Preso em Manaus, Jorge Amado acabou compadre do tira que o vigiou

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Imaginando que as novas gerações nada ou pouco sabem sobre a proibição dos seus livros e a sua prisão pelo estado novo, gostaria de dizer alguma coisa a respeito?

Já me referi a apreensão de Cacau em 1933. Em 1937, com o golpe do Estado Novo, houve a apreensão geral dos meus livros, sobretudo de Capitães de Areia, cuja primeira edição acabara de ser lançada pela José Olympio Editora; exemplares foram queimados em praça pública na Bahia e em São Paulo, com ata e tudo.

Fui preso várias vezes entre 1936 (quando se deu a minha primeira prisão em consequência do movimento armado de 1935) e 1945 (quando foi preso em São Paulo, juntamente com Caio Prado Júnior, Clóvis Graciano e vários outros).

Meu tempo mais longo de prisão foi em 1942, quando voltei da Argentina, após ter escrito (e publicado a tradução para o espanhol) o livro sobre o Prestes; fiquei preso de agosto até novembro, no Rio.

Creio possuir um curioso recorde: o de ter atravessado preso por todo o Brasil. Em novembro de 1937 fui preso em Manaus e enviado sob a guarda de um tira para o Rio, viajando de navio.

Em 1942, fui preso em Porto Alegre e enviado sob a guarda de um delegado para o Rio.

Edla van Steen, em Viver & escrever – Vol. 1. L&PM: Porto Alegre, 2008.

[…]

Quando retornou ao Brasil do giro pelas Américas, Jorge Amado entrou em cena pela segunda vez.

O navio que partiu de Nova York aportou em Belém, e o romancista paraense Dalcídio Jurandir o encontrou às escondidas para avisar que saísse imediatamente do país, no exterior sua denúncia da ditadura varguista seria muito útil, caso decidisse o exílio.

Jorge Amado conseguiu embarcar Matilde para o Rio.

Com a recomendação do paraense, obteve passaporte fornecido pelo cônsul da Colômbia.

A polícia política frustrou a fuga estratégica e o prendeu em Manaus.

No xilindró manauara, escutou um dos policiais contar que andava a vender clandestinamente muitos dos seus livros apreendidos, pois a procura era grande e o lucro, certo.

Jorge Amado ocupou uma cela onde havia só prisioneiros políticos. Nas outras, detentos comuns.

Ao seu lado, o folclorista Nunes Pereira e um comerciante português sem militância política, mas sogro de um dos participantes da Intentona Comunista.

Quando soltaram o português, Jorge Amado lamentou, pois da rica casa do sujeito enviavam comida das melhores – os relatos que deixaria das prisões são amenos, por vezes bem-humorados e presumivelmente romanceados.

Contava que, com o calor terrível, os presos passavam o dia inteiro debaixo do chuveiro, enquanto do lado de fora, na rua, escutavam integralistas passarem ameaçando-os de morte.

Um certo dia, um chefe de polícia o chamou para lhe perguntar por que estava preso, pois ele mesmo na sabia.

A certa altura, Jorge Amado resolveu fazer um protesto. Notava que nas celas próximas havia gente adoentada. O delegado autorizou que levassem os enfermos para o hospital e acabou por soltar o escritor, para ficar em liberdade vigiada num hotel.

Só podia sair acompanhado por um tira que era dentista que era dentista, de quem acabou padrinho de um dos seus filhos.

Por fim, mandaram-no preso para a capital federal, num navio, vigiado por um policial do Rio que estava a passeio no Amazonas.

Da viagem, no navio Pedro II, Jorge guardou uma imagem de que não se esqueceria: desceu o rio vasto, depois toda a costa, de Belém do Pará até a capital do país, vinte dias que guardaria par um romance.

Joselia Aguiar, em Jorge Amado: uma biografia. Todavia: São Paulo, 2018.

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