Pesquisadores destacam conhecimento amazônico por meio da História Oral

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O passado, o presente e o futuro da Amazônia exigem novas abordagens historiográficas para romper silêncios, transpor arquétipos da história oficial e se voltar para os seus fundamentos orais.

Essa é a reflexão que o livro Amazônia: apontamentos de história oral (Valer), organizado pelas professoras Lúcia Puga e Tatiana Pedrosa, e professor Ranan Freitas Pinto, quer suscitar nos leitore(a) s interessado(a)s em (re)conhecer a Amazônia complexa e dialogar com ela.

A obra, patrocinada pela Fapeam, é composta de dez artigos resultados de pesquisas e estudos de docentes, discentes e colabores do Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas (PPGICH-UEA), criado em 2016.

Os pesquisadores colaboradores atuam em outras universidades em projetos afins, principalmente na região norte. De 2016 até agora, PPGICH já formou 72 pesquisadores.

“A história oral é uma das possibilidades da realização de novos métodos de pesquisa e novos conhecimentos”, explica a professora Lúcia Puga. Isso se torna viável, segundo ela, em programas de pesquisa que adotam a postura transdisciplinar como reflexão e realização das suas pesquisas.

“A história oral pluraliza as falas, e o resultado é que conseguimos conhecer a Amazônia por meio de relatos, autobiografias e álbum de família”, assinala a professora Tatiana Pedrosa. A história, por meio desses vieses, passa a ser o resultado da diversidade do pensamento e ações compartilhados entre os sujeitos das histórias, seus interlocutores e as sociedades.

Trecho

O trabalho nesse tempo era matar pirarucu, matar jacaré, pegar tartaruga no tempo que tinha tartaruga, pra vender. Os pescador que era pescador mesmo vivia só da pesca. nesse tempo não tinha essa arrumação de malhadeira, de pesca de malhadeira. Isso não tinha, era só hástea mesmo. E algum que tinha caniço e flecha. Tinha muito produto, né? Porque ia lá dentro de um lado desse, matava a quantidade de pirarucu que ele quisesse e vinha embora. Vendia, voltava de novo, comprava o rancho. Ia embora matar jacaré, pirarucu. E tinha gente que não fazia nem roça porque garantia que pescava bem [….] A produção de agora modificou. A produção de agora já é tambaqui, surubim e naquele tempo era só pirarucu e jacaré. Não ligava pra tambaqui, surubim, essas coisas assim eles não ligava. Basta dizer que eles não ligava nem pra iaçá, nem pra tracajá, porque tinha muita. E agora não tem mais o pirarucu nem o jacaré. O jacaré tem, mas não pode matar.

Ladisláu Delvésio, São João, maio de 2001, em Memórias de Mamirauá: a comunidade de São João, estudo de Edna Ferreira Alencar

“A história oral, como diz Pollack, vem lidando com embates, de uma parte, entre a memória social e nacional, e de outra, com a memória dos grupos marginalizados, em muitos casos, memórias subterrâneas que, de modo cada vez mais crescente, emergem para esse enfrentamento”, escrevem os organizadores na apresentação da obra.

Explicam os três organizadores que a história oral procura, em lugar de se limitar  a um discurso homogêneo, captar e expressar a pluralidade dessas vozes que emergem da memória dos diferentes setores e classes sociais: mulheres, sem teto, sem terra, sem emprego e renda, menores de rua, indígenas etc.

[…] a História Oral se constrói aprendendo com esses personagens, com suas múltiplas experiências, como esse deslocamento de todo o modo de projetar a pesquisa. Como também já se observou, a História Oral faz também com que brilhe o que antes aparecia apagado e pouco visível”, assinalam os professores.

Acrescentam ainda que é crescente a emergência e reconhecimento dos povos sobreviventes da Amazônia, fato que sinaliza para a visibilidade das suas dimensões míticas, narrativas e culturais, na medida em que esses povos se investem também na condição de povos da escrita.

Por outro lado, vislumbram que o futuro da história da Amazônia será voltada para os seus fundamentos orais, como demonstram o resultados da Cartografia Social, levado a efeito por pesquisadores de diferentes saberes, e que revelaram as possibilidades de interdisciplinaridade que se encontram compreendidas nos exercícios das pesquisas alicerçadas na oralidade.

