“Essa escola não mais será a mesma”, explica educador em livro

Por Wilson Nogueira

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Escritos na quarentena: reflexões sobre educação e tecnologia (valer), livro do professor José Augusto de Melo Neto, é um coletânea dez artigos que tratam dos efeitos da pandemia do novo coronavírus na educação brasileira.

O autor é diretor-presidente do Centro de Educação Tecnológica do Amazonas (Cetam), autarquia vinculada à Secretaria de Estado de Educação e Qualidade do Ensino (Seduc), que desenvolve ações relacionadas à oferta de educação profissional, com foco na capacitação de pessoas para o trabalho autônomo.

Doutor em Educação pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Melo Neto deu ênfase aos seus estudos em Tecnologia Educacional, atuando principalmente nos seguintes temas: informática na educação, formação de professores, pedagogia relacional, professores multiplicadores e ciberespaço.

Assim, Escritos na quarentena é um livro cujo autor faz suas reflexões sobre o cotidiano a partir da observação atenta da complexidade do mundo e, por isso, propõe discussões e soluções pertinente e contextualizadas.

O apresentador da obra, o professor da PUC-SP João Mattar, diretor da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed), destaca a riqueza de dados e fontes do livro, resultado do empenho do autor em abordar os temas escolhidos com responsabilidade social e ética.

[…] Você ainda encontrará, no livro, cuidadosas sugestões de protocolos de retorno às aulas presenciais e uma reflexão necessária para se conceber o ensino híbrido (ou blended)  pós-pandemia”, assinala matar.

A obra já está disponível para venda nas livrarias virtuais e no site  da Valer, mas o lançamento ocorrerá em data ainda não definida.

Confira a entrevista: 

Quais as suas motivações para escrever um livro em plena pandemia?

A ideia inicial foi a produção de um artigo de opinião com reflexões sobre a crise causada na sociedade pelo vírus na visão de um educador, considerando as consequências nos sistemas de ensino e a relação com as crises pré-existentes.

Era importante destacar este cenário para analisar o real impacto e encontrar possíveis alternativas educacionais.

Depois vieram os demais artigos e quando percebi tinha uma coletânea escrita durante a pandemia. Resolvi então compartilhar na forma de um livro.

Os problemas causados pela pandemia e suas consequências são volumosos. E as prováveis superações?

Sim, podemos afirmar que ainda estamos calculando os prejuízos sociais, econômicos e educacionais pela disrupção ocasionada pela crise sanitária da Covid-19.

As superações possíveis devem levar alguns anos, talvez uma década, e na área educacional os indicadores de aprendizagem foram afetados negativamente.

Isto, de certa forma, foi explorado no primeiro capítulo do livro, com a análise da sobreposição das crises educacionais, além dos impactos psicológicos e do aumento na situação de vulnerabilidade social dos alunos.

Em que medida os especialistas em educação poderiam contribuir para amenizar os transtornos da pandemia?

Uma proposta recorrente na construção do livro é sobre a importância ao dar voz aos educadores no planejamento das respostas para o setor educacional.

Especialistas em educação, digo verdadeiros especialistas nesta importante área, são bem-vindos ao debate. Infelizmente ainda temos muitos “especialistas” que não têm formação e nem experiência na educação.

Precisamos fazer essa distinção, para ir além de uma simples política de redução de danos, visando a melhoria no processo educacional pós-crise.

Qual é a expectativa de evasão escolar no período pandêmico. E como recuperar esses alunos?

No sétimo capítulo do livro, no qual foi abordada “A exclusão educacional e as consequências na pandemia” foi citada uma pesquisa que apontou 28% dos jovens (entre 15 e 29 anos) com a tendência de não retornar para a escola após o período de isolamento social. Infelizmente essa taxa de abandono vem se confirmando, por motivos diversos.

Um dos caminhos que os gestores podem adotar como medida é a construção de políticas públicas para a juventude neste novo cenário para combater as desigualdades ampliadas durante a pandemia.

Os cursos técnicos/profissionalizantes estão preparados ou estão se preparando para receber uma provável grande quantidade de alunos que ficaram fora da “idade escolar”?

A distorção idade-série no Brasil e no Amazonas já era elevada antes do surto, principalmente no ensino médio.

Não podemos ignorar este fato. A educação profissional, por meio dos cursos de qualificação e de formação técnicas, tem um papel decisivo com alternativa para a população e isso pode acontecer efetivamente dentro e fora da escola convencional. O ensino profissionalizante precisa ser mais valorizado.

E os professores, como sairão desta pandemia? Qual seria a necessidade de aperfeiçoá-los para lidar com o estado de autoestima pós-pandêmico?

Os professores demonstraram mais uma vez serem decisivos no atendimento dos alunos, mesmo com as escolas fechadas, e estão em processo de aprendizagem permanente.

A formação em competências digitais faz parte desta nova realidade e reconfigura os modelos de aprendizagem.

Por mais que pais e gestores desejem o retorno para a escola presencial pré-pandemia, podemos perceber que essa escola não será mais a mesma.

Quais são os seus interlocutores nessa obra?

No livro, além da referência ao pensamento do escritor Aldous Huxley, para exemplificar as números da desigualdade digital no Brasil, são citados outros intelectuais, como o sociólogo Boaventura Santos, os filósofos Albert Camus e Pierre Lévy, além do professor Michael Moore, em uma busca dialógica para a compreensão dos acontecimentos deste período de isolamento social sem precedentes.

Há outras obras em andamento?

No momento não, mas tenho em mente alguns projetos coletivos com o atual trabalho que desenvolvo na educação profissional.

É possível que participe da publicação de novos livros nesta área como coautor ou organizador.

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