Semântica & marcenaria

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Era sempre assim. Manhãs e tardes de sábado eram dedicadas ao trabalho com madeira. Na pequena oficina improvisada na garagem da casa, em Manaus, esquecia-me do tempo e da vida absorto no paciente trabalho de rabiscar o projeto, escolher a madeira, empunhar o metro para medir com precisão, marcar com a ajuda do esquadro e do lápis de carpinteiro, serrar cuidadosamente as peças com a serra tico-tico, ajustar as extremidades com o auxílio da grosa, lixar cada uma das peças, aplicar a cola plástica nos encaixes, reforçar com pregos, usar a lixa mais fina para aprimorar os detalhes e, por último, aplicar a seladora. Depois, isso já no fim do sagrado expediente, restava sentar-me em uma banqueta, emborcar um merecido gole de cerveja e admirar a obra.

Desde muito pequeno, na fartura dos quintais da infância, descobri o prazer desse ofício, mas aprimorei-o no período em que, já professor da Universidade Federal do Amazonas, saí de Manaus para cursar o mestrado na PUC de São Paulo, na primeira metade da década de oitenta.

Colega de labuta e da UFAM, cursando o doutorado na USP à mesma época, Walmir Albuquerque e eu dividíamos o gosto pelo trabalho com madeira e juntos nos matriculamos em um curso de marcenaria no Sesc-Pompéia, próximo ao bairro das Perdizes, onde morávamos. Para isso, cumpríamos certo ritual. Sempre às sextas-feiras à tarde dávamos uma esticada até a rua do Gasômetro, onde se concentravam as madeireiras e nossos olhos faiscavam de alegria com tanta variedade. De lá voltávamos abastecidos com matéria-prima suficiente para nos ocupar a tarde inteirinha do sábado na oficina de marcenaria do Sesc, onde tínhamos um instrutor que avaliava nossos pequenos e ambiciosos projetos, dando luz verde ou não para sua execução.

Protegidos por avental e máscara, de uso obrigatório, em meio ao barulho das serras e da nuvem de poeira, operávamos o milagre da criação, fazendo brotar de nossas mãos objetos de madeira que admirávamos como se fossem troféus conquistados em uma maratona. Como aquilo nos enchia a alma de contentamento! O prazer da infância, portanto, se aprimorou e, quando retornei a Manaus, montei minha pequena oficina.

Se, durante o meu cartesianismo da semana, cumpria um rigoroso expediente nas salas de aula e na biblioteca da PUC, aos sábados entregava-me à paixão de um dos mais antigos ofícios da humanidade. Tenho certeza de que as horas investidas naquelas tardes foram decisivas para defender a dissertação dentro do prazo e receber o título de mestre. Por mais estranho que ainda hoje possa parecer o nexo entre semântica e marcenaria.

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