Mudança social em igualdade de gênero trará benefício não só para as mulheres

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Em outubro de 2020, após ter sido nomeada Coordenadora Residente em Angola, pelo Secretário-Geral da ONU, para liderar a equipa das Nações Unidas no país, cheguei a Luanda com uma grande vontade e motivação para dar o meu apoio aos colegas da ONU, ao país e a todos e todas angolanos.

É, em conjunto, que podemos cumprir a ousada e ambiciosa Agenda do Desenvolvimento Sustentável. Este meu sonho, porém, não era novo, mas antes a continuidade de uma ambição pessoal e profissional minha, o de dar o meu próprio contributo para um futuro mais sustentável, mais justo e mais igualitário.

E que melhor posição para levar a cabo a missão da ONU de implementar as mudanças necessárias para garantir a cada mulher, homem, menina e menino os mesmos direitos, as mesmas oportunidades na educação, emprego, representação e participação política e social, assim como viver livre de qualquer tipo de violência.

Desde então, coordeno uma equipa de quase 500 colegas de diversas agências da ONU, com a mesma motivação, assegurando um trabalho conjunto de todo o Sistema da ONU e em estreita coordenação com outros parceiros.

Atentos à implementação da Agenda 2030, Angola tem demonstrado alguns progressos, nomeadamente no avanço de Igualdade de Género. Angola é um país lindo, mas com imensos contrastes e vivenciando uma fase de grande transformação.

Por um lado, o país tem construído um caminho de referência na região de África, assumindo um papel de liderança na representação das mulheres na política, quer no executivo como parlamentar.

Angola está atualmente trabalhando na revisão e atualização do seu Plano de Ação Nacional (2017-2020) à Resolução 1325 (2000) do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre Mulheres, Paz e Segurança.

Angola é um país consciente da importância da participação das mulheres em todas as fases da resolução de conflitos e dos processos de construção da paz; assim como do papel das mulheres e sua representatividade na política.

Porém, por outro lado, todos os dias nos confrontamos com a realidade de que ainda há muito por fazer para garantir os direitos de igualdade de género a todos e todas.

Andando pelas ruas de Luanda cheias de movimento, vemos centenas de zungueiras vendendo seus produtos – desde comida, roupa, utensílios.

Zungueira é uma palavra angolana, que vem de Zunga e significa movimento contínuo em Kimbundu, uma das línguas nacionais em Angola; para descrever as vendedoras ambulantes nas ruas das cidades angolanas.

Construir um impacto real no futuro das meninas, adolescentes e mulheres angolanas é gratificante, mas igualmente ambicioso e desafiante

Em Luanda, as zungueiras fazem parte do cenário; e são parte da vida de todos.  Vêm de todas as províncias do país para as cidades, à procura de uma vida melhor.

Quando chegam às cidades, muitas vezes têm que começar do zero – carregando na cabeça os seus bens comerciais em baldes coloridos, geralmente com uma criança pequena amarrados às suas costas, zungando pelas ruas para a subsistência do dia a dia.

Elas formam a base do mercado informal, e são de extrema importância na gestão da economia familiar, pois muitas vezes são elas que levam o sustento às famílias.

As zungueiras são um retrato cultural de peso da mulher angolana. Mas também a imagem que nos relembra do muito trabalho ainda por fazer para garantir os direitos e oportunidades às mulheres com famílias e que trabalham para o sustento do lar.

Temos ainda que considerar que tem sido um ano de grandes desafios devido ao impacto da pandemia Covid-19 em todo o mundo, e em Angola também.

O país foi afetado em áreas cruciais – saúde, economia, educação – e as desigualdades económicas, sociais e de género foram exacerbadas quer a nível escolar, profissional como familiar.

Tem havido esforços conjuntos e um claro compromisso de desenvolvimento em Angola para superar o impacto desta pandemia e apoiar uma recuperação mais sustentável através da implementação da Agenda 2030, e com enfoque especial nas meninas, adolescentes e mulheres.

