Explorações narrativas, descritivas e históricas na visão de Walter Benjamin

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A descrição de uma cidade por um dos seus habitantes tem outras motivações, mais profundas. Motivações de quem viaja para o passado, e não para lugares distantes. O livro de uma cidade escrito por um de seus naturais terá sempre afinidade com as memórias, porque não foi em vão que o autor passou a infância pelo lugar. Como Franz Hessel e Berlim.

E quando ele agora se decide a andar pela cidade, não é movido pelo impressionismo excitado com que tantas vezes os que escrevem descrições se aproxima do seu objeto. Porque Hessel não descreve, narra.

Melhor: volta a narrar o que ouviu.

Passear em Berlim é um eco de tudo aquilo que a cidade, desde cedo, foi contanto à criança. Um livro épico de fio a pavio, um exercício de rememoração na deambulação, um livro para o qual a lembrança não foi a fonte, mas a musa. Vai percorrendo as ruas e todas elas são íngremes. Levam-na, se não ao reino das Mães, pelo menos a um passado que pode ser tanto mais fascinante quanto menos é o do autor.

No asfalto que os seus pés pisam cada passo provoca uma espantosa ressonância. A luz do gás que ilumina o pavimento lança uma luz ambígua sobre esse chão duplo. A cidade como ajuda mnemotécnica do passeante solitário evoca mais do que a sua infância e juventude, e mais que a própria história dessa cidade.

Aquilo que ela põe em cena é o espetáculo imprevisível da flanerie, que julgávamos definitivamente enterrado. E será agora, aqui em Berlim, onde nunca floresceu especialmente, que ele se renovará?

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O tipo de flâneur é uma criação de Paris, e o mais estranho é que não tenha sido Roma. Mas será que em Roma o próprio sonho por demais calcorreadas? E não estará essa cidade demasiado cheia de tempos, lugares cercados, santuários nacionais, para poder entrar indivisa no sonho do transeunte com cada uma das pedras das calçadas, cada tabuleta de lojas, cada degrau ou portal?

As grandes reminiscências, os frêmitos provocados pela história – são para o verdadeiro flâneur um bagatela que ele deixa de boa vontade ao simples viajante. Troca de boa vontade todo o seu estúdio de artista, casas que viram nascer celebridades ou domicílio principescos pelo fato de uma simples soleira ou o tato de um único ladrilho, que fazem feliz também um qualquer rafeiro.

Há também aspectos que se prendem com o caráter dos romanos. Porque não foram os estrangeiros, mas eles próprios, os parisienses que fizeram de Paris a terra prometida do flâneur, “a cidade feita de um sem-número de vidas”, como um dia lhe chamou Hofmannssthal. Paisagem – é isso, de fato, a cidade para o flâneur. Ou dito de forma mais exata: para ele, a cidade divide-se nos seus polos dialéticos. Abre-se a ele como paisagem, encerra-o em si como uma sala”.

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Walter Benjamin, em Baldelaire a modernidade (Autentica, 2015)

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