“O fantasma e a travessia” é o novo livro do escritor Victor Leandro

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O escritor e professor de Filosofia na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) Victor Leandro acaba de publicar um novo livro: O fantasma e a travessia (Clube de Leitores), definido por ele como uma narrativa um tanto sinuosa dos fatos políticos do presente.

Esse é o quarto livro de Victor Leandro, que já publicou O norte impossível – ficção memória e identidade em narrativas de Milton Hatoum (prêmio Cidade de Manaus, categoria nacional Luiz Ruas, destinado ao melhor romance sobre literatura), O artista do fracasso (Editora Saramago) e a novela Estocolmo (Editora Transe).

Participando das inquietações recônditas de Natus Símile, a obra percorre, numa espécie de autoanálise em delírio, toda a sua trajetória da infância à maturidade, passando pelos conflitos mais latentes da infância até sua ascensão nas esferas da alta burguesia.

Esses delírios em fluxo revelam, por meio de suas elaborações imaginárias, todos os flagelos que aplacam e oprimem a cena pública brasileira, especialmente quanto às arbitrariedades dos poderosos, a ascensão reacionário-fascista e o caos sanitário vigente.

Assim, a narrativa procura, por meios sobretudo alegóricos, uma síntese crítica, a qual se revela no questionamento existencial da personagem, em quem, apesar de ter alcançado os mais elevados níveis de influência e tornar-se praticamente um mandatário da república, permanece uma nódoa de frustração e desalento.

O embotamento da realidade e suas consequências ficam mais claros até mesmo para os leitores menos atentos, porque são ditas por intermédio de fina ironia, aforismos subjacentes e  crítica aguçada.

Trecho

[…] Eu estou aqui como agora e como ontem estive, como sempre estarei. Não creem? Ótimo, está além do que seus olhos permitem ver. Eu sou matéria de que por esse lado se fazem as coisas. Em todos os espaços, aliás. Os outros não passam de farsas. Inventam lorotas e fingem para o público. Arranjam pantomimas engraçadas. Eu não. Eu existo. Eu sou a voz. Eu estou no mundo.

Então o que digo a vocês é sobretudo me ouvir, com dedicada atenção. Por certo sabem, é o dinheiro que fala, porém o faz através de mim. Imaginam que digo sandices . Talvez. Mas a realidade é insana, esse é o fato, e por isso estão à frente. Justa a razão pelo que a compreendo perfeita.

Ás vezes os outros ficam a cochilar que me perco em metáforas, que digo imensas bobagens, as quais por obrigação precisam ouvir, mas a verdade é que sou um arauto, um anunciado, embora com um agudo senso pragmático, de modo que o que faço conscientemente é  confundi-lo, provocar disrupção em cada uma das mentes, para depois lhes dizer os fatos anteriormente insolúveis, os únicos autênticos decisivos […]

Natus Símile, personagem


ENTREVISTA 

Qual é a comunicação que o senhor quis estabelecer com o leitor a respeito de ficção e realidade?

A proposta da obra foi de conceber uma narrativa dos fatos políticos do presente. Assim, todo o seu plano organizativo está assentado em eventos da realidade brasileira contemporânea. Contudo, no processo da escrita, percebi que uma aproximação mais literal não seria tão incisiva, posto o quadro que se apresenta a nós ser de tal maneira aberrante que talvez nenhum enredo mais direto seja capaz de o potencializar. Desse modo, a opção que fiz foi pelo percurso alegórico, que penso poder dar mais alternativas interpretantes na experiência da leitura.

Qual é a melhor definição para Natus Símile nessa trama que trata de questões complexas, como poder e autoritarismo?

Natus Símile é um alto representante da burguesia brasileira, que é quem de fato dita as normas e os rumos a serem seguidos pelo país. Assim, a imagem que se traça inicialmente dele é de uma figura poderosa, acostumada a dar as cartas sobre os destinos da nação, especialmente quanto aos processos econômicos e políticos.

Desse modo, em sua trajetória podem ser vistos os elementos que determinam as formas de ascensão e dominação das classes abastadas. Por outro lado, a personagem guarda diversas fragilidades e contradições, também típicas dessas figuras que se amparam nos signos da autoridade, notadamente a financeira e a institucionalizada. Quanto a esse aspecto, o mérito de Natus é o de pôr esses antagonismos em exame, ainda que de forma um tanto forçada e difusa.

Dá pra afirmar que a sua obra é uma criação literária filosófica?

Albert Camus nos fala que um romance nunca passa de uma filosofia posta em imagens. Devido a minha formação e influências, costumo seguir atentamente essa premissa. Logo, podemos pensar a obra também como uma narrativa filosófica.

E, falando em filosofia, um leitor nietzscheano certamente se sentirá em ambiente conhecido. É isso mesmo?

É bem provável que sim. Há questões a respeito da vontade de potência nietzscheana que podem encontrar ressonâncias na obra e nas suas personagens. Mas claro, é possível que se tracem também outros caminhos.

Quais são as suas principais interlocuções nessa obra?

Acredito que, além dos autores que já citei, há uma tentativa recorrente de aproximação com certos conceitos psicanalíticos, em especial os ligados à teoria lacaniana. Literariamente, ao longo da escrita, sempre imaginei tentar aproximar-me do projeto de Faulkner.

Lembro-me de uma vez ter lido em uma de suas entrevistas, acho que a propósito de O Som e a Fúria, que às vezes ele sequer tinha noção de estar escrevendo um romance, ou seja, ele simplesmente deixou-se conduzir pelo fluxo frenético da trama. Ao longo da minha elaboração, foi esse tipo de experiência que procurei encontrar e exprimir.

O senhor já tem alguma informação a respeito da recepção deste livro?

Na verdade, não. Como o livro é recém-lançado, é bem provável que leve um tempo até aparecerem as primeiras impressões. Ou talvez sequer estas apareçam. Verdade é que a gente nunca sabe qual o destino de um livro. Nesse sentido, ele é sempre uma mensagem na garrafa que se lança ao rio, ou ao mar. A gente os escreve e pronto. O resto é o leitor, se houver, quem o diz.

Mas o senhor imagina alcançar algum nicho de leitores?

Penso que é uma obra que não se destina a um público em particular, embora deva ser mais atrativa para os que estão familiarizados com as ideias de base com que dialoga. Porém, levando-se em conta o fato de tratar de uma realidade premente, acredito que possa endereçar-se a um leque de leitores bastante amplo, que talvez possam encontrar ali elementos para pensar o seu tempo. Pelo menos, essa é a contribuição que tenciono oferecer

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