Livro sobre a história do Festival da Canção de Parintins será lançado no bumbódromo

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A historiadora Hiana Rodrigues da Silva Magalhães lança neste sábado, às 10h, no Liceu Claudio Santoro (bumbódromo), em Parintins, o livro O Festival da Canção de Parintins por meio das narrativas dos compositores: história memória e identidade (1985-1991), resultado da sua pesquisa para a obtenção do título de Mestre em História Social pela Universidade do Amazonas (PPGH/Ufam).

A obra já está à venda nas livrarias virtuais e no portal da Editora Valer

O festival estudado por Hiana é um entre outros que se realizaram em Parintins no rastro dos festivais de música de vanguarda que se realizaram no Brasil em décadas anteriores.

O Festival da Canção de Parintins (Fecap), que ocorreu de 1995 a 1991, foi o que mais marcou a história da música desenvolvida em Parintins por ter reivindicado uma identidade indígena amazônica em diálogo com outras culturas musicais, entre as quais a andina.

Hiana, cuja investigação é orientada pela teoria do conhecimento na História Oral, entrevistou os principais participantes e organizadores do Fecap: os compositores e músicos Tony Medeiros, Inaldo Medeiros, Fred Góes, Paulinho Dú Sagrado e José Carlos Portilho; e Erivaldo Maia e o jornalista Nelson Brilhante.

Erivaldo Maia agia como organizador e Nelson Brilhante, um dos apresentadores de palco, guarda documentos burocráticos, notícias de jornais e fotografias sobre o evento.

José Carlos Portilho e Emerson Maia morrem neste ano, em consequência de complicações causadas pelo novo coronavírus.

Por meio dos depoimentos dessas “testemunhas oculares” da história do Fecap, a historiado pôde contextualizar as articulações do movimento musical parintinense com as anteriores e novas tendências culturais contemporâneas.

Quem ler esse livro vai entender por que o Fecap ainda vive, ainda está presente.

“[…] a vida não se resume em festivais […]”, anotou Hiana, referindo-se ao fato de a arte e os artistas não se renderem ao conformismo e, por isso, estão sempre criando novas possibilidades de renovar o próprio mundo.

 

Confira a entrevista:

Por que pesquisar o festival de música de Parintins?

Quando eu iniciei o curso de História, pela UEA, achei fantásticas as disciplinas, especialmente conhecer sobre a Nova História e História Cultural.

Tivemos uma prévia no curso, como disciplina especial, História Oral, e trabalhar com narrativas orais me pareceu muito interessante.

Meu primeiro projeto já foi direcionado para movimentos culturais. Iniciei escrevendo sobre o Tropicalismo, enquanto movimento de vanguarda.

Mas, tínhamos que escolher nosso projeto, que mais tarde seria para a monografia. Ainda com a efervescência do Tropicalismo, resolvi pesquisar sobre algum movimento musical na minha cidade, voltado para a música, nesses mesmos contextos.

Então cheguei ao Festival da Canção de Parintins (Fecap), que aconteceu entre 1985 e 1991.

Como se deu a escolha dos seus entrevistados (fontes principais)?

Desde 1979, os festivais de música aconteciam em Parintins, mas, o Fecap foi o mais famoso e representativo para a memória afetiva dos compositores entrevistados: Tony Medeiros, Inaldo Medeiros, Fred Góes, Paulinho Dú Sagrado, José Carlos Portilho e Erivaldo Maia, que é o colaborador responsável pela execução do Fecap, contando com o apoio do jornalista Nelson Brilhante.

Seu Nelson me concedeu todo o seu arquivo de fontes documentais, registros dos festivais, e esses registros mostram a participação de muitas personalidades, como o cantor e compositor João Nogueira.

O que você imaginava sobre o Fecap e o que ele lhe revelou?

Como monografia meu trabalho foi um grande sucesso, ficou muito legal, nunca esperei uma nota 10. Mas recebi. Fiquei muito feliz!

Certa vez adaptei o trabalho para uma pesquisa de mestrado em História. Foi difícil, mas deu certo.

Para a dissertação do mestrado, acredito que a maior colaboração foi na pesquisa no campo da História Oral, trabalhei integralmente com Memória, História e Identidades. Meu orientador, professor Glauber Biazo, sempre disse para me apegar às fontes orais, pois elas eram um verdadeiro tesouro.

Quais os motivos da curta duração do festival?

Meus colaboradores para com a pesquisa, já eram compositores de prestígio, especialmente pelas toadas de boi-bumbá. Foi uma surpresa pra mim, pesquisar festivais de música e encontrar com esses mesmos compositores, todos engajados em festivais. Eram todos muito jovens, na década de 1980 os compositores famosos eram: Emerson Maia e José Carlos Portilho.

