A Colonização, a Amazônia e os loucos: uma leitura de O Andaluz de Wilson Nogueira

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Neste 2021, O Andaluz chegou à sua terceira edição, romance lançado em 2005, com uma segunda edição em 2012 (Valer).

O autor, um ribeirinho amazônida, da Baixa da Xanda, cujos primeiros anos de vida se passaram na liberdade e boniteza do rio Uaicurapá e do Paraná do Xibuí, interior do município amazonense de Parintins.

Pós-doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Wilson Nogueira, sociólogo e professor, é um profícuo jornalista, com uma vida de quarenta anos dedicada ao jornalismo no Amazonas.

Como escritor é autor, ainda, de Órfãos das Águas (1997), Festas Amazônicas – Boi-Bumbá, Ciranda e Sairé (2008), Formosa, a sementinha voadora (2010) e Boi Bumbá – Imaginário e Espetáculo na Amazônia (2014), Está escrito – textos para além do cotidiano (2011), co-organização com Tenório Telles e Ecossistemas Comunicacionais: história, projetos e perspectivas” (Valer, 2014), em co-autoria com Gilson Monteiro e Mirna Feitoza.

Será que fazer literatura na e/ou a partir da Amazônia é diferente de fazer literatura no Sul ou Sudeste, por exemplo?

Não me refiro, obviamente, aos processos do fazer criativo de cada autor, porém, às condições, materiais e sociais, subjacentes do lugar a partir do qual se escreve, onde os autores lutam constantemente contra a invisibilidade de seu fazer literário, consequentemente, de suas obras.

Na Amazônia, autores nascem e morrem, tantas vezes, sem nunca ter conseguido ir além dos limites de seu município. Não simplesmente porque suas obras sejam carentes das ditas “qualidades e méritos literários”.

Ocorre-nos que a colonialidade do pensamento não é apenas um fantasma do passado, senão uma constante do presente.

A ponto tal que, de costas para nós mesmos, somos forjados, desde cedo, ao “padrão” de qualidade que nos é imposto, cotidianamente, pelo que vem de fora, sobretudo importado pela grande mídia, em detrimento do “folclore regional”, dos “artistas da terra”.

Sim, eles produzem cultura; nós, no máximo, folclore. Deste modo, quase sempre, nossa pintura, nossa música, nossa literatura, nosso teatro, enfim, as mais diversas manifestações artísticas e culturais são sempre preteridas diante padrão importado dos grandes centros produtores da “alta cultura”. Por muito tempo, até as nossas universidades ignoravam o que se produzia localmente.

Neste sentido, o aparecimento da terceira edição de O Andaluz demonstra não só a grandeza literária da obra, mas também a possibilidade do contradiscurso, da resistência aos padrões de gostos duvidosos que nos são importados e apresentados diariamente por uma parcela significativa da imprensa, com suas TVs, rádios, mídias sociais etc., que teima, tantas vezes, em invisibilizar o que se produz nestas múltiplas Amazônias.

Há, no meu entender, em O Andaluz” uma certa decolonialidade. Olhar a Amazônia a partir do olhar de um louco rompe significativamente com o padrão eurocêntrico, acostumado a olhar a Amazônia pelos olhos dos cientistas, dos homens de ciência; dos sábios, portanto.

O Andaluz, ao que me parece, soa como uma metáfora da colonização da Amazônia. Assim as personagens centrais, a saber, Andaluz, que, não por acaso, supõe-se da região hispânica da Andaluzia, bem como Tomás de Aquino Brandão, Pierre Latin e Ranzo de Antarre, responsáveis por conduzirem a narrativa, nenhuma é da Amazônia.

Vila Bela da Rainha, onde se ambienta boa parte da trama, já nos remete à colonização europeia, sobretudo, à era pombalina, quando os nomes indígenas dos povoados e cidades foram cambiados para nomes portugueses. A própria Vila Bela da Rainha está assentada sobre um antigo aldeamento indígena.

Andaluz, o Louco da Palmeira-Imperial, assim nominado por Tomás de Aquino, mora, como diz o nome, debaixo de uma palmeira-imperial, na praça central de Vila Bela da Rainha.

Assim como a palmeira-imperial destoa da paisagem amazônica, já que não é uma planta típica da Amazônia, da mesma forma Andaluz destoa da paisagem social da Vila. O Andaluz não tem estatura, nem rosto definidos. É uma espécie de arquétipo. Ele é aquilo que cada um é capaz de ver ou imaginar. E, como louco, vive indiferente ao olhar “sartriano” do outro, a tudo o que o cerca.

Logo no início do romance, o autor faz uma referência à pintura Nau dos insensatos (c. 1490-1500), do renascentista brabantino Hieroninus Bosch (1450-1516). Nessa referência, penso, encontra-se uma importante chave de leitura de todo o livro.

Diz Tomás de Aquino ao avistar Andaluz: “Penso logo que algo nos une. A imaginação leva-me a acreditar que essa embarcação que conduz são e loucos pode ser o nosso elo, pois a água e a loucura têm uma velha aliança: elas abrigam e dão vida aos rejeitados pelos padrões de consciência” (p. 10).

