Círio de Nazaré, Boi-Bumbá e identidade

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O norte do Brasil, pelo seu processo histórico de colonização, é terreno fértil de tradições católicas iniciadas pelos portugueses.

O que move a região em tempos não pandêmicos é um grande fluxo de pessoas em peregrinações pelas cidades amazônicas.

Dentre essas festas populares/religiosas destaca-se, pela sua tradição de mais de trezentos anos, o Círio de Nazaré, realizado em Belém do Pará, no segundo domingo de outubro, que é considerada a maior onda de peregrinação sazonal da América do Sul.

Por inúmeros motivos, os Padres Barnabitas, reitores do Santuário de Nazaré, e a Arquidiocese de Belém, trabalharam durante anos a divulgação desse evento em nível regional e nacional.

Grandes são as confluências para esta conclusão. Com o passar dos anos se criaram momentos artísticos, rituais, práticas familiares e costumes que fazem parte do grande Círio. Isso favoreceu o estabelecimento de formato de festa popular/religiosa, por meio do qual todas as demais vão se espelhando no adentrar do rio Amazonas.

Assim, o Círio de Nazaré é, atualmente, uma forte expressão de cultura paraense, uma fonte de regionalismo na vida do nativo, a qual estabelece uma relação de pertencimento entre essa festa e o estado do Pará.

O Amazonas é bem diferente no quesito religiosidade quando falamos em termos de capital do Estado.

Manaus não tem uma festa religiosa marcante que simbolize ou caracterize uma mobilização em regional em torna da religiosidade.

O caráter de metrópole, o processo histórico e a exigência de mão de obra da Zona Franca de Manaus acabam diminuindo as tradições do catolicismo popular.

Já a cidade de Parintins, no Médio Amazonas, é a fomentadora de certa identidade amazonense, com o seu festival folclórico, que divide a cidade e o estado em vermelho e azul dos bois-bumbás Garantido e Caprichoso respectivamente.

O festival parintinense traz grande número de turistas para o Amazonas e cria motivos para chamar a atenção dos olhos do mundo.

Parintins, no quesito festival folclórico, estabeleceu um formato de festa popular, que se espalhou pelo interior da Amazônia.

Assim como em Parintins, os grupos folclóricos de outras cidades amazônicas fazem os seus festivais e adotam as disputas pela apresentação com galeras, jurados, cores identitárias e itens de performances individuais e coletivos.

O festival folclórico de bois-bumbás já foi influenciado pelos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro no passado, hoje é Parintins que influencia a cidade maravilhosa. Em termos de artes existe um fluxo constante de trocas culturais e técnicas artísticas entre os artistas. Não diferente é com as festas religiosas.

De alguns bons anos para cá, percebo a visível influência do Círio de Nazaré de Belém do Pará nos festejos e devoção à Nossa Senhora do Carmo em Parintins.

Isso mostra que o fluxo de informações corre pelas veias do rio Amazonas e acrescenta influências à nossa arte e no futuro, possivelmente, à nossa identidade de amazonenses.

A Festa do Carmo desenvolveu atividades artísticas que já se tornaram tradição, tais como:

  • A produção e exposição do cartaz da festa que, assim como em Belém do Pará, é apresentado em missa solene e depois exposto para a população adquirir e colocar nas portas de suas casas;
  • A produção e confecção anual do manto da santa, que é temático e, também, é exposto em Missa Solene;
  • A confecção do andor, que há muitos anos já se faz pelas mãos dos artistas dos bois-bumbás, em segredo, e aguardado para ser revelado na véspera;
  • A utilização das fitas coloridas presentes em toda as festividades populares do Brasil, como no Senhor do Bonfim da Bahia;
  • O uso do Escapulário, símbolo de devoção do Carmelo, cordão de pano que tem esse nome por ser vestido sobre as escápulas, os ombros do devoto – essa relíquia pode ser distribuída como sinal de proteção ao devoto –, cujo correspondente no Círio de Nazaré são as cordas que protegem a santa;
  • As comidas “da casa” e seus paladares e aromas, podem ser degustados na Barraca da Festa do Arraial;
  • A festa do Carmo tornou-se a maior festa religiosa/popular do Amazonas e o maior deslocamento de peregrinos do Baixo Amazonas, região na qual se incluem as cidades do Oeste do Pará.

O evento tem, portanto, todo o potencial para penetrar cada vez mais no imaginário popular do amazonense, desde que se faça uma constante irrigação das suas boas influências.

Neste ano, partiu de Manaus a Romaria das Águas, com uma linda escultura de Nossa Senhor iluminada com lâmpadas led, feita por artistas coordenados pelo alegorista Juarez Lima.

Essa atividade é uma das demonstrações que a religiosidade parintinense quer ampliar seus adeptos na capital, afetando conterrâneos e manauaras que já se rendem há a um bom tempo às artes dos bois-bumbás.

Mas ainda está longe da Festa do Carmo ter o mesmo peso cultural/religioso para o Amazonas que tem o Círio de Nazaré para o Pará.

O paraense arruma a casa, faz um prato típico especial, reúne a família, faz suas orações, vai à procissão e, em nome do Círio de Nazaré, vive a sua religiosidade e amazonicidade.

Os diversos fatores que levam às pessoas a esse estado de espírito navegam pelos rios amazônicos nos corações dos artistas e dos populares, os que são os únicos capazes de criar, por meio da fé, da arte e da beleza, uma nova identidade cultural.

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