Mas 1985 foi um ano de uma grande vanguarda musical, para muitos jovens que viram o Fecap, como o palco para reivindicar muitas coisas boas, lutar por identidade musical. Tudo isso foi fantástico porque realmente eles estavam em começo de carreira, para algo que poderia ou não dar certo. São suas experiências de sucesso que eles narram.

Senti nessas narrativas muitas emoções reveladas…

 

Existe relação (motivações negativas, p.ex., para o Fecap) entre o festival e o boi-bumbá de Parintins?

Com o fim do Fecap, todo esse conhecimento musical compartilhado tinha que prosseguir, mas Parintins não tinha como manter dois grandes eventos. O maior Festival já era o Festival Folclórico de Parintins. Assim aconteceu gradativamente, a diáspora dos compositores para o campo da toada.

Percebemos a mudança não só na inserção de novos instrumentos, mas na própria forma de compor “canção toada”, o regionalismo, cantar a diversidade do lugar: o encontro de tradição e vanguarda.

Todos esses compositores olham para o Fecap como o palco que projetou essas inovações. Estamos falando de um festival de música com influências de muitas coisas, um caldeirão multicultural.

Qual a dinâmica da pesquisa com os seus colaboradores?

Todos foram entrevistados individualmente, sempre vejo meu ponto zero, ou seja, meu primeiro colaborador foi o Fred Góes.

Sempre quis entender por que tantos instrumentos andinos nos arranjos das canções, como um forte elemento de representação e identidade. O palco do Fecap contribuiu muito para mostrar essas novidades.

Tony Medeiros sempre lutou por uma identidade indígena, isso é muito forte na sua narrativa. O que posso dizer é que essa memória, quando se atualiza na imagem-lembrança, traz à tona a consciência de um momento único e singular, não repetido, irreversível, da vida.

Posso dizer que, para meus colaboradores – os compositores – “a vida não se resume em festivais”, que as expressões artísticas são contrárias ao conformismo e que através da sua arte, que é a música, eles expressaram suas ideias, sonhos de liberdade.

A experiência foi enriquecedora para mim e me propiciou um verdadeiro deleite, porque o historiador da oralidade tem seu campo de atuação implícito no imaginário de seus entrevistados, o trabalho de leitura dessas memórias me permitiu ver que existe um grande sentimento de amargura pela não continuidade do evento e seu processo criativo e inovador que propiciou musicalidade. Até hoje o Fecap continua sendo parte importante de suas memórias individuais e coletivas.

Há algo mais que você gostaria de destacar?

Gostaria de dedicar este lançamento, in memoriam, ao compositor Carlos Portilho, um dos meus colaboradores.

 

Trecho

[…]

Eu cheguei em Parintins em 1985, trouxe uma carga de informações sobre a música latino-americana, inclusive de instrumentos: charango, cuatro venezuelano, zampoñas (que são flautas andinas), quenas, rondador (que é um instrumento do Equador).

Enfim, uma série de instrumentos latino-americanos, além da própria música latino-americana. Eu tocava com um grupo latino-americano, fazia parte de um movimento em São Paulo de música latino-americana e, é claro, acabei trazendo essas informações musicais para o pessoal daqui. Então, eu praticamente repassei os meus instrumentos para o pessoal daqui.

Eu tocava, mas passei a não tocar mais profissionalmente, abri o jornal e continuei trabalhando com música e, mais especificamente, com o jornal.

Eu participei de um movimento latino-americano que foi no início de 1970, que foi até os meados de 1983, 1984, 1985 […] na realidade começa esse movimento em 1968 que vai até 1984 1985 até mais ou menos por aí, depois o movimento foi se diluindo, que era a fase daquelas ditaduras, o pessoal veio aí dos outros países vizinhos e se concentrava tudo em São Paulo.

Então foi um movimento de música latino-americana que eu participei quase na sua integridade, quase na sua totalidade.

Porque eu primeiro participei com um grupo que se chamava Chasqui, que era um grupo que cantava música peruana, música boliviana, música brasileira, e depois com o grupo que se chamava Machitún, que era também tudo, é… em palavra quíchua (quéchuas), dos índios araucanos e dos índios bolivianos, dos araucanos do Chile, e foi um movimento com Música Popular Brasileira, mas o foco maior era a música latino-americana, aí trabalhei durante dez anos mais ou menos.

Nos anos 1980 a gente estreou um grupo muito forte que saiu destes (dois) grupos, aí foi formado o grupo Raíces de América, que foi um grupo que viajou o Brasil todinho com um trabalho mais profissional.

[…]

Fred Góes, compositor e músico, em O Festival da Canção de Parintins por meio das narrativas dos compositores: história memória e identidade (1985-1991).

 

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