Para a querida Professora Bem-Vinda

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Hoje lembrei-me de uma cena marcante do meu primeiro ano do Ensino Médio, em 2009. Eu estudava em um colégio particular, o qual se dizia acolhedor da diversidade humana.

Pensando bem, para a época, devia ser mesmo, porque, presumo, que outros colégios deveriam ser até mais conservadores. E eu era um jovem adolescente gay, condição essa que a minha cabeça cheia de confusão sequer entendia muito bem.

Naquela idade, eu ignorava sobre o que é condição sexual, diversidade sexual ou homossexualidade. O sufixo ismo diz muito sobre isso, pois grafado assim, homossexualismo significa doença.

E era doloroso reconhecer-se diferente e não saber como lidar com esse conflito e, ao mesmo tempo, observar que os ditos “normais” estavam se apaixonando e tendo seus romances expostos, enquanto eu não poderia me apaixonar de forma explícita, sem que isso não fosse motivo de discussões e visitas constantes da psicóloga à sala.

Aliás, vale registrar que a presença das psicólogas às salas de aula do meu colégio era constante. E essas visitas nos davam uma sensação de desconforto aterrador.

Lógico, hoje reconheço o incrível valor dessa profissão, disfruto hoje dos benefícios que ela traz para o mundo.

Porém, estamos falando de 2009, quando tudo era muito diferente.

As psicólogas, ao menos no meu colégio, eram vigilantes de costumes: quem saísse um pouco do dito “normal” era convidado(a) a conversar com a psicóloga.

E adivinhem quem ia muito até a psicóloga?

Claro, aqueles que já manifestavam as aparentes expressões da homossexualidade, que hoje posso denominar de “jeitinho de gay”. Amigas que andavam de mãos dadas eram consideradas próximas de uma “amizade perigosa”.

Vejam que nesse colégio os costumes eram vigiados por olhos que sequer piscavam. E a sexualidade do(a)s aluno(a)s sofria um controle enorme, uma pura ilusão de controle. Continuemos.

Nesse interim tive aulas com uma professora que me marcou interiormente, motivo pelo qual faço este relato.

Vou chamá-la de Professora Bem-vinda, referindo-me a uma personagem obra Os miseráveis, de Victor Hugo. A Professora Bem-Vinda era esguia, alegre e extrovertida, como se fosse uma figura saída de um conto adolescente da Disney.

Ela ministrava aulas de Literatura, porém, havia um mais-que-isso em suas abordagens. Existia nela um forte interesse em formar seres humanos, postura que demorei a rever em minha vida adulta.

Suas aulas iam muito além da preocupação com o mundo dos vestibulares. Ela ensinava postura de vida cooperativa, de preservação ambiental, de acolhimento – e nesse último item ela dava um show.

Eu olhei para aquela figura colorida e extrovertida e pensei: com ela estou seguro!

Enfrentei muitas dificuldades no Ensino Médio: bulling, repetição de ano, medos e inúmeros outros problemas que advinham, muitas vezes, da falta de aceitação de mim mesmo.

E ela sempre dizia: “Quando quiser conversar estarei aqui!”

Nunca esqueci dessa conversa, na qual ela disse: “Dentro de você tem uma estrela que tem quer brilhar e você não a deixa!”. Dito isso, ela deu uma piscadela com o olho direito.

Na época não entendi a metáfora, hoje sei que ela falava de homossexualidade; e ela sabia que essa era a fonte das minhas tantas dificuldades e desamparo naquele contexto.

E aliás, naquele ambiente, existia um imperativo: o do famigerado vestibular, que era cobrado constante e passava por cima de qualquer problema psicológico.

Qualquer coisa que tirasse o foco do vestibular era condenada e expurgada. O importante era passar no vestibular, mal sabia que esse é o primeiro golpe do mundo capitalista cruel em que vivemos – o mesmo que sociedade desigual gerida por meios meritocráticos.

Mas voltemos ao assunto.

A Professora Bem-Vinda promovia uma quadrilha junina na escola, na qual os homens se vestiam com roupas femininas e mulheres se vestiam com roupas masculinas.

Hoje entendo essa ideia como uma forma de acolher a diferenças entre as pessoas. Repito: suas aulas visavam a formação de seres humanos humanistas.

Com ela, aprendi conceitos esclarecedores, vindos da melhor literatura universal. Nunca esqueci das aulas dela sobre Os Lusíadas, de Camões; sobre introdução à mitologia grega, na qual tive conhecimento de faunos e centauros; isso era máximo na minha vida de nerd e gay.

Porém, a humanidade da Professora Bem-Vinda não era bem-vista e, como sempre acontece nas melhores histórias da literatura, ela começou a ser perseguida.

Muitos de dentro da escola passaram a criticar suas aulas fora do normal. Pais diziam que a sua quadrilha junina incentivava o homossexualismo, atitude que entendemos hoje como homofóbica.

E pelo colégio se espalharam boatos e fofocas, até que pais e aluno(a)s conservadore(a)s se uniram para argumentar que suas aulas não eram voltadas para o vestibular e, por isso, eram desnecessárias.

E esse foi o fim das minhas aulas com a Professora Bem-Vinda, que acabou marcando tanto minha vida de adolescente gay em meio a um mundo homofóbico.

Hoje não sei onde anda essa querida professora. Este texto, porém, expressa o meu carinho por ela e me leva a reconhecer que o acolhimento sempre será importante e necessário para a construção de uma vida digna.

Às vezes uma frase ou uma postura são capazes de mudar uma vida inteira.

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