Sobre o velho & a velhice

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Que me perdoem, mas eu não gosto dessa coisa pasteurizada de se referir

à velhice como “terceira idade” ou mesmo “melhor idade”.

“Terceira idade” é um rótulo que, para mim, tenta marginalizar as pessoas de mais idade em guetos e, de certa forma, apaga a virtuosidade de quem acumulou mais anos de vida, mais experiência e sabedoria.

“Melhor idade”, por outro lado, não passa de uma fórmula enganadora e mercantilista que vende a ilusão de que a materialidade de que é feito o ser humano é perene e de que o tempo de juventude não ficou para trás.

É preciso, pois, encararmos essa realidade na sua justa forma, na sua plena factualidade e sem eufemismos. Primeiro, enfrentando a certeza de que, como dizia o poeta Cazuza, o tempo não para e o desgaste da matéria é irreversível. Ou, na contundente metáfora de Norberto Bobbio, desce-se lentamente um pequeno degrau de cada vez, sabendo-se que, ao degrau logo acima, não mais se retornará e que não há como fugir à implacabilidade da finitude da vida. E nada há de pessimismo nisso, apenas franqueza e quebra de ilusão.

Depois, admitindo que, se a vida tem um prazo de validade, ainda que não estabelecido com exatidão, o tempo pregresso é fonte viva de aprendizagem, experiência e sabedoria.

Voltando a Bobbio, “o grande patrimônio do velho está no mundo maravilhoso da memória, fonte inesgotável de reflexões sobre nós mesmos, sobre o universo em que vivemos, sobre as pessoas e os acontecimentos que, ao longo do caminho, atraíram nossa atenção.” E nada há de ilusão nisso, apenas cumprimento da natureza humana.

Por fim, reconhecendo que o despontar da velhice contabiliza em seu prontuário de vida, de uma forma ou de outra, um arsenal de contribuições que, salvo raras exceções, pode fazer do mundo um lugar melhor para se viver.

Por enquanto, é o que penso e sinto.

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