“Essa Terra…”

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Essa terra tem povos, tem culturas, tem histórias de sucessos e insucessos e, na conformação natural do mundo, ficou com a melhor parte, que convencionaram chamar de “futuro”. Não é bem um laboratório de reserva natural, não é uma paisagem sob redoma, não é um espaço de deleite turístico, pois tudo foi conspurcado. Mas, dizem até que é “farmácia do mundo”, o “pulmão do mundo”, “inferno verde”, “terra do nunca”.

E aí vem a ciência, conseguida a alto custo e crava no peito uma interpretação que dói: “A Amazônia pode ser vista como uma formação econômico-social produzida pela dinâmica do capitalismo e, portanto, sujeita aos processos de expansão e crise do capital”.

Assim se formula a tese de Marilene Correa da Silva, em Metamorfoses da Amazônia, Valer, 2013, p.9-10. E se você, leitor(a), ficar sentado, esperando que o capitalismo, que muda tudo de lugar como quer, realize os seus movimentos e complete sua obra na Amazônia, está redondamente enganado(a)!

A autora, como não podia deixar de ser, tira-nos dessa inatividade, dessa febre palúdica que contamina os que esperam demais e, com isso, animam aventureiros mal intencionados a tomarem a dianteira das iniciativas para que tudo termine em nada para alguns, na Polícia Federal para uns poucos, no inferno para outros, mas num céu de brigadeiro para muitos, sobretudo aqueles que nem usam o branco como o sinal de liberdade, como decretou o Poeta Thiago de Mello nos Estatutos do Homem. Ainda assim, de tão desavergonhados que são, depois de contribuir para a morte da esperança, colocam “begônias nas lapelas” para aparecer nas lives e posar de “patriotas honestos”.

Na página 177, da 2a Edição, vem o alerta e o recado certeiro: “Configuram-se, nesses movimentos, confrontos de interações entre a mobilidade e fluidez dos espaços e fluxos globais, e as dinâmicas locais que reterritorializam as forças e os ritmos das mudanças mundiais nos lugares, nas suas individualidades socioculturais”. E que bonito: “A Amazônia ingressa em uma outra totalidade, inconclusa, imperfeita, mas real… a região não pode nem quer mais ‘perder-se’ do mundo”(p.177).

As teses se sustentam ao confrontar-se com o mundo real aos quais se aplicam, confirmando ou revendo fundamentações teóricas nas quais se apoiam. Com o capitalismo, ocorreu a invasão colonialista, da qual os povos originários da América foram as vítimas; entregamo-nos à Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão; recebemos parte da diáspora judaica antes migrada para o Marrocos, espalhando-se de Belém até Iquitos refazendo laços com o capital mundial; do Império Otomano, derrotado pela Europa Ocidental, vieram os nossos “turcos” de estimação, que tanto animaram a economia regional, juntando-se às levas de nordestinos perseguidos pelas secas.

Ao capitalismo financeiro do século XIX devemos o ciclo da borracha inteiro, cuja evidência é a presença das grandes financeiras internacionais e do Banco de Londres em apoio à nossa maior commodity e financiando multinacionais europeias, que monopolizavam os serviços públicos. Participamos da experiência frustrada do capitalismo imperialista japonês no início do século XX; por último, quando se precisava de uma experiência de industrialização de ponta no Brasil, criou-se, em Manaus, a Zona Franca/Polo Industrial, hoje experiência de tecnologia fabril sem classe operária.

A cada crise do capitalismo mundial desabamos e ressurgimos com ele em novos arranjos, prova cabal da tese proposta. A Questão Ambiental está, novamente, selando o cavalo. Embora seja do mesmo dono, quem sabe, desta vez, com tudo que nos sobrou das experiências passadas, ao montarmos nele, não estamos dando mais um passo rumo a uma nova utopia?

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