Escritores lançam novela de coleção de literatura periférica

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A novela O puro animal que habita em mim, escrita por Jalna Gordiano e Renan Albuquerque, será lançada nesta sexta-feira (16/7), às 18h, na Livraria Banca do Largo São Sebastião, Centro.

“O lançamento é bem simbólico. Vamos fazer uma conversa com os leitores que aparecem por lá (Praça do Largo). O principal objetivo dessa atividade é divulgar o nosso trabalho”, disse Renan.

É a terceira obra concretizada a partir de esforços do projeto Coleção Selvagem, atividade universitária de criação literária do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Ambientes Amazônicos (Nepam/CNPq) da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal do Amazonas (FIC/Ufam).

Jalna é poetisa e tem graduação em Serviço Social pela Uninorte.

Renan é professor de jornalismo da Ufam e pesquisador colaborador do Núcleo Diversitas, da USP.

Junto com o escritor paraense Nicodemos Sena (vencedor do Prêmio Lima Barreto), eles organizam a Coleção Selvagem, atividade de extensão iniciada em 2019.

O objetivo é proporcionar oportunidades de desenvolvimento social e intelectual por meio da literatura.

“Queremos incentivar a divulgação de saberes a partir da produção de obras diversas, seja em prosa ou poesia, promovendo o diálogo da Ufam com a sociedade amazonense e instituições de ensino”, destacou Renan Albuquerque.

O primeiro volume publicado foi A doce vida dos pequenos fuzis (Renan Albuquerque, 2020), uma peça de teatro que enfoca a temática do absurdo e bebe na fonte da dramaturgia beckettiana.

Depois veio o romance A mulher, o homem e o cão (Nicodemos Sena, 2020), quando o fantástico foi sublinhado e tornou-se elemento de destaque.

Agora, em Puro animal que habita em mim, Jalna Gordiano explora a literatura marginal, ou literatura de periferia como prefere denominar, a partir de uma novela escrita a quatro mãos.

“A expressividade do realismo literário, aliada à temática da escrita de periferia, a meu ver dialoga bem com a ideia daquilo que é periférico ou marginal enquanto conceito. E foi essa a vertente que escolhi para compor o livro”, salientou.

O produtor cultural Rojefferson Moraes, a escritora trans Márcia Antonelli, o músico e poeta parintinense Isaías do Santos e o professor Victor Hugo integram o time de prefaciadores e apresentadores do livro.

“Trabalhar com Jalna foi um aprendizado. Ela é talentosa e disciplinada para a produção, dois pontos que penso serem essenciais no processo de construção literária”, finalizou Renan, coautor do livro.

Versão ebook gratuito:

https://ufam.academia.edu/RenanAlbuquerque/Books.

Trecho do prefácio

Aceitei de pronto o desafio [de fazer este prefácio]. É claro, motivada pelo interesse que tenho, e que muito me apraz, pelo terreno do erotismo. Um terreno baldio, perigoso, mas necessário e sedutor. E tratar desse tema é para poucos. Demanda mesmo coragem e ousadia, além de criatividade, cheiro e tato com as palavras. Uma certa conciliação com as questões íntimas do corpo e da alma, eu diria, o que não é tão simples assim. Escrever é copular. É desnudar–se.

O Puro animal que habita em mim narra a história de Ricardo e Lúcia e é a continuação de A doce vida dos pequenos fuzis, depois do trágico final deste primeiro livro.

Mas agora as personagens estão envoltas em uma dimensão de angústia ‘frente ao conflito com o impossível das relações amorosas e sexuais, e, portanto, se ferem, se dilatam e se destroem.

Assim como no primeiro livro, as personagens são mantidas em situações limites, de dor, desespero, desencanto e autofagia. A diferença é que agora só o sexo e somente o sexo lhes parece — como a um galardão aprazível de esperma quente —saciar a fome e a sede da eterna busca por algum sentido das suas existências.

O puro animal que habita em mim é de uma narrativa brutale dilacerante. Bela e devassa. Sincera e direta, cujo erotismo e a transgressão ocupam seu espaço de direito.

O espaço do gozo.

Da alegria do gozo.

Da libertação do gozo.

Da dor do gozo.

Uma literatura capaz de causar náusea e estranhamento aos incautos, é bem verdade, mas também nos faz repensar no que somos de fato. Do que somos feitos senão de desejos e instintos?

No livro, temos uma história que nos arranca da zona do conforto não apenas por seu conteúdo, mas por nos impelir ao extremo dos limites.

Uma novela de linguagem enxuta, realista, rebelde, subversiva. Suas imagens são fortes e desconcertantes.

Gostei do que li. Do que senti. Da experiência de sua leitura. Ela me foi provocante e animal nestes tempos de bom-mocismo.

O puro animal que habita em mim é uma história carregada, sem dúvida, de aparente desespero sexual, por ser composta de luxúrias, paixões e desejos.

Um escrito de violento encanto. Move-se na obscura esteira de um Bukowski, de um Henry Miller ou de um Bataille, em que o leitor poderá desfrutar de um conteúdo escatológico e perverso, mas poético e sincero, ingredientes que apimentam de lascívia esta notável e impressionante novela.

Márcia Antonelli, escritora e professora de Literatura

 

 

Trecho de Capítulo

[…]

Passei pela janela e vi uma garotinha de cinco anos de idade sentada no batente da casa ao lado. Seria um espelho?

