Cheia e a pandemia: a água urbano–ribeirinha

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Com a invasão das águas uma canoa circula onde havia o primado dos carros, motos e caminhões numa das principais avenidas de Parintins (AM).

Paira solenemente de onde havia sido expulsa pelo avanço do aterro e do asfalto, demarcando território entre a calçada e a rua que temporariamente sumiu.

Se antes “escostava”, hoje está estacionada rente ao meio fio, a canoa aparece como atributo simbólico de quem a necessita para sustento.

Semelhante às motos, canoas são alvos fáceis de roubos nessas beiras de rio que necessitam de flutuantes para resguardo com vigias pagos. O urbano afeta e altera a lógica das beiras e canoas. Mas não totalmente.

Essa água urbano-ribeirinha[i] também reflete o ecossistema de urubus que se multiplicam pelo lixo que a urbe propicia. Poluída, com beiras privatizadas, repleta de flutuantes e palafitas, a água urbano-ribeirinha parece nos indicar uma outra Amazônia, urbanizada[ii] e cada vez mais desigual.

Alguns cardumes de ousados e pequenos peixinhos passam rapidamente pela faixa de pedestre submersa, nos remetendo a distopias famosas de cidades que “afundaram”.

Ao fundo, os olhares cansados de enfermeiros no outdoor sofrem desgaste das ininterruptas chuvas e do intenso sol amazônico.

O protesto da categoria reivindica reconhecimento salarial e não apenas aplausos e “romantização” pelo heroísmo tão propalados pela mídia. Vale lembrar que as embarcações que espalharam o vírus agora deslizam pelas águas trazendo doentes de todas as comunidades e cidades vizinhas.

Na barraca de frutas e produtos extrativistas a diversidade dá lugar apenas a dois produtos vindos de Santarém (PA): laranja e banana, possivelmente oriundos de terras firmes. Todo ano as cheias alagam várzeas que são áreas de cultivo de ciclos curtos (sazonais).

Mas a cheia extrema atual (2021) alagou terras antes não inundáveis, destruindo também uma série de cultivos perenes. Os preços sobem junto com as águas…

Por fim, a maior cheia da história coexiste com a catastrófica pandemia, cujo singelo fragmento de paisagem capturado na foto descortina inúmeras contradições “urbano-ribeirinhas”.

O socioambiente[iii] da cidade com dinâmicas culturais ribeirinhas pode ser entendido pelos fluxos que ocorrem por suas águas. Essa água urbano-ribeirinha é contaminada ao sair das torneiras[iv], transborda esgotos e fossas, flutua dejetos e resíduos, adoecem a quem ingere. Conecta a cidade aos interiores e às demais cidades. Mas também nela brincam curumins e cunhantãs e deslizam as canoas e bajaras o alimento e esperança, resistindo tenuemente frente ao caos, mas sem perder a ternura. Jamais!

Canoa, urubu, peixes, enfermeiros, banana e resíduos urbanos. Todos conectados pela água urbano-ribeirinha, que não para de subir.

Referências

[i] O termo “urbano- ribeirinho” tem sido usado pelo autor em pesquisas na área de geografia para entendimento do processo urbano regional. Para ver as publicações científicas do autor consulte seu currículo online na Plataforma Lattes:

http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/busca.do

[ii] Uma série de clássicos sobre a temática Amazônia urbana  podem ser consultados onde diversos termos são usados para entender a difusão do fenômeno urbano na região: “fronteira urbana” (BECKER, 1990), “floresta urbani­zada” (BECKER, 1995), “urbanização na selva” (OLIVEIRA, 2000), “urbanização complexa e desarticulada” (BROWDER; GODFREY, 2006) e “urbanização extensiva” (MONTE-MOR, 2014).

[iii] Para averiguar a discussão sobre a ideia de socioambiente e o papel da água no entendimento da cidade, consulte: SWYNGEDOUW, E. A cidade como um híbrido: natureza, sociedade e “urbanização-cyborg”. IN: ACSELRAD, H. (org.). A duração das cidades. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.

[iv] População de Parintins consome água imprópria, diz Ministério da Saúde:

https://amazoniareal.com.br/populacao-de-parintins-consome-agua-impropria-diz-ministerio-da-saude/

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1 comentário
  1. Agenor Diz

    Que foto !!!!

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