“Lembremos que ao longo desse tempo, e mesmo antes, ciências como a sociologia, a etnologia, a demografia, psicologia social e demais ciências humanas vêm lançando mão dos recursos da oralidade em suas buscas teóricas e temáticas”, afirmam.

Lúcia Puga, Tatiana Pedrosa e Renan Freitas também destacam exemplos da importância da oralidade nas artes, para romper com o silêncio das sociedades relegadas ao papel de objetos da História e da criação artística.

“O cinema de Eduardo Coutinho busca romper com esse silencia, conversando de igual para igual com as pessoas, em especial com aquelas que dificilmente podem fazer de si mesmas e de suas lembranças”, destacam.

Da literatura, ele e elas citam o exemplo do conto Entremeio: com o vaqueiro Mariano, de Guimarães Rosa, um prenúncio, em termos estilístico e estético, do que viria ser o romance Grande Sertão: Veredas.

“Sobre o convívio com os bois, o vaqueiro Mariano relato os pormenores da sua vida em estreito contato com os animais que chega a entender a se identificar mais do que com as pessoas. Essa conversa com o vaqueiro Mariano tornou-se – como o próprio Guimarães Rosa reconhece – a base da construção de sua narrativa literária, fundada em vários sentidos, em elementos da oralidade”.

CONTEÚDO
Títulos Autor(a)es
Encontros epistêmicos e a formação do pesquisador em história oral

 

 

Dernival Venâncio

 

Mulheres de Mamiruá: relatos orais sobre trabalho, maternidade e sobrevivência na várzea amazônica.

 

Edila Arnaud Ferreira Moura

Jorane Ramos de Castro

Marília de Jesus da Silva e Sousa

 

Saberes, aprendizado engajamento de mulheres artesãs em unidade de conservação na Amazônia.

 

Marília de Jesus da Silva Sousa

Ana Claudeíse Silva do Nascimento

Ronisson de Souza Oliveira

 

Memórias de Mamirauá: a comunidade de São João

 

Edna Ferreira Alencar

 

Memórias do trabalho na fronteira: as marcas coloniais da produção de ferro-gusa e acailândia (MA)

 

Edna Castro

 

Trabalho, memória e direito à cidade no interior da Amazônia brasileira

Coari, década de 1980 a 2000)

 

Nelson Tomelin Jr.

 

Elas falam do porto da Manaus Moderna (2012-2018)

 

Rafaela Bastos de Oliveira

 

O povo Magüta, a Cobra-Norato/Arco Íris e as identificações Tikuna

 

Patrícia Falhauber
Entre oralidades, memórias e objetos: por uma arqueologia histórica da cidade de Manaus Flávia de Oliveira Fernandes

Tatiana de Lima Pedrosa Santos

 

No banzeiro do patrimônio cultural: as narrativas e atuações do Iphan no Amazonas

 

Mônica Almeida Araújo Nogueira

Mauro Augusto Dourado Menezes

Rafael Nascimento de Ezevedo

 

Narrativas de Idosos

 

Lúcia Puga

Georgia Pozzetti Daou

 

 

Perfis 

Lúcia Puga

Professora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), vinculada ao Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas (PPGICH/UEA) e aos cursos de bacharelado em Administração e Ciências Econômicas.

É graduada em Ciências Sociais (USP), mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam) e doutora aaem Antropologia (UFF).

Tatiana Pedrosa

Arqueóloga responsável pelo Laboratório de Arqueologia Alfredo Mendonça – SEC/AM) e professora do Programa de Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas (PPGICH/UEA).

Mestre em Ciências Humanas.

É líder do Grupo de Pesquisa do CNPq – Nipaam – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Arqueológicas da Bacia Amazônica.

Coordena o projeto Universal CNPq de Pesquisa Arqueologia, Patrimônio e Cultura: a cura para as feridas recentes e antigas na Belle Epoque Amazônica (2017).

Renan Freitas Pinto

Professor titular da Ufam; pesquisador visitante nacional Sênior da Capes no PPGICH/UEA.

Doutor em Ciências Sociais (PUC/SP).

Autor de A sociologia de Florestan Fernandes e A viagem das ideias.

Organizador com Élide Rugái Bastos dos três volumes de Vozes da Amazônia.

Organizador com Edna Castro de Decolonialidade & Sociologia na América Latina

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