Boi-Bumbá sob o juízo crítico de Mário Ypiranga Monteiro

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No meu tempo de menino fazia-se o boi de cofo de camarão, coberto com trapos de estopa ou chumaços de fio de calafetação, fato que se convertia de comédia em tragédia quando as mães, aborrecidas pela contaminação de sulsugem e do fedor, passavam a festejar a brincadeira com chineladas.

Mas não adiantava: o boizinho saia à rua de qualquer modo, com nome arranjado na última hora e a presença de pelo menos um representante da maloca, o que nos praz dizer ufanamente que o pensamento infantil criava por seu turno, em tom de minitema, uma auréola de nacionalismo superior, no meu entender, ao debochado círculo hipostásico dos bumbás modernos.

Muitos daqueles “bois farrapos” eram aquinhoados com tostões a “matança” a ser vendida a língua.

Naquele tempo ainda não se fazia a “divisão”, motivo para a pendenga das vítimas do folclore de rua.

Nada mais temos a apresentar de tradicional, de bom, de aproveitável no plano da cultura popular – base e sedimento da cultura erudita, dita antropologicamente urbana.

Porque sempre foi assim: do rural (popular) para o urbano (erudito); da expressão verbal para a expressão escrita; do expletivo discurso exemplar para o dinâmico reflexo antropologicamente universal; do inconsciente coletivo para o consciente aplicado; da emoção para a razão.

[…]

Foi tudo de água abaixo, uma hecatombe vertiginosa, e dou-me graça por haver solvo em tempo alguma coisa desse descalabro de que são culpados os governos excessivamente paternalistas, mas ridiculamente ignorantes que inauguraram no Amazonas o festival do “apoio financeiro” à humilde classe dos montadores de brincadeiras de rua, sem oferecer de volta o equivalente em matéria de apoio didático às escolas encarregadas de subministrar conhecimento à população estudantil.

O fato de proteger o folclore dinâmico sem a devida inteligência do folclore teórico e a consciência de sua necessidade, e não contrabalançar essa medida perversa com a dádiva gratuita da escolaridade nociológica, criou-se um tremendo abismo da estupidez amazonense em matéria de suas raízes sentimentais.

[…]

Antes dessa cretiníssima concubinagem social ativada por interferência da funesta ajuda financeira, o “boi-bumbá” representava, na história do Amazonas, um conquista do homem do povo, que o enobrecia e honrava.

Hoje a conquista pertence às garras de zurrapa: o homem do povo ficou reduzido a meia dúzia de papangus, obrigados a aplaudir ( e gosta de fazê-lo) um simulacro de farsa bovina que não traduz, em hipótese alguma, nem para inglês ver, o que de fato existia na bufonia de antigamente.

O que fora criação espontânea (legítima expressão do folclore ciência) e exibição aberta, passou à indignidade de exploração até com entrada paga.

É o que leio na gazeta. Acabou-se, de vez, o ciclo do folclore popular. Somos proclives em admitir que o que existe, neste momento, é o capitalismo desafiante, é um usura, é a mentira, é o luxo espaventoso (um insulto à humildade do povo), é o embuste substituindo a história documentada, é a estratégia dos governos visando a instituição dos nomes, a um maior conceito, a uma busca de prestígio, a um dossiê político-administrativo na área educativo-cultural, cujo aprova os despudorados arremedos de uma cultura que já foi honesta na sua pobreza; paciente na perseguição policial; correta na sua destinação; didática na sua função; necessária no seu elemento de história de um povo […]                                                                                                                                                                                                   Mário Ypiranga Monteiro, em Boi-Bumá: História, Análise Fundamental e Juízo Crítico, Manaus: Edição do autor, 2004.

 

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