Cartas & carteiros

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Não sabia que a nobre profissão de carteiro era tão antiga. Descobri num desses dias deliciando-me com a leitura sempre prazerosa do Almanaque de Cultura Popular, essa genial criação do artista Elifas Andreato.

Soube também, pela mesma revista, que a pintora Anita Malfati andou flertando com o escritor Mário de Andrade por intermédio de algumas “mal traçadas linhas”, como se dizia antigamente, evocando o espírito da humildade.

Soube, ainda, para meu deleite, que o poeta Manuel Bandeira, aquele que um dia perdeu a paciência e resolveu ir embora pra Pasárgada, dizendo-se amigo do rei, acabou se valendo do expediente da missiva para interceder em favor de Anita, sua amiga.

Postou uma carta endereçada ao autor de Macunaíma desfazendo rumores de intriga e asseverando-lhe que a mocinha, de fato, cultivava mais que simpatia pelo autor do poema “A serra do rola-moça”.

No caso em particular, segundo Andreato, o namoro não teria rolado, mas evoluído para uma profunda amizade entre Mário e Anita. Bandeira, por sua vez – e aí já é interpretação minha -, deu-se por satisfeito por ter feito sua parte e achou por bem afogar a saudade de sua terra natal poetando “Evocação ao Recife”.

Já devo ter confessado em alguma outra ocasião que gosto de ler cartas. Há meses mantenho ao alcance da mão, no que considero o mais privativo, recôndito, silencioso e inspirador ambiente do apartamento, um belíssimo exemplar da Companhia das Letras que reúne as cartas enviadas por Graciliano Ramos do Rio de Janeiro aos seus familiares e, principalmente, a sua amada, Heloisa Ramos. Não tenho pressa na leitura.

Não raras vezes, leio e releio alguns daqueles textos e, nas linhas e entrelinhas, me deparo com a espontaneidade, a franqueza e a ternura, que, para mim, sempre caracterizaram esse encontro entre a tinta e a folha em branco como espaço de interlocução entre duas pessoas.

As cartas tiveram um significado muito grande em minha infância e juventude. Quando menino e estudante das primeiras séries no Grupo Escolar Olavo Bilac, no velho bairro de São Raimundo, havia um posto dos Correios, salvo engano bem na esquina das ruas Cinco de Setembro e Beira-Mar.

Às vezes, quando dona Segunda (esse era o nome da zeladora e merendeira) acionava por três ou quatro vezes o barulhento sino anunciando o término das aulas, eu atravessava a rua, sentava-me no batente, próximo à porta principal do prédio de dois andares e ficava a observar atentamente o movimento dos adultos.

Os correios funcionavam na parte térrea do sobrado. Na pequena sala ficava um guichê. Ao lado do guichê, de frente para a parede, tinha uma bancada com os depósitos de vidro contendo cola.

As tampas dos vidros continham uma espécie de pincel, que servia para lambuzar as bordas do envelope e lacrá-lo.

A fixação dos selos era mais artesanal. Eles traziam no verso um produto que, em contato com a saliva da ponta da língua, malgrado o procedimento pouco higiênico, transformava-se em uma poderosa cola.

E lá ficava eu a observar o entra e sai das pessoas que iam postar suas cartas e a alimentar a minha sempre pródiga imaginação de criança. Para qual mundo e qual lugar iria cada um daqueles envelopes? Qual percurso faria cada um deles? O que levavam em suas entranhas lacradas com aquela resistente cola? Quais mensagens chegariam às mãos e sentimentos dos destinatários? Levariam doses de tristeza ou felicidade?

Enfim, a meninice aguçava a imaginação de tal forma, que me alternava entre tristeza e alegria, imaginando-me no lugar de quem abriria, em algum lugar do Brasil ou do mundo, um daqueles envelopes.

Pouco tempo depois, já adolescente, foram tantas e tantas as cartas que escrevi! Já contei um pouco e, dia desses, prometo contar muito mais do quanto escrevi e de quantas cartas despachei para esse mundo, mundo, vasto mundo.

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