A cheia do rio e a identidade amazônica

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No dia 05 de junho de 2021, o nível do Rio Negro atingiu a marca histórica de 30 metros, sendo a maior cheia já registrada na nossa história, o que vem levando a população residente da cidade a frequentar o centro de Manaus para “turistar”, registrar e acompanhar esse fenômeno natural de vazante e cheia que ocorre todos os anos.

Construções históricas, como o prédio da Alfândega (1907) e a praça do Relógio Municipal (1929), são pontos de alagamentos e estão entre os locais mais atingidos no centro histórico da cidade.

A necessidade em acompanhar tal fenômeno carrega consigo o processo de construção da identidade amazônica e, mais especificamente, da identidade do amazonense e de toda a população que aqui faz o seu lugar de moradia e de construção social (caboclos, ribeirinhos, indígenas etc).

Devemos entender que o processo de construção da identidade de um povo não é sólido, mas líquido, pois depende dos caminhos percorridos e das relações de pertencimento. Assim como o Rio Negro percorre um longo e sinuoso caminho e perfaz seu ciclo de cheia e vazão, anualmente, o homem amazônico foi construindo a sua identidade através de uma intrínseca relação de troca com o rio.

Coaduna-se a isso que, como representante do homem amazônico, escolheu-se a figura do índio Ajuricaba, da tribo Manau, localizada no Rio Negro, como símbolo de coragem, liberdade e inspiração por não se alinhar ou subjugar a nenhum europeu.

Podemos ter a audácia em dizer que o Rio Negro corre em nossas veias. O cheiro do Rio, o banzeiro, o percurso de suas águas faz parte de nossas histórias, nos remetem as memórias afetivas que herdamos a gerações e que encantam aqueles que aqui decidiram viver. Tudo isso reflete no jeito amazônico de ser, na forma de se expressar (falar, gestual, maneirismos, etc), na cultura/folclore, alimentação e em todas os modos de vida.

O “turistar” e registrar a maior enchente do Rio Negro perpassa pelo DNA amazônico, é a vocação de um povo que tem a água como nascedouro e perpetuação da vida e da identidade de ser amazônico, é um conjunto de saberes multifacetados e construídos ao longo do tempo e pela subjetivação de um povo.

A cidade de Manaus nasceu de frente para o Rio Negro e o seu povo jamais dará as costas para quem lhe viu florescer e lhe nutre de vida e cultura.

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