Autoridades brancas inventaram que Parintintins eram antropófagos

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Os antigos habitantes do rio Madeira criaram uma lenda em torno dos Parintintins, considerando-os antropófagos.

Essa lenda teve origem no passado, porquanto, já em 1870,no relatório lido perante a Assembleia Legislativa, o presidente da Província do Amazonas diz que no distrito de Santo Antônio, rio Madeira, os índios Parintintins, acometeram, na foz do rio Machado, uma cano tripulada por três pessoas, duas das quais assassinaram a flechadas, conduzindo os cadáveres para as festanças do costume.

Em outros trabalhos anteriores, também de presidentes da Provincia, encontrei diversas notas alusivas aos tradicionais guerreiros, e quase todas com a imputação dada a eles de antropófagos.

A verdade, porém, é que, depois de um ataque ou de uma luta, os Parintintins não levam os cadáveres de seus inimigos para a maloca e sim os de seus companheiros, que eles têm o cuidado de enterrar, quase sempre, à sombra de tapiris cobertos com folhas de ubim.

No posto de pacificação morreu um índio, quando ali estive e eles sepultaram o cadáver no interior de um rancho que havia sido construído para os seus momentos de repouso.

Do inimigo eles só costumam levar a cabeça, mas a guisa de troféu, para mostrá-la ao chefe e aos companheiros que ficaram na maloca, testificando, por esse modo, a realidade do seu feito.

A antropofagia não existe nem nunca existiu entre os Parintintins. Admiti-la como um fato seria cometer uma mistificação histórica que contrasta, em absoluto, com a índole dos famosos guerreiros.

Se eles são escrupulosos no asseio do corpo, lavando-se diariamente, não menos escrupulosos se mostram na alimentação, recusando-se até a comer a carne de animais criados nas suas malocas, sob o pretexto de que são tidos como mimbab (xerimbados) e partilham do convívio humano.

Quando um grupo desses índios, guiados pelo encarregado do posto de pacificação, esteve em 1923 em Três Casas, no rio Madeira, o proprietário feste seringal, coronel Manoel de Souza Lobo, resolveu matar um boi para a sua alimentação, mas, avisados dessa resolução, os Parintintins fizeram a sua recusa, alegando que não comiam carne de mimbab.

Mas não é só. Os Parintintins abominavam o ovo de galinha ou de qualquer outra ave, dando a entender que quem o come, comete o sacrifício de um ser antes do seu nascimento.

Atualmente, seguindo o exemplo do civilizado, alguns já vão comendo ovos e até mesmo carne de boi, mas deixam vislumbrar nos seus gestos uma natural repugnância.

Absurdo, portanto, seria admitir a hipótese da antropofagia, atribuída aos famosos guerreiros.

Os seus principais alimentos são frutas, macaxeira, milho, cará, aves, macaco, anta e outros animais abatidos na floresta, porque, como já disse, eles não comem os que são criados nas malocas, considerando-os como seres já humanizados.

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Joaquim Gondim, em A pacificação dos Parintintins (Ediçãoa Governo do Amazonas, 2001)

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