O Sermão do Bom Ladrão na Misericórdia de Lisboa

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“Este sermão, que hoje se prega na Misericórdia de Lisboa, e não se prega na Capela Real, parecia-me a mim que lá se havia de pregar, e não aqui. Daquela pauta havia de ser, e não desta. E por quê? Porque o texto em que se funda o mesmo sermão, todo pertence à majestade daquele lugar, e nada à piedade deste”.

Ah! Padre Antônio Vieira (1608-1697), se o tempo vos trouxesse de volta, pelo menos por um dia, pediria que proferisses de novo o “Sermão do Bom Ladrão”, aquele proferido na Igreja da Misericórdia de Lisboa, em 1655, ante a corte do Dom João IV (1604-1656), de Portugal.

Dou por certo que teríamos que escolher lugar bem amplo para caber tantos que precisam de vossa prédica, de arrependimento e de conversão.

Todos sabem do destemor do orador barroco como pregador, das intrigas em que se envolveu e o quanto sofreu por isso, razão pela qual é lembrado, também, como pensador do estado moderno português e como crítico ferrenho da falta de caráter dos políticos do Reino, em sua época.

Chama a atenção, neste sermão considerado uma entre suas obras-primas de retórica, o ponto de partida, o jogo comparativo entre o bom e o mau ladrão, o que furtou menos e consumiu o que furtou e o que enriqueceu com o furto. Para tanto, toma duas figuras bíblicas, Dimas e Zaqueu: o primeiro crucificado ao lado de Jesus Cristo, a quem pede antes de morrer, que se lembre dele ao chegar no Paraíso; e o outro, um rico cobrador de impostos. Dimas fazia pequenos furtos para sobreviver.

Pregando em Jericó a caminho de Jerusalém, Jesus encontra-se com Zaqueu, visita a sua casa mesmo sabendo de sua má reputação.

Comovido com tal gesto, o corrupto se converte e pede ao Nazareno que o salve e este exige que antes de conceder-lhe essa graça, devolva aos pobres o que furtou usando a sua condição de publicano.

Sem dar spoiler, tudo que é dito se aplica ao que se desenrola ante os nossos olhos neste momento político.

Algumas passagens do Sermão colam-se aos acontecimentos como roupas feitas sob medida.

Sobretudo ao advertir aos soberanos que não furtem e nem deixem furtar porque, “em vez de os reis levarem consigo os ladrões ao Paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao inferno”.

O dirigente que deixa furtar é ladrão duas vezes, “uma porque furta o ofício, e outra porque há de furtar com ele”.

Indagando como os larápios chegam ao poder, Padre Vieira reponde que “não entram por mérito: uns entram pelo parentesco, outros pela amizade, outros pela valia, outros pelo suborno e todos pela negociação”.

E assim, esse conluio se faz e se reproduz, tanto no Paço do Rei como além-mar.

Referindo-se à reposta de São Francisco Xavier (1506-1552), missionário Jesuíta que atuou no Oriente, à indagação de D. João III(1502-1557), de Portugal, sobre a corrupção nas Índias, o missionário “escreve de lá, sem nomear ofícios nem pessoas”, que “o verbo rapio na Índia se conjugava por todos os modos”, e acrescentando ao que disse o santo, explica: “começam a furtar pelo modo indicativo… furtam pelo modo imperativo…furtam pelo modo mandativo…furtam pelo modo optativo…furtam pelo modo conjuntivo…furtam pelo modo potencial…furtam pelo modo permissivo…Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuando os furtos”.

Não sendo ingenuidade em demasia, nem vilipêndio com os mortos dessa pandemia, mas um último acreditar na bondade da natureza humana, gostaria, sinceramente, Padre Antônio Vieira, que ao final da repetição da vossa prédica virtual, os “Dimas e Zaqueus do nosso tempo”, culpados por tudo isto, sinceramente arrependidos, pudessem ouvir, cada um, aquele sopro divino da voz do Senhor Crucificado: “Hodie mecum eris in Paradiso!

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