Especialista em Imunologia esclarece dúvidas sobre vacinas disponíveis

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Desde janeiro deste ano, quando começaram a ser aplicadas as vacinas contra Covid-19 no país, são muitas as dúvidas da população em relação à eficácia dos imunizantes disponíveis.

Nas últimas semanas, após o início do uso da vacina Janssen, de apenas uma dose, vários casos ocorreram de pessoas tentando escolher a mais conveniente para tomar.

Também tem sido recorrente os casos de resistência à segunda dose. Conforme último levantamento do Ministério da Saúde, mais de 4 milhões de pessoas deixaram de completar o processo de imunização, dentro do prazo recomendado.

O mestre em Imunologia e professor do curso de Biomedicina da Faculdade Santa Teresa, Wellington Mota Gama, ressalta que não há qualquer motivo para a escolha de imunizantes ou de não comparecer para aplicação da segunda dose.

“Todas as vacinas disponíveis no país passaram por inúmeros testes e são eficazes. Quanto mais a população resistir à imunização, maior será o tempo para que as atividades retomem o funcionamento normal e para que seja possível reunir família e amigos em comemorações. Além disso, para quem não se imunizou, é maior o risco de ser infectado e desenvolver a forma grave da doença”, afirmou.

Para ajudar a população, o professor tira as principais dúvidas em relação à vacinação e à eficácia dos imunizantes.

Como funcionam as vacinas disponíveis atualmente no Brasil? De que maneira agem no organismo?

Atualmente, há seis vacinas autorizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) contra a Covid-19. As vacinas Pfizer e AstraZeneca possuem registro definitivo. Coronavac, Janssen e Covishield receberam autorização para uso emergencial. Recentemente, a Sinopharm também foi liberada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), através do consórcio internacional Covax Facility, e com isso a aprovação pela ANVISA foi automática.

Todas elas têm como objetivo estimular respostas imunológicas através da inoculação do vírus ou parte dele, no nosso organismo, deixando-o “preparado” para combater o SARS-CoV-2 em uma eventual infecção.

Uma dessas respostas seria a indução da produção de anticorpos contra o vírus. Apesar de possuírem metas em comum, cada vacina utiliza diferentes tecnologias para atingi-las.

Por exemplo, a Coronavac e a Sinopharm utilizam o vírus inativado, uma técnica bem comum e usada há muitos anos para produção de vacinas. Nesse caso, o vírus é cultivado em laboratório e depois é tratado com uma substância que o torna incapaz de se replicar.

A Pfizer é uma vacina de RNA mensageiro, um “pequeno fragmento” do código genético do SARS-CoV-2, responsável por fabricar uma proteína chamada spike, que recobre o vírus, sendo também a parte dele que é reconhecida pelo sistema imune, a qual chamamos de antígeno.

Esse RNA mensageiro, ao ser inoculado no organismo através da vacina, utiliza as células do próprio indivíduo para fabricar o antígeno. Uma vez dentro das células, são lidos por uma estrutura chamada ribossomo, fabricando o tal antígeno.

A partir daí, o sistema imune reconhece esse antígeno e gera uma resposta contra ele, que será utilizada mais à frente, no caso de uma infecção.

A AstraZeneca e a Covishield utilizam um vetor viral. Esse vetor é um adenovírus de chimpanzés. Ele é modificado geneticamente em laboratório, para que contenha um fragmento do coronavírus, a proteína spike e para que seja incapaz de se multiplicar, ou seja, para que não desenvolvam a doença.

A Janssen é bem parecida com a Astrazeneca e a Covishield, mas utiliza um adenovírus modificado, que originalmente infecta humanos, e é aplicada em uma única dose.

Quando finalmente ocorre a imunização?

A imunização só acontece após o cumprimento do esquema vacinal preconizado para cada vacina. A maioria das vacinas utiliza duas doses para a imunização, com intervalos diferentes, casos da Pfizer, CoronoVac e AstraZeneca.

Já a Janssen utiliza uma única dose. O esquema em duas doses determina a eficácia da vacina, além de aumentar e prolongar a proteção conferida.

É normal ter reação à vacina? Por que algumas vacinas apresentam maior incidência de reação adversa que outras?

