Uma palavra de Sue Prideaux sobre apolíneo e dionisíaco-

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Nietzsche identifica o  apolíneo com as artes plásticas , particularmente a escultura, mas também com a pintura, arquitetura e sonhos que, naquela época pré-freudiana, não representavam irrupção bagunçada dos eflúvios de culpa do subconsciente, mas ainda mantinham seu antigo significado de profecia, esclarecimento e  revelação.

As características de Apolo podem ser resumidas mais ou menos como o aparente, em termos schopenhauerianos correspondendo mais ou menos à representação.

O mundo de Apolo é formando por indivíduos morais e relacionais, aqueles que exemplificam o principium individuationis, cujos gestos e olhares falam para nós de todos os prazeres intensos, da sabedoria e da beleza da aparência.

As artes pertencentes ao Dionísio são a música e a tragédia. Dionísio, filho de Zeus duas vezes, era visto na Grécia Antiga tanto como homem quanto como animal.

Representava um mundo encantado de experiências extraordinárias quer transcendem os limites existenciais.

O deus do vinho e da embriaguez, da bebida e das drogas, dos rituais de loucura e êxtase, deus do mundo ficcional do teatro, da música, da interpretação e da ilusão; é o deus cujos artes subvertem a identidade normal ou individual de seus seguidores enquanto são transformados por ele.

A música e a tragédia são capazes de apagar o espírito individual e despertar impulsos que em suas formas mais elevadas fazem o subjetivo bruxulear em um completo abandono, enquanto o espírito é transportado a um estado transcendente de júbilo ou horror.

Na origem da tragédia um dos nomes de Dionísio era o Devorador de Carne Crua. Somente por meio do espírito da música podemos entender o êxtase na autoaniquilação.

Lembra os frequentadores dos festivais de roque de hoje, ou Nietzsche descrevendo sua reação a Tristão como encostar o ouvido no coração da vontade universal e sentir a tumultuosa lascívia pela vida como uma torrente trovejante.

Ele ilustra a questão para seus contemporâneos com uma referência que lhe era familiar: as multidões frenéticas que vagavam pela Alemanha medieval com a mania de cantar e dançar, o chamados cantores e dançarinos de São João e São Vito. (Wagner se referia a elas elipticamente em Die Meistersinger Von Nümberg.)

Nelas Nietzsche reconhecia os coros bacantes dos gregos. Embriaguez, música, canto e dança eram as atividades em que o principium individuationis se perdia.

Aqui estava a resposta dionisíaca à dor da vida.

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Sue Prideaux, em Eu sou dinamite: a vida de Friedrich Nietzsche (Crítica, 2019).

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