“A política envergonhada”

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“Tarefa e objetivo da política é a garantia da vida no sentido mais amplo. Ela possibilita ao indivíduo buscar seus objetivos, em paz e tranquilidade, ou seja, sem ser molestado pela política – sendo antes de mais nada indiferente em quais esferas da vida se situam esses objetivos garantidos pela política, quer se trate, no sentido da Antiguidade, de possibilitar a poucos a ocupação com a filosofia, quer se trate, no sentido moderno, de assegurar a muitos a vida, o ganha-pão e um mínimo de felicidade”, Hannah Arendt, em “O que é política”, p.46 (RJ: Bertrand Brasil, 1999).

Ao começar assim, evocando tão suprema autoridade, não escondo a minha insegurança intelectual ao tratar do tema, que requer conhecimentos profundos e, assim mesmo, esforçando-me para alcança-los, ainda revela paixões inusitadas. Ah! O título é uma singela referência ao Jornalista Elio Gaspari, comentarista político e autor de “Ditadura Envergonhada”, o primeiro entre os seus cinco livros sobre a Ditadura Militar no Brasil.

Começar citando uma obra póstuma de Hannah Arendt tem como pressuposto conferir autoridade acadêmica ao estudo da política e, ao mesmo tempo, uma interrogação: qual seria o registro final do pensamento da filósofa sobre a política?

O meu encantamento com a sua maneira de pensar e interrogar as coisas do nosso mundo do século XX se deu no início dos anos de 1970 ao ler, diversas vezes, sua obra madura “Entre o passado e o futuro”, publicada pela Editora Perspectiva, 1972, com a última revisão, pela autora.

À época, eu já exercia o magistério e, por oportuno, a obra virou livro de cabeceira e eu delirava ao tentar interpretar coisas assim, lá na página 226, da minha edição: “pertence à própria natureza da condição humana o fato de cada geração se transformar em um mundo antigo, de tal modo que preparar uma nova geração para o mundo novo só pode significar o desejo de arrancar das mãos dos recém-chegados sua própria oportunidade face ao novo”.

Pensar a liberdade, a educação, a política, os modelos de dominação política vividos pelos humanos como o Anti Semitismo, o Imperialismo e o Totalitarismo, com Arendt, é correr sempre no fio de uma navalha; um só escorregão implica golpe profundo na própria carne! Para a autora, na linha geral de sua obra filosófica completa, a “coisa política” é o modo da ação da política fazer-se como tal e garantir a liberdade enquanto bem supremo da vida, mas colocada fora dela para verdadeiramente ser considerada liberdade. E isso poucos entendem, outros fazem o possível para assim não entender e outros, ainda, conscientemente ou estrategicamente, agem para subordinar a liberdade à política, o que redunda sempre em crise, crise que se desencadeia, segundo Arendt, todas as vezes que “perdemos o juízo” e, para ela, ao falar em juízo está se referindo ao “senso comum” no trato da crise política.

Ao olhar para mais perto, o mundo em que vivemos a nossa cotidianidade, terreno da nossa “pátria comum” e berço de nossas ilusões, “faço das tripas coração” para entender o espetáculo midiático descortinado aos nossos olhos e, através dele, reconhecer os mecanismos do fazer político no Brasil nesse momento crucial, quando um velho tipo estranho de política se nos apresenta; não só como “pandemia”, mas, também, na forma sutil de violência feita ação política deliberada, ameaçando a liberdade e, por consequência, o verdadeiro bem maior, que é a vida.

Vejo também, na figura daqueles ilustres senhores que se digladiam e que se apresentaram legitimamente ao jogo da política e nós os escolhemos para nos representar nos espaços de poder, a expressão de “um mundo antigo” e, ao mesmo tempo, sinto brotar dentro de mim a esperança que neles não se espelhem os que estão chegando, a fim de não perderem a oportunidade de construir um mundo novo.

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