Nem tudo que reluz na História do Ocidente tem luz própria segundo Jack Goody

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De fato, poucas culturas estabelecem um vínculo entre o seu próprio passado com o passado das outras civilizações. Muitos observadores, no entanto, rotulam isso como mito, em vez de história.

O que caracteriza a postura europeia, assim como a das sociedades simples, é a extensão de um impulso egocêntrico na base de grande parte da percepção humana e se realiza pelo domínio de fato de muitas partes do mundo.

Eu vejo o mundo necessariamente com os meus olhos, não com os olhos dos outros.

Como mencionei na introdução, estou consciente do surgimento de tendências contrárias na história mundial. Entretanto, esse movimento não avançou o suficiente em ternos teóricos, especialmente no que diz respeito às grandes fases pelas quais a história mundial é concebida.

É necessário um pensamento mais crítico para combater o inevitável caráter etnocêntrico em qualquer tentativa de descrever o passado ou o presente do mundo.

Isso significa, primeiramente, ser crítico quanto a pretensão ocidental de ter inventado atividades e valores como democracia e liberdade.

Em segundo lugar, significa olhar para a história a partir da base e não de cima para baixo (ou do presente).

Em terceiro lugar, dar o peso adequando ao passado não europeu.

E quarto, é necessário a consciência de que até mesmo a espinha dorsal da historiografia – a localização dos fatos no tempo e no espaço – é variável, objeto de construção social, por isso sujeita a mudança.

Portanto, não se trata de categorias imutáveis que emanam do mundo na forma como são apresentadas na consciência da historiografia ocidental. As dimensões atuais de tempo e espaço foram estabelecidas pelo ocidente. Isso porque a expansão através do mundo requereu controle temporal e mapas que emolduravam a história, tanto quanto a geografia.

É claro que todas as sociedades têm alguns conceitos de espaço e tempo em torno das quais organizam seus cotidianos. Esses conceitos tornaram mais elaborados (e mais precisos) com o advento da leitura e da escrita, que previu a capacidade para precisar ambas as dimensões.

Foi a invenção da escrita na Eurásia que deu, para a maioria de suas sociedades, vantagens consideráveis, em comparação com a África oral, por exemplo, no cálculo do tempo ou na criação e desenvolvimento de mapas e não alguma verdade inerente à maneira de o mundo estar organizado em termos de espaço e tempo.

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as instituições de educação do Ocidente ao certo eram diferentes, mas só mais recentemente caminharam resolutamente em direção ao ensino secular.

Em essência, elas não estavam limitadas ao Ocidente, nem tinham um formado especial que teria aberto caminho para o capitalismo. Isso é história teleológica.

Abordando a questão da universidade na Idade Média europeia, Le Goff escreveu: “No começo, havia as cidades. O intelectual ocidental medieval nasceu com ela. Isso não aconteceu na chamada Renascença Carolíngia, mas somente no século XII.

Entretanto, cidades intelectuais e universidades não estavam restritos ao Ocidente, nem as instituições eram fundamentalmente diferentes de suas congêneres no Oriente, embora mais tarde, essa diferenciação tenha ocorrido.

A questão das universidades assim como a questão das cidades é um assunto técnico e deve ser tratado como tal.

Em quais aspectos elas diferem das outras instituições de educação superior de outros lugares?

Em vez disso, assumiu-se uma posição absoluta em que valores elevados tem sido sobrepostos a categorias.

Não é assim que a história do passado deveria ser escrita.

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muitos europeus se veem como herdeiros do Humanismo e do Iluminismo, bem como das Revoluções Francesa, Americana e Inglesa, que supostamente produziram novas sociedades, novas formas de vida.

Um aspecto dessa nova e iluminada vida é a democracia moderna.

A Europa também reivindica valores que são considerados invenção dela num nível retórico ( e em particular num nível textual) e tidos como de aplicação universal, mas que, na prática, são tratados contextual e contingencialmente.

A distância entre os objetivos manifestos (valores) e a prática real pode ser muito grande; e considera-se que o Oriente carece de ambos.

Na verdade, valores humanos e, nesse sentido, humanismo são encontrados nas sociedade humanas nem sempre da mesma forma, mas frequentemente de forma comparável.

Com certeza, a tríade individualismo, igualdade e liberdade não pode ser associada, exclusivamente, à democracia moderna nem ao Ocidente moderno.

Com a caridade, ela se encontra disseminada de modo muito mais amplo.

 

Jack Goody, em O roubo da história: como os europeus se apropriaram das ideias e invenções do Oriente (Contexto), São Paulo, 2006.

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