“O vir a ser da Amazônia”

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Francisco Foot Hardman, em A vingança da Hileia (2009: UNESP, p.35), nos convida a pensar a Amazônia e as suas urgências, quando diz: “depende que o resto do mundo, nós, entendamos a gravidade da coisa e a necessidade de recolher a Amazônia das margens da história, e de trazê-la, não só à memória e ao coração, mas à cabeça e à ação. Eis aqui a fronteira do que não foi, eis aqui a fronteira do que é, em sendo, um incerto vir-a-ser”.

Isso parece dizer quase tudo, basta contextualizar os fatos. O autor é professor da Unicamp, tem uma grande vivência de Amazônia como colaborador da Ufam, nossa universidade Federal.

Esse “nós” a que Hardman se refere, por incrível que pareça, somos nós, amazônidas e brasileiros.

Aí, o que parece simples torna-se complexo pois, pelo andar da carruagem, quando se enaltece os que desmatam ou queimam a mata e poluem o ar e os rios, mais distante ficamos desse objetivo.

Ao convidar-nos a recolher a Amazônia das “margens da história”, está nos alertando, também, sobre a necessidade de fazermos uma leitura cautelosa de Euclides da Cunha, com seu “realismo naturalista”, que influenciou literatos brasileiros e amazônidas, até certo tempo, mas continua grudado na mente e nos atos dos brasileiros de “alto coturno”, com a mente de “colonizadores da amazônia”, gerando declarações desastradas, políticas públicas e ações de governo equivocadas.

Quando da minha formação em Jornalismo, diziam meus professores, que não conheceríamos o Brasil sem a leitura de Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freire; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda; Os Donos do Poder, de Raimundo Faoro; e Os Sertões, de Euclides da Cunha.

Este último era indispensável, pois se tratava do primeiro livro reportagem no qual todo jornalista deveria espelhar-se, pois o autor foi ao Nordeste cobrir a Revolta de Canudos a mando do jornal Estado de S. Paulo. Cumpri a tarefa, mesmo com travo na garganta ao ler Euclides da Cunha. Depois, curioso, quis saber o que dizia sobre nós, amazônidas.

Logo no primeiro parágrafo de À Margem da História (hoje, disponível gratuitamente na internet), fui tomado por uma indignação tão grande, que até agora não posso deixar de lembrar do que tive vontade de dizer sobre o “grande literato”, também, Tenente do Exército e Engenheiro comandando a Comissão de Limites do Itamaraty, encarregada de traçar os novos limites do país, após o Estado do Amazonas pagar a compra do hoje Estado do Acre à Bolívia.

Não consigo revisitar a obra sem sentir asco. Se o nordestino foi por ele considerado uma sub-raça, mesmo que o reconheça depois, “antes de tudo um forte”, nós, nem isso poderíamos ser, já que o sol escaldante nos tirou toda a possível condição humana, aliada à ausência de qualquer processo civilizatório, o que nos coloca à margem da história. Somos o nada!

Carreguei esse sentimento e não pude negá-lo, mesmo assistindo às aulas da estimada professora Walnice Galvão, a mais renomada entre os Euclidianos. Com ela, aprendi que o meu caso não era de pura ignorância, visto que, o meu “desafeto” suscitava mesmo amor e ódio.

Voltando ao início dessa prosa, o arremate de Hardman sobre o nosso vir a ser, na expressão de Martin Heidegger, pode ser o que se é, mas com possibilidades e não como destino. A essa caminhada do sentido dado ao “vir a ser”, de Heráclito até os nossos dias, prefiro aliar à interpretação do mesmo, o conceito de “vontade de potência” da filosofia de Nietzsche, que pode nos empoderar enquanto seres humanos e amazônidas, em direção contrária ao pensamento Euclidiano sobre a Amazônia e às instituições e políticas públicas com ele alinhadas.

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