Como o regime das águas afeta a vida ribeirinha amazônica, em 17 contos de Francisco Vasconcelos

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Naquele ano, as águas voltaram a subir bem mais cedo, de muito deixando as marcas ultrapassadas nos anos anteriores.

Dos altos rios, trazidas pelos regatões e viajantes, as notícias de muita água lá por cima, indesejável notícia, principalmente para quantos viviam nos beiradões, lindeiros do rio, os produtores das várzeas.

Era a enchente que se anunciava, talvez uma “cheia”, levando aos ribeirinhos a incerteza de mais uma safra.

E na continuada expectativa de todos os anos, provavelmente, mais um dos resultados duvidosos.

As águas, como tantas vezes já acontecera, dizimariam as criações e destruiriam as plantações de várzea.

Os jutais, como as esperanças, seriam afogados antes do tempo, e os ribeirinhos, cuja vida e tudo mais que tinham nada mais era que consequência direta do regime das águas, muitos haveriam de procurar as cidades, onde, por certo, encontrariam o drama dos carentes, reprisando cenas já vividas antes, última vez, não fazia muito tempo ainda.

[…]

As águas… Até quando continuariam a subir? E as populações ribeirinhas, por quanto tempo ainda esperariam. Até decisão de partir e procurar as cidades, principalmente aqueles que nada tinham a perder, tantos, vítimas eram da inconstância de um meio incerto e traiçoeiro, sobre o qual as suas forças eram inúteis e, em todos os sentidos, inteiramente vãs as intenções de luta?

Em meio a tantas preocupações, havia, também, os que encaravam o problema por um prisma bem diferente daquele oferecido pela dura realidade que, exagero à parte, já se mostrava, realmente, ameaçadora.

Para esses, que subisse as águas!

E por que maldizê-las, se pródigas e a maior parte do tempo benfazejas, de tudo proviam o homem?

Quantas vezes o seu subir e descer na ocorriam exatamente no oportuno momento, assegurando-se a vida, nas duvidosas colheitas que propiciavam.

[…]

Avisos, de mancheias, não deixava de dar a natureza, com cuidadosa antecedência, de que o seu comportamento poderia modificar-se.

[…]

As águas subiram como tantas vezes já fizera antes. E mais uma vez, se repetiria o drama dos jutais afogados, frustrando aspirações e interrompendo a enganosa esperança de dias melhores.

[…] os jutais, principalmente os plantados em terras mais baixas, já não ofereciam esperança de colheita. E inúmeros já eram os produtores que antecipavam providências, alguns, os mais prósperos, construindo jiraus ou improvisando marombas.

A grande maioria, porém, nada poderia fazer senão aguardar, confiantes, muitos, nas repetidas promessas de ajuda, esperançosos, todos, de que um milagre acontecesse.

Naquele ano, tempo de muito sofrer, muitas promessas foram feitas…

 

Trechos do Conto I do livro Regime das Águas, de Francisco Vasconcelos (Valer, 2021)

 

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