Acidente de percurso

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O jirau era o máximo do luxo de que podíamos desfrutar. Sim, as casas de minha meninice tinham jiraus! Mas será que essa gente criada hoje em apartamento sabe o que é um jirau? Na dúvida, vou explicar.

O espaço reservado à cozinha era sempre o cômodo final da casa. Na última parede, com enormes brechas entre as tábuas rústicas e irregulares, havia a porta que dava acesso ao quintal (Sim, as casas de minha meninice tinham quintais, longos quintais!) por meio de uma escada de madeira. Ao lado, havia uma janela de largura razoável e, como extensão dela, uma pequena plataforma também em madeira onde se tratava o peixe, cortavam-se as verduras e lavava-se a louça. Era o jirau!

Os jiraus mais sofisticados contavam com uma cobertura de zinco e o luxo de uma torneira. Os mais simples, como o de nossa casa, tinham ao lado apenas um camburão abastecido com água de chuva. Sempre a bubuiar, uma cuia, espécie de vasilha utilizada para retirar água do camburão. Nesse tempo, não fazíamos ideia do que era uma pia, dessas de pedra, louça ou metal.

O jirau de Mãe, além de se prestar a outros afazeres, abrigava, ao fundo e na extremidade direita, o fogareiro de ferro, nosso bem mais valioso na cozinha. Ao lado dele, uma lata com lascas bem finas e secas de madeira. Eram os cavacos, usados para dar início ao fogo, antes de se acrescentar o carvão.

Pelo lado de dentro, pendurado a um prego fixado na parede e ao alcance da mão, um abano de palha, tipo um leque, usado para atiçar o fogo. Naquele único fogareiro, Mãe revezava a cansada panela de alumínio do nosso sustento, empretecida no fundo e desgastada pelo uso e pelo tempo.

Naquele já quase fim da manhã, não diferente de tantos outros, o fogareiro já ardia acomodado no cantinho do velho jirau. As pedras de carvão, abraçadas pelas chamas meio azuladas, estalavam. As fagulhas subiam, desfazendo-se misteriosamente no ar. Enquanto cantarolava baixinho uma de suas músicas preferidas, Mãe segurou a velha panela pela alça e a levou ao fogo, dando uns pequenos trancos para que ela bem se acomodasse sobre as pedras de carvão salientes. Aproveitou para, com a ponta dos dedos, catar alguns caroços de feijão secos que teimavam em flutuar na superfície da água.

Depois, com a fervura já em alta, retirou dois caroços, com a ajuda de uma colher de pau, e apertou-os entre os dedos, para confirmar se o feijão já estava no ponto de cozido. Em seguida, Mãe acrescentou à panela uma porção de sal e os únicos ingredientes daquele almoço: couve, cortada em pequenos filetes, e folhas de chicória, colhidas em uma pequena horta que mantinha no fundo do quintal.

Sempre cantarolando baixinho, Mãe pegou um prato de esmalte que estava à esquerda do jirau para abafar a fervura e dar mais agilidade ao cozimento, como era de costume. Absorta na certeza de que o almoço dos rebentos e agregados estivesse garantido, não se deu conta de que, junto ao prato de esmalte, um pequeno e indesejável pedaço de sabão somou-se, acidentalmente, ao feijão. O estrago foi irremediável. Peito apertado, Mãe interrompeu o seu cantarolar e algumas lágrimas espalharam-se pelo seu rosto momentaneamente amargurado.

Minutos depois, resignada e já voltando a cantarolar bem baixinho, teve que apelar para um daqueles milagres que só Mãe mesmo sabia fazer: transformar dois ovos, uma pequena lata de conserva e meio quilo de farinha em um verdadeiro banquete.

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1 comentário
  1. Aldecir Diz

    Que maravilhosa lembrança dos meus tempos de infância, nostalgia do significado do jirau. Obrigada, pela bela escrita!

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