Sim, é normal apresentar alguma reação após a vacinação. Esses sintomas são transitórios e são resolvidos em até dois dias. É preciso que tenhamos em mente que, ao sermos vacinados, estamos entrando em contato pela primeira vez com um agente totalmente estranho.

É esperado que nosso organismo reaja a esse estímulo. As reações, na realidade, mostram que de fato a vacina está sendo eficaz, pois o estímulo do sistema imunológico está acontecendo e os anticorpos estão sendo gerados.

Existem certas vacinas que são mais reatogênicas, ou seja, causam mais efeitos colaterais, como as de RNA mensageiro e de vetores virais. Mas acredito que essas reações variam muito de acordo com o organismo. Não existe uma unanimidade de como cada indivíduo vai reagir ao imunizante.

Cada organismo é muito individualizado, então, as reações ou a intensidade delas, podem variar muito de pessoa para pessoa.

Costumo dizer que isso depende, sim, do tipo de vacina, mas muito mais de uma resposta individual, porque se fôssemos considerar somente a vacina, todas as pessoas apresentariam alguma reação, mas sabemos que existem aqueles que passam ilesos, sem apresentar sequer um sintoma.

Um fato muito comentado aqui em Manaus, durante os mutirões de imunização, foi o grande número de relatos de reações à vacina AstraZeneca.

Sim, os estudos apontam que ela de fato pode causar mais reações que as demais. Isso se explica pela tecnologia empregada na sua fabricação.

Trata-se de uma vacina de vetor viral, isso faz com que o indivíduo passe a ter um estímulo do sistema imunológico muito mais excessivo, o que, consequentemente, condiciona ao surgimento de reações adversas mais intensas.

As vacinas são seguras?

 Sem sombra de dúvida. Não há o que se questionar quanto à segurança de qualquer uma das vacinas disponíveis. Todas foram submetidas a rigorosos testes no decorrer das fases dos ensaios clínicos e continuam sendo avaliadas regularmente.

Então, é um absurdo deixar de se imunizar e, muito mais ainda, ficar escolhendo qual vacina tomar. As pessoas devem tomar aquela que estiver disponível.

Escolher vacinas na atual situação em que estamos chega a ser mesquinho e desumano, em um país onde mais de 500 mil pessoas perderam suas vidas e a maioria delas poderia ter sido salva por qualquer uma das vacinas existentes.

A melhor vacina é a que tiver! Vacinar-se deixou de ser um ato de liberdade individual, mas sim, um compromisso social com a coletividade, que não impacta apenas na minha vida, ou na de fulano ou beltrano, mas na vida de todos.

Pessoas que já tiveram ou estão com Covid-19 devem ser vacinadas?

Quem já teve Covid deve se vacinar. Nesses casos, a vacinação é indicada uma vez que estudos apontam que uma pessoa já infectada pode ser acometida novamente pela doença. Agora, pessoas com uma infecção ativa, ou seja, que estão com Covid, não devem se imunizar. É recomendável que aguardem 30 dias após o diagnóstico inicial.

As novas variantes da Covid são cobertas pelas vacinas?

Sim, até o momento diversos estudos feitos com as variantes de preocupação, ou seja, aquelas que as mutações estão associadas a maior transmissão ou escape dos mecanismos imunológicos, demonstram que as vacinas foram capazes de prevenir casos graves da doença.

Além disso, estudos in vitro apontam que os anticorpos de pessoas imunizadas foram capazes de neutralizar as variantes Alpha, Beta, Gama e Delta.

Por quanto tempo as vacinas funcionam? Serão necessárias doses de reforço regularmente, após o esquema inicial, como no caso da vacina da gripe?

Ainda estão sendo feitos estudos para avaliar quanto tempo dura a proteção de cada vacina. Ainda é necessário esperar para saber se há necessidade de reforço dessas duas doses que estamos tomando. Mas, alguns dados são promissores.

Recentemente, a Pfizer e BioNTech informaram que a vacina continua eficaz por pelo menos seis meses após a segunda dose. A tendência é que cada vez mais estudos envolvendo as demais vacinas apontem a durabilidade da proteção após a imunização.

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