Nossas elites e a Guarda Nacional ou Velhas e novas milícias

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Cada um tem a sua avó e dela guarda, sempre, uma história preferida. Da minha, a que sempre considerei edificante é a seguinte: “uma família só vai para frente se os pais conseguirem encaminhar os filhos para profissões diferenciadas; me criei ouvindo a história de um Velho que tinha cinco filhos e ele dizia que quando ficassem grandes iriam ser isso, aquilo ou aquilo outro, pela ordem de idade, mas todas as profissões enumeradas eram as mais abomináveis possíveis. Todo mundo ficava espantado por um pai desejar coisas tão ruins para os filhos. Os meninos cresceram e nada do que o pai desejara a eles aconteceu, exceto ao mais novo, que virou fazendeiro tanto quanto o pai, depois Coronel da Guarda Nacional.”

E a nossa curiosidade aumentava para saber o que tinha acontecido aos demais. E ela completava: “um foi ser Padre e chegou a Bispo; outro seguiu a Carreira Militar; outro formou-se em Direito e virou Político; e o quarto, Médico”.

Embora achássemos estranha a confrontação entre as profissões desejadas pelo pai e as alcançadas pelos filhos, sabíamos que nossa vó, nascida por volta de 1870, em Granja-CE, onde também estudou, tinha licença, como mulher do seu tempo, para pensar daquele jeito. Mas, mesmo ouvindo essas histórias já na metade do século XX, ainda víamos similitude entre o que ela nos contava e as famílias proeminentes da cidade em que morávamos: uns parentes do padre, outros de magistrados, outros de Coronel da “Briosa Polícia Militar” e outros, ainda, parentes dos políticos, todos mais importantes que os demais. Dizia-se: coisas do Brasil profundo!

Há poucos dias, intimado por um neto a ajudá-lo numa tarefa de colégio, que solicitava ao aluno que explicasse e desse exemplos de Elites na Sociedade Brasileira, comecei pela Wikipédia, Dicionário Houaiss, Manuais de Sociologia e me esforçando um pouco mais para não decepcioná-lo, avancei sociologia a dentro em buscas mais apuradas: “grupos mais organizados que formam a classe dirigente”, em Gaetano Mosca; “teoria da circulação das elites” e sua divisão em elites Políticas e Econômicas, em Valfredo Pareto; a distinção entre “homens comuns” que vivem a sua cotidianidade e aqueles que ocupam os postos estratégicos da sociedade onde se concentram o poder, a riqueza e as celebridades, como ensina Charles Wright Mills.

Pulei para o outo lado e confrontei tudo isso com os ensinamentos de Karl Marx, que não fala das elites especificamente, mas de Classe Dominante, onde é mais fácil encontrá-las, ou na Classe Dirigente, de Gramsci, com os seus intelectuais orgânicos. Dando por mim, já estava gostando da pesquisa e me ilustrando como “pinto no lixo” com essas coisas que só aparecem aos adolescentes em tempos de Enem.

Blitz da Polícia Militar no Morro da Coroa e Cachoeirinha. PM prende favelados pelo pescoço, fotografia de Luiz Morier, 1982. CPDOCJB. A pintura e a fotografia foram reproduzidas do livro Brasil: uma biografia (Companhia das Letras), de Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling.

Para dar conta da tarefa, refinei a pesquisa sobre o Brasil, e encontrei um artigo instigante de um doutorando de Universidade Federal do Paraná, certamente hoje Doutor, Fernando Uricoechea (2012), que faz referências à literatura acima referida e entra no Brasil com Caio Prado Júnior, Raymundo Faoro, Murilo de Carvalho e outros, até chegar a uma literatura mais recente, para explicar a especificidade da nossa formação social e das nossas elites, do Império ao Estado Novo.

Vista pelas duas vertentes teóricas, seja a marxiana ou a weberiana, está presente o patrimonialismo e a burocratização do estado no Brasil, desde a Colônia. A articulação importante para dar unicidade, ou como se queira dizer de outro modo, organicidade com as elites regionais (Das Províncias, depois Estados), segundo o autor, era feita pela Guarda Nacional, criada em 1831 e dissolvida em 1922, a milícia oficial a sustentar os governos oligárquicos. No Norte, como em todo o país, ficaram famosos alguns Coronéis de Barranco por sua crueldade.

Impossível não lembrar da história contada por minha vó. A seu modo, ela estava a dizer como era possível constituir uma elite e manter, não só o patrimônio familiar, mas como participar de uma rede de sustentação política ocupando os melhores postos, ainda no Império e, depois, na República…até hoje!

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