão ou no sentimento de inadequação.

Para Karen Horney, dentro do ser humano existe uma disposição natural para a auto realização e a psicoterapia contribui para a remoção dos empecilhos em alcançá-la.

Será este é o momento de buscar uma psicoterapia?

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