Pandemia, cheia, tiro, porrada e bomba, enfim festejos juninos para aliviar        

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O Amazonas é um paraíso de contradições. Os dois últimos anos foram e continuam sendo afetados por inúmeras situações que interferem na saúde mental da população.

Essa região, com sua exuberância natural, digna de ser chamada de paraíso, sofreu uma série de influências ao longo de seu desenvolvimento, mas que não perdeu sua identidade cabocla, suas heranças indígenas e as influências negra e branca.

Ao caboclo, comemorado em 24 de junho, no auge das festas juninas, estão lançadas características aguerridas que o faz enfrentar situações de adversidades com garra e com valentia.

Manaus, a capital, vem sofrendo como todas e quaisquer outras populações as adversidades que o contexto atual nos apregoa e este ser se torna um herói digno dos causos e conversas de nossos mais antigos.

Viver tranquilamente parece algo inatingível no momento. Desde 2020 convivemos com algo assustador e desconhecido que nos fez afastar do convívio de nossos entes queridos. Não podemos mais tocar o outro e esta é uma das características do povo manauara que tem a hospitalidade e o que chamo de concretismo, pois falamos tocando, conversamos “cutucando” e lá se vão mais de quinze meses sem essa possiblidade, mas se continua a caminhar esperando por melhores dias.

A pátria das águas tem também uma de suas características naturais, as suas duas estações climáticas, o período da enchente e da seca.

O ano de 2021 foi marcado por mais uma cheia histórica que alcançou patamares nunca vistos, o que levou a muitos desses caboclos a sofrer mais uma vez, mesmo sabendo que a cheia ocorre anualmente, porém não com a intensidade vista hoje.

Passamos pelas grandes cheias desde 1953, 2009, 2012 e agora a maior de todas, de 2021.

Muitos falam que tiveram suas residências ou comércios invadidos, o que nos leva à reflexão: O rio invadiu ou foi invadido por nós e agora ele busca o espaço que é seu? Lembrando que os rios de nossa região são nossos caminhos, nossas estradas, nosso meio de acesso.

Mas isto não é tudo, o caboclo manauara ainda é surpreendido com a violência que assola esse torrão.

Violência, a qual deu origem ao título deste, que lembra a música da cantora Valesca Popozuda – tiro, porrada e bomba, que consegue fazer o que a pandemia não conseguiu, lhe deixar preso em casa, sem poder sair, sem poder vivenciar o seu direito de ir-e-vir.

As atrocidades abalam o emocional de um povo que sofre, mas continua o seu processo de resistir, pois trazemos dentro de nós a luta do bravo guerreiro que habita essa floresta, a resistência do negro que não se deixou sucumbir ao processo de escravização, discriminação e preconceito, do branco que muitas das vezes nomeou este lugar como inferno verde, por não saber lidar com as intempéries locais, os mosquitos, borrachudos, as cobras grandes ou chamada anacondas, mas que continuou aqui e aqui ajudou a construção dessa identidade.

Mas, mesmo sofrendo, mesmo suportando, resistindo, o caboclo vive agora talvez um dos momentos mais alegres e felizes do ano, afinal, é tempo de festa junina, nascida sob a tradição pagã e sendo absorvida pelo Cristianismo.

Hoje, vemos a mesma como uma forma de catarse, de alegria, de comer, dançar, mesmo que ainda não se possa aglomerar, mas faz bem para o coração.

É bom lembrar dos folguedos, das tradições, do folclore, ainda mais que vivemos em uma hinterlândia que já não mais faz suas fogueiras, exceto nas comunidades mais distantes da área urbana, mas continua a preservar a crença nos santos casamenteiro, da fogueira e do pescado, seja em busca de um grande amor, da fartura, ou da pesca abundante.

Isso ameniza o sofrimento deste povo, pois ouvir, dançar, forrozear, dançar um xaxado, comer tacacá, mungunzá, tapioca, bolo podre traz canto e encanto para a alma.

Então, é hora de cuidar de nossa saúde mental. É hora de esperar dias melhores, de acreditar que o hoje é melhor que o ontem, e que o amanhã que ainda está por vir deva ser melhor.

É hora de viver o agora, esperar que as mazelas sejam resolvidas e que tenhamos caboclos e caboclas, cunhãs porangas, sinhazinhas, pajés e senhores da fazenda, vaqueiros, cirandeiros e cirandeiras lavando a alma com as águas de Pedro, que também traz fartura no rio e acalanto no coração e na alma.

Vamos em frente, pular fogueira para viver e viver bem.

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