Aviso de Juremir M. da Silva sobre referencial teórico e metodológico

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Um aviso importante: sempre que um candidato a mestrado ou doutorado entrar na sua sala e diz com os olhos brilhantes que deseja fazer uma pesquisa para aplicar autor X ou Y, faça uma das cinco coisas seguintes:

Enxote-o sem do e sem piedade (mesmo que ele queira trabalhar com o seu autor predileto)

Mande-o ler cinquenta autores que pense o posto

Convença-o a investir no mercado imobiliário

Permaneça em silêncio até que ele desista

Explique-lhe que o referencial teórico deve ser consequência do objeto a ser estudado

Um pesquisador deve ter, antes de tudo, um objeto bem definido a estudar, não um autor a aplicar.

Parece que no Rio todos querem aplicar Deleuze a alguma coisa. Em São Paulo, houve uma onda de Bourdieu e Foucault para tudo.

Em Porto Alegre, certamente com alguma modesta influência minha, aconteceu uma febre Morin-Bourdieu-Maffesoli.

O referencial teórico é um lente. Se o pesquisador já a usa desde antes de olhar o objeto e a considera perfeita, a sua tendência será enxergar tudo do mesmo modo ou com o mesmo grau de miopia.

O referencial teórico é um olhar tomado de empréstimo. Ajuda a ver o fenômeno estudado. Amplia o campo de observação. Não é uma visão de mundo completa nem substitui o olhar do pesquisador sobre o seu objeto.

A paixão obsessiva por um referencial teórico cega: encobre a lente.

O paradoxo do referencial teórico consiste em saber que é indispensável (faz parte das regras do jogo acadêmico, embora alguns a considerem vulgarmente uma maneira de “encher linguiça”, o que se chama mais elegantemente em francês de remplissage), mas como ostos tipos de deficiência visual, deve ser tirado do rosto para que se enxergue melhor. Ou seja, para se veja com outros olhos.

Um trabalho acadêmico é um gênero narrativo que obedece a determinadas regras de exposição e construção do cenário.

Há cada vez mais um interessante desencontro entre metodologia e referencial teórico.

Um estudante pode fazer uma dissertação tendo como referencial teórico o newmaking e como metodologia a análise de discurso.

Outro pode usar a teoria da complexidade de Edgar Morin como referencial teórico e a análise de conteúdo como metodologia.

A pesquisa de campo, que costuma menosprezar os ensaios, usa frequentemente trabalhos de ensaístas como referencial teórico.

Alguns entendem que o referencial teórico fornece conceitos para fazer falar o objeto.

Nesses casos os conceitos ajudam a descobrir o que estava encoberto.

Não seria isso uma metodologia? Não seria isso o “como”? O “como” fez para o encoberto torna-se descoberto.

Há algo descoberto aí. Uma metodologia é uma ferramenta (uma técnica), mas não é neutra, logo implica uma visão de mundo. Um referencial teórico é uma visão de mundo.

O ideal é fazer derivar a metodologia do referencial teórico.

É o que se pode e deve fazer com Edgard Morin. Na maior parte das vezes, porém, isso não ocorre.

Para que serve então o referencial teórico num trabalho acadêmico com vistas a título?

Para que o autor demonstre erudição. Faz parte da regra implícita do jogo. Para que o autor mostre que sabe o que já foi dito antes sobre ou em torno do seu campo de interesse.

Para que o autor não pense que está inventando a roda em casos de mera repetição de argumentos ou de pontos de vista.

Ou, para quando se trata de genealogia de um conceito, para indicar a evolução do termo e suas possibilidades futuras […]

Juremir Machado da Silva, em O que pesquisar quer dizer: como fazer textos acadêmicos sem medo da ABNT e da Capes. Sulina: Porto Alegre, 2011.

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