Baixei a cabeça, entrei no banheiro mínimo, liguei o chuveiro e forcei o choro. Tenho dificuldades sérias para chorar. É por isso que as dores implodem no meu peito e esburacam a alma. Tirando as nuances de roxo dos hematomas do meu corpo frágil, posso dizer que são dores de lembranças desbotadas. Uma delas é de ainda quando era bem pequena e franzina, depois de descobrir que tocar o corpo trazia uma sensação gostosa.

Depois desse dia, em uma das vezes minha madrasta viu e começaram as chantagens.  Eu estava tomada pelo demônio e a desgraçada da mulher do meu pai soube aterrorizar minha mente. Eu, Lucinha, ficava ajoelhada no beco ao lado de casa e rezava feito uma herege reformada.

A madrasta miserável, enquanto isso, ria por dentro com sarcasmo e me forçava a fazer tudo, absolutamente tudo o que uma criança não deveria fazer. Ela era um encosto, observando, ordenando e me espancando. Era a forma de satisfazer desejos sexuais reprimidos. Batia em mim e fazia com que eu carregasse um fardo de culpa.

Era o pior dos castigos. Um dia, quando comecei a lavar roupas de cama no tanque de cimento do quintal, minha madrasta me chamou aos berros.

— Lúcia, diabinha, venha cá! Tá surda?

E minhas pernas frágeis de pequena Lúcia alternaram em disparada até a portada cozinha. Neide, a mulher infernal, amante do meu pai, tinha servido café a uma visita.

— Um primo meu — apontou ela.

— Lúcia, acompanhe o Leonel até o quarto que ele quer conversar com você.

Assim fui e não há muito o que imaginar de bom do que se seguiu. Ah, Dona Neide, sua bandida do cão. Foi perverso como teve a capacidade de reduzir meu sofrimento a esterco. Mas sobrevivi. Até quando descobri que podia fugir de casa.

E ocorreu quando conversava com outras mulheres que não tinham paz, igual a mim. Soube o que era a sujidade e o cultivo do mal. Tudo misturado a ódio e vinha de dentro de uma infância praticamente inexistente.

Foi então que comecei uma vida de fuga, álcool e prazeres. Se eu já tinha experimentado no couro a maldade, precisava apenas dominar e aperfeiçoar essa ira guardada para virar arma.

Banho tomado. Roupa arrumada e seguia para fazer a maquiagem. Logo seria a hora de sair e fingir que não odiava boa parte do meu passado pelo que me tornara.

Sinceramente, as pessoas não têm ideia a respeito do caos que pode haver dentro de cada alma do universo.

Estamos falando aqui apenas de uma, aminha, que oscilava entre a completa loucura e as tentativas desesperadas de segurar os seus pequenos bocados de lucidez para, enfim, começar a reconstruir um mundo por uma base menos puída e fedendo a podre.

E quanto às demais milhares de vítimas, hein? A minha alma é algo brilhante, sim. Ela é. Mas de um brilho radioativo que pode causar mal a quem se aproxima encantado com o néon da minha fala e das minhas pernas deliciosas. Sei disso. Tenho evitado aproximações e intimidades com quem quer que seja.

Existem pessoas que carregam estigmas eternos. Mesmo que tentem, por mais que se esforcem, não conseguem raspar a camada de excremento que acumulam inocentemente (às vezes nem tanto) por décadas.

As décadas entre dejetos passam muito, muito rápidas. E a limpeza é entediante. Almas radioativas não suportam o tédio. Necessitam de espaço para explosões, insanidades e não param de contabilizar mortos e feridos. Elas pisam e esmagam as demais a seu redor por não conseguirem enxergar o mal que fazem. Flutuam em uma atmosfera quase que santa a partir do que a insanidade lhes concede. E assim começam ciclos intermináveis.

Cada ser tocado por um tipo de loucura tende a se tornar louco também. Isso quando não sucumbe na tristeza de quem teve a sua própria alma arruinada. É esse o tipo de culpa que apenas agora me dei conta. Da quantidade de manchas na alma que colecionei sobre a Terra. E essa é justamente a dor que mais me consome. A do remorso.

— Sim, meu bem, o remorso é uma dor escrota. Apesar de não importar, até porque o que foi feito está feito. Não se pode voltar ao passado e consertar as coisas — narrei sozinha, a consolar a mim mesma. Enquanto espalhava base no rosto hoje cedo vi as cicatrizes que encubro todos os dias. Elas me gritam as histórias que tento esquecer. E dói me ver. Dói mesmo.

Por mais que às vezes eu me sinta gostosa, dói me sentir gostosa. Dói ter tesão em mim. Às vezes, só eu posso satisfazer minhas vontades mundanas. Apenas eu preciso me tocar e me ver para aceitar algo que satisfaça. Aprendi tudo muito bem com Mariana, o meu único amor, ou algo próximo de amor que tive. Eu disse o nome de Mariana e ao mesmo tempo senti um ventinho soprar de seus lábios e se espalhar pela minha nuca e aquilo balançou meu coração e…

— Cuida logo que tu tá atrasada e vai perder o ônibus das seis, otária!

— Foi o alarme do meu celular que apitou e eu interpretei dessa forma.

Saí de casa à toda. Hoje está um dia melancólico. As pessoas no ônibus poderão estar assim também, melancólicas. É como se esperássemos aquele meteoro do Lars Von Trier explodir e acabar com nossa existência coletivamente. Até o vejo morrendo também. Nunca pensei que viveria um tempo tão pesado. Passei sozinha por meus infernos, de certa forma, mas hoje só consigo sentir alguma vontade de viver se dividir a tensão e o sofrimento com o resto da sociedade ao redor. Mas sei bem como a sociedade pode ser cruel e mesquinha. Não sinto a menor pena quando estamos em bando.

[…]

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