“Modificaram a invoice, mas a fatura chegou como narrativa”

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Os anglicismos são, em regra, pontos de tensão entre filólogos e dicionaristas. Não restam dúvidas sobre o forte impacto no linguajar cotidiano quando ainda não circulam com naturalidade. Alguns são densos de significado, nominam discursos inteiros chamados de ideologia, evidência científica, reflexão filosófica, dogma religioso, fábula e, até mesmo, demonstração de boçalidade.

Normalmente, integram discursos universais de um dado momento histórico, marcas do seu tempo. São influenciadores de tendências e de práticas diversas. O discurso que cada um carrega é objeto de estudo das ciências da linguagem, tendo como método a “análise do discurso”; como narrativa, está aberto, também, à interpretação do senso comum na sua forma mais aparente.

Dizem que um famoso autor de manuais acadêmicos determinou que em sua lápide fossem nominados os encarregados da atualização de suas obras. Os dicionaristas, sem a necessidade desse golpe de marketing, listam os novos vocábulos incorporados ao uso corrente dos falantes.

Já com as ideias ou discursos que eles carregam é diferente. Precisam pular para as práticas dos sujeitos no jogo da vida: relações econômicas, posições políticas, sentimentos, práticas coletivas e individuais. Tudo isso vem acontecendo com o termo invoice, emprestado da língua inglesa, na compreensão e na vida dos brasileiros, por incrível que pareça.

O estranhamento maior é quando o vocábulo entra no campo de tensão sem o propósito de enriquecer a língua explicando coisas novas, mas com a intenção sub-reptícia de tumultuar, criar uma confusão medonha e um “problemão” institucional enquanto discurso e prática, até virar essa coisa horrível que ninguém aguenta mais, nem com o vocábulo e muito menos com as práticas que dão sentido às tais “narrativas” que o envolvem, caracterizando não verdades, possíveis ladroagens e indecências que conturbam o seu significado.

E alguém dirá que não é bem assim, que tudo tem dois lados, na linguagem e nas moedas, o que só aumenta a confusão, pois as pessoas que rotulam as evidências como narrativas fantasiosas são as mesmas que estão coladas na defesa do indefensável, o que nos obriga a um contorcionismo linguístico a toda hora; só dispensável aos de raciocínio curto. Aí não precisa pensar, uma expressão resolve tudo: “é simples assim, um manda e outro obedece!”.

Alto lá! Para isso existem outros termos: subserviência, autoritarismo, comportamento de rebanho, abuso de autoridade, ditadura, terrorismo de estado etc. Portanto, saem do alcance dos dicionários e do domínio dos dicionaristas e passam para o domínio dos manuais de Direito, de Administração Pública e de Ciência Política para a tipificação dos crimes com propriedade, visto que ferem de morte o Estado Democrático de Direito.

Vale lembrar que o termo invoice tem o seu correspondente em português, denominado “fatura”: documento juridicamente perfeito que antecede à “nota fiscal”, contendo todos os atributos da mercadoria adquirida por compra e serve para garantir ao comprador o direito de posse. O termo invoice ganhou força de uso entre nós com as transações econômicas globalizadas, que envolvem grandes trocas entre estados, interesses econômicos próprios desse tipo de negócio; e, também, os chamados paraísos fiscais e suas falcatruas.

Assim, invoice é negócio, é vantagem comercial, é ideologia de mercado, é “ética” nas relações econômicas. São Pedro negou três vezes ser discípulo de Jesus (Bíblia Sagrada). Para dar o exemplo, superou a fraqueza humana e virou Santo. O que acontece na compra de uma tal vacina é que modificaram três vezes a invoice e as narrativas, mas, ainda assim, evitam redimir-se dos erros.

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