A ONU em Angola é um dos principais parceiros nacionais em igualdade de género e capacitação das mulheres, especialmente as mais vulneráveis, incluindo migrantes e refugiadas, e em contextos humanitários.

ONU em Angola apoia igualdade de género e capacitação das mulheres. Foto: FAO Angola

Potencializar as mulheres é uma grande prioridade nossa. O país tem uma população significativamente jovem – cerca de dois terços da população angolana têm menos de 25 anos de idade – que serão os líderes de amanhã, e na qual as mulheres terão um impacto crucial para o futuro sustentável que tanto ambicionamos.

Por isso, hoje temos de trabalhar em conjunto criando as condições e oportunidades para que se construam alicerces sólidos para o necessário desenvolvimento sustentável do país.

A ONU em Angola tem reunido esforços com parceiros do país, nomeadamente no âmbito do Quadro da Cooperação (UNSDCF 2020-2022), para desenvolver o projeto de promoção e desenvolvimento de competências e criação de emprego para jovens, em especial as mulheres.

Entre janeiro de 2021 a junho de 2022, este projeto conjunto entre o PNUD e a Unicef, com o apoio do sistema da ONU em Angola e em parceria com o governo angolano e a Embaixada Real da Noruega, tem contribuído para o reforço do sistema nacional de formação técnico-profissional e habilita os jovens angolanos a ganhar as competências de empregabilidade.

Este projeto promove a igualdade de género (180 candidatos do sexo feminino e 120 do sexo masculino), a educação, assim como a participação de adolescentes e mulheres entre os 14 e os 24 anos e em ocupações não tradicionais.

Prevê também alcançar 5000 jovens através de acções de engajamento e de forma direta beneficiar 600 jovens com bolsas de formação técnicas e estágios profissionais no município do Cazenga.

Construir um impacto real no futuro das meninas, adolescentes e mulheres angolanas é gratificante, mas igualmente ambicioso e desafiante.

No contexto de Angola, é essencial continuar a apoiar o país no seu trabalho ao promover os direitos de saúde sexual e reprodutiva das adolescentes, assim como facilitar o acesso destes serviços de qualidade e adequados às jovens.

E é com grande satisfação que conto com as agências da ONU em Angola, nas suas ações, iniciativas e programas. Tem-se feito progressos, mas ainda há muitos desafios pela frente.

O estigma na saúde das mulheres, o casamento precoce e as gravidezes na adolescência continuam a serem obstáculos à capacitação de meninas e mulheres angolanas, dando espaço a vulnerabilidades que tendencialmente conduzem a um abandono escolar muito precoce, limitando a criação de oportunidades futuras.

É neste ponto que acredito ser necessário levantarmos as vozes das mulheres na liderança, enaltecendo os enormes esforços feitos por elas, da sua representatividade em cargos políticos, executivos, nas comunidades regionais e locais para que possam inspirar meninas e mulheres.

Mas, mais do que inspirar, também temos de agir! É assim o meu lema, e o que mantem a minha motivação no quotidiano. E esta motivação surgiu desde muito cedo na minha vida, ainda antes do meu percurso profissional no desenvolvimento internacional.

Nasci e vivi até aos meus nove anos na Índia, cresci nos EUA e hoje considero o Canadá a minha casa.

Foi neste ambiente multicultural onde valorizei desde muito cedo a riqueza da diversidade.

Foi também nesta pluralidade de culturas que percebi como a mulher, em qualquer cultura, assume muitos papéis importantes na comunidade; é filha, é mãe, é protectora do lar, é cuidadora, é profissional. E tentamos fazê-los todos com o mesmo empenho e dedicação!

Em Luanda, as zungueiras fazem parte do cenário; e são parte da vida de todos

Talvez seja por isso que, quando me juntei à ONU em 2002 através de um programa de Desenvolvimento de Liderança do PNUD, senti que por meio do meu trabalho, no contexto de diversidade internacional, que posso contribuir para um entendimento da importância de medidas concretas na área da igualdade de género.

