Plaquinha sábia

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Os sábios bebem. Os idiotas embriagam-se.  

A plaquinha estava na pestana da porta de entrada da casa do inesperado anfitrião.

Assim aconteceu…

Caminhávamos pelo bosque, observando saguis-de-coleira e maritacas estridentes, quando ele, gentilmente, nos convidou para visitar a sua casa.

Primeiro, deu-nos uma aula sobre o controle de natalidade dos macaquinhos. “Eles são muito inteligentes. Como têm pouca comida por aqui, deixaram de procriar nos últimos anos”.

Cutuquei o primo com uma a piscadela: “O cara sabe mesmo”.

A casa dele, toda em madeira de lei, parecia um palacete medieval transferido de um vilarejo da Baviera para a beira do rio Amazonas.

Da sala, abria-se um corredor, que não era somente um corredor, mas, também, uma botelharia até o tucupi de cachaça de marcas de diversos países.

E ele danou-se a revelar a origem, o sabor e a harmonização de cada uma delas com uma infindável lista pratos, de tira-gostos e petiscos.

À medida que nos enfiávamos no corredor, mais plaquinhas com advertências sobre a inconveniência dos idiotas apareciam nas laterais e nos fundos.

Aqui e acolá, ele servia-nos um gole de uma marca que escolhera para nos oferecer.

Meio constrangido com a presença das plaquinhas, nos esforçávamos no cometimento.

Descíamos um tiquinho pela garganta e o resto escorríamos para os santos.

Depois de passar a vista pelo corredor inteiro, retornamos à sala, onde fomos contemplados como uma marca cubana que, segundo o anfitrião, valia mais de mil dólares.

Realmente, se tratava de cachaça cremosa, com ardência amenizada e que, ao menos aparentemente, não deixava bafo persistente.

Enquanto, bebia, o anfitrião expunha os mais variados temas: do acasalamento barulhento dos cágados de terra firme ao futuro física quântica.

Informou-nos até que estava se formando ao redor do sistema solar um buraco negro que engolirá, logo, logo  – isso na escala dos milhões de anos –o sol e tudo que estiver no seu derredor.

Enquanto isso, entornávamos para o estômago o líquido que nunca findava no copo de vidro de fundo elevado e maciço.

Lá pelas tantas, sem mais nem menos, o anfitrião começou a ficar inconveniente. Gritava pela presença da mulher, que, por sua vez, lhe respondia aos berros: “– Já vou!”. Ele insistia e ela respondia: “– Já vou!”.

Quando pressentia que queríamos dar o fora, o anfitrião apelava para que ficássemos mais um pouquinho, para que pudesse nos apresentar a sua esposa. Esvaziou-se a botella cubana e a mulher não apareceu.

Foi quando o anfitrião ensaiou levantar-se, mas, em vez disso, caiu, totalmente tubado, sobre o sofá no qual estava sentado desde que ali chegou.

Ainda chamamos pela mulher que respondia a ele, mas a nós só chegou o silêncio.

Meu primo então veio com a solução que estava disponível: “Ele está em casa, e nós, não! Rombora?

E dali saímos – eu e minha conja, o meu primo e sua conja.

Sóbrios e caminhando pelas estradas feitas pelas mãos de Deus alcançamos o hotel sem intercorrência.

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