Na Nau dos insensatos de Bosch, observa-se, ao centro, vários tipos humanos que se espremem em um pequeno barco, à deriva, cantando, comendo e bebendo, entre os quais, alguns religiosos (padre e freira).

Há duas árvores, uma central, à semelhança de mastro, onde, na pequena copa, encontra-se uma coruja, símbolo da sabedoria; na outra, mais frondosa, encontra-se, em um de seus galhos, sentado, de costas para a cena, a figura de um bobo, ao que supõe-se, indiferente ao banquete dos “normais”, “desinteressado, talvez entediado, como se ele, um bobo, fosse menos tolo do que as pessoas que passam o tempo no barco de maneira viciosa e blasfema”.

Andaluz é o bobo, o louco, que vive indiferente aos padrões de consciência e normalidade impostos pela sociedade. Nesse romance, é pela boca dos loucos que se percebe os lapsos de lucidez. É assim, por exemplo, com o Padre Augustus, tido como louco pelos demais religiosos, porque é o mais humano de todos, e não se rende à corrupção do clero.

Vila Bela da Rainha, às margens do portentoso rio Amazonas, tem como uma de suas grandes fontes econômicas, o turismo.

Por isso, na alta temporada, todos os loucos da cidade são postos num navio gaiola, para rumar sem destino, como a nau dos loucos.

Higienizada dessas paisagens incômodas, a cidade está pronta para receber os turistas. Vila Bela da Rainha é, de certa forma, uma metáfora da Amazônia, que precisou higienizar-se, livrar-se dos povos indígenas para entregar-se aos deleites dos colonizadores, europeus primeiramente, e latifundiários, grileiros, madeireiros, fazendeiros, sojeiros e garimpeiros, atualmente.

No romance, percebe-se a cidade como símbolo da racionalização. Simboliza os são e o triunfo da civilização; enquanto a floresta são os loucos, os incompreendidos, o irracional, os que não se encaixam nos padrões da racionalidade cristã eurocêntrica.

A floresta e a água são os espaços para o mistério, para o inalcançável. O lugar da magia, das encantarias, das lendas, das Icamiabas, do lago Espelho da Lua. E foi essa “irracionalidade” que não permitiu esse modelo de racionalidade triunfar, isto é, de levar a cabo o projeto definitivo de destruição da Amazônia, ainda hoje em curso.

Lalina, incialmente, é nos apresentada como uma das loucas de Vila Bela da Rainha, juntamente com Mimi, Tibinga, Passos-Largos, Beni, Gaivota e Adolfo Florido, que diz: “o racional, para os são, é entulhar os loucos no hospício, ou em algo parecido, para que eles se encaixem no grande sistema” (p. 31).

Lalina é uma indígena, arrancada de sua cultura, de seu povo, e levada para a cidade, para servir como empregada. Mas Lalina não se submete ao triunfo da civilização, com suas cachaças e sermões. Encontra na loucura a sua forma de resistência.

O Andaluz ganhou sua primeira edição no ano de 2005. Dezesseis anos depois, segue, assustadoramente, a surpreendendo-nos pela sua atualidade. Como, por exemplo, quando se refere ao episódio do jovem vereador Azedo, que havia feito uma proposta de conceder o Título de Cidadão Benemérito de Vila Bela da Rainha ao Poeta, “homem culto da cidade que, na juventude, foi militante do Partido Comunista do Brasil”, para o desespero do Bispo que via no comunismo a “ideologia do Satanás”. Sofrendo ameaças do Bispo, Azedo ver-se obrigado a voltar atrás.

O Brasil de hoje é o vereador Azedo, ante tantos bispos que, para disfarçar sua corrupção e mau cheiro, veem comunismo em tudo que não se encaixa na sua racionalidade estreita e mesquinha.

A meu ver, Tenório Telles e Antônio Paulo Graça, em seus Estudos da Literatura do Amazonas (Valer, 2021) deixaram apenas a desejar, quando não incluíram esse importante romance, que em muito engrandece a literatura brasileira produzida no Amazonas. Escrito numa linguagem enxuta, fluente e com um enredo que incorpora tão bem a multiplicidade do imaginário amazônico. Que permite tantas abordagens, tantos questionamentos, tantas possibilidades de leituras e entendimentos. E ainda traz uma temática de longa tradição na literatura, porém tão pouca explorada por aqui, qual seja, a loucura.

Ezra Pound afirmava que um clássico é uma novidade que permanece novidade. O Andaluz, de Wilson Nogueira, certamente é uma novidade que há de permanecer novidade ainda por muito tempo. Afinal, quantas Vilas Belas da Rainha existem por aí, com seus são e loucos tão iguais a gente!…

Referências

NOGUEIRA, Wilson. O Andaluz. 3.ª edição. Manaus: Valer, 2021.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Navio_dos_Loucos

https://koiote.com.br/memorias-wilson-nogueira-recorda…/

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1 comentário
  1. Ismael Farias Diz

    Caramba! Depois dessa descrição instigante, TENHO QUE LER ESSE LIVRO. E já vou buscá-lo.
    Grato ao Isaac Melo, pela dica

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