Durante a minha carreira na ONU, tive a oportunidade de viver e trabalhar em locais diferentes do mundo – Genebra, Panamá, Afeganistão, Tajiquistão, Fiji, Bósnia e Herzegovina, São Tomé e Príncipe e agora Angola – promovendo a igualdade de género e o empoderamento das mulheres, sempre como um princípio orientador para mim.

A vida da mulher, mãe e professional, ainda é bastante desigual, e vemo-nos muitas vezes obrigadas a ter que escolher entre a maternidade ou ter uma carreira professional. Isso sem contar com a culpa que persegue a mãe-professional quando ela consegue com sucesso conjugar uma das duas faces dessa intensa dinâmica.

É preciso acompanhar os tempos e as transformações que vão surgindo, sem dar nada por garantido. Às vezes estamos empenhados nos resultados obtidos num determinado momento, e temos de ter a visão da continuidade desse trabalho no futuro. O mundo muda. E mudou muito com a pandemia.

Da minha experiência no PNUD no Afeganistão, aprendi uma lição valiosa. A ONU não poupou esforços no desenvolvimento de projetos para criar oportunidades para as pessoas. Esforços esses que, à medida que o país se move para o controlo pleno dos Talibãs, preocupo-me com a perda desses avanços feitos.

Agora que o mundo está a viver esta grande crise sanitária provocada pela pandemia da Covid-19, somos forçados a reconhecer que os seus efeitos têm um maior impacto nas mulheres.

Mesmo antes da Covid-19, a violência contra as mulheres era também uma pandemia que pré-datava o vírus. O isolamento social afeta as mulheres, tanto através da sobrecarga de trabalho como do incremento dos índices de violência doméstica e diminuição de acesso a serviços de atendimento.

Quase um ano e meio após o início do surto de coronavírus, as consequências socioeconómicas poderão desencadear impactos duradouros nas questões de igualdade de género, ameaçando simultaneamente os progressos já alcançados, bem como empurrando, potencialmente, mais 47 milhões de mulheres e adolescentes para abaixo do limiar da pobreza em todo o mundo, e Angola não será exceção.

Chefe da ONU em Angola vê aumentar oportunidades para mulheres do país. Foto: Pnud Angola

Apesar das desigualdades ainda existentes, as oportunidades para mulheres têm aumentado, no entanto, é preciso mais. Mais iniciativas, mais leis e mais políticas que promovam o empoderamento das mulheres.

Apenas com a incorporação de uma dimensão de género com a realização da Agenda 2030 e a os ODS, e a garantia de uma resposta global à Covid-19, poderemos ter como horizonte uma democracia que, reconhecendo a existência de diferenças e diversidade, seja capaz de garantir-lhes a igualdade de direitos. Mas compreender e resolver grandes desafios exige empenho e coragem!

Esta é a consciência que partilho diariamente com o meu filho de treze anos. Quero que ele compreenda que a luta das mulheres pela igualdade não é uma luta que deva ser travada apenas por elas. Os homens e meninos devem fazer parte desta jornada de mudança, que trará não apenas benefícios para as mulheres, mas para todos, como o fortalecimento da própria democracia.

O mundo precisa de um reforço conjunto para avançar na liderança das mulheres e na participação igualitária.

Globalmente, quando as mulheres lideram no governo, vemos maiores investimentos em proteção social e maiores incursões contra a pobreza.

Quando as mulheres estão no parlamento, os países adoptam políticas mais rigorosas contra as mudanças climáticas. Quando as mulheres estão nas mesas de negociação de paz, os acordos são mais duradouros.

Apesar de todos os desafios, o meu trabalho dá-me a oportunidade de continuar a servir, de criar uma mudança positiva, e isso motiva-me diariamente. Acredito que o nosso lugar no mundo é onde quisermos, mas temos de trabalhar em conjunto, construído um mundo mais sustentável e igualitário para todos.

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