A vida e o romancista (Virginia Woolf)

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O romancista – tal é o seu mérito e seu risco – está tremendamente exposto à vida.

Outros artistas se recolhem, pelo menos em parte; fecham-se sozinhos por semanas a fio com uma travessa de maçãs e uma caixa de tintas, ou com um rolo de pautas musicais e um piano.

Quando saem, é para esquecer ou se distrair.

Mas o romancista nunca esquece e raramente se distrai.

Enche o copo e acende um cigