Tópico sobre conceito e proposição na filosofia de Deleuze e Guattarri

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O conceito é, portanto, ao mesmo tempo absoluto e relativo: relativo a seus próprios componentes, aos outros conceitos, ao plano a partir do qual se delimita, aos problemas que se supõe deva resolver, mas absoluto pela condensação que opera, pelo lugar que ocupa sobre o plano, pelas condições que impõe ao problema.

É absoluto como todo, mas relativo enquanto fragmentário. É infinito por seu sobrevoo ou sua velocidade, mas finito por seu movimento que traça os contornos dos seus componentes.

Um filósofo não para de remanejar seus conceitos, e mesmo de muda-los, basta às vezes um ponto de detalhe que se avoluma, e produz uma nova condensação, acrescenta ou retira componentes.

O filósofo apresenta às vezes uma amnésia que faz dele quase um doente: Nietzsche, dizia Jaspers, “corrigia ele mesmo suas ideias, para constituir novas, sem confessá-lo explicitamente; em seus estádios de alteração, esquecia as conclusões às quais tinha chegado anteriormente”.

Ou Leibniz: “Eu acreditava entrar no porto, mas … fui jogado novamente em pleno mar”. O que porém permanece absoluto é a maneira pela qual o conceito criado se põe nele mesmo e com os outros.

A relatividade e a absolutidade do conceito são como a sua pedagogia e sua ontologia, sua criação e sua autoposição sua identidade e sua realidade.

Real ser atual, ideal sem ser abstrato… O conceito define-se por sua consistência, endoconsistência e exoconsistência, mas não tem referência: ele é autorreferencial; põe-se a si mesmo e põe seu objeto, ao mesmo tempo que é criado. O construtivismo une o relativo e o absoluto.

Enfim, o conceito não é discursivo, e a filosofia não é uma formulação discursiva, porque não encandeia proposições.

É a confusão do conceito com a proposição que faz acreditar na existência de conceitos científicos, e que considera a proposição como uma verdadeira “intensão”, o que a frase exprime): então o conceito filosófico só aparece, quase sempre, como uma proposição despida de sentido.

Essa confusão reina na lógica, e explica a ideia infantil que ela tem da filosofia. Medem-se os conceitos por um gramática “filosófica” que os substitui por proposições das frases onde elas aparecem: somos sempre restringidos a alternativas entre proposições, sem ver que o conceito já foi projetado no terceiro excluído.

O conceito não é, de forma alguma, uma proposição, não é proposicional e a proposição não é nunca uma “intensão”.

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Gilles Deleuze e Félix Guattarri, em O que é filosofia? (Editora 34), São Paulo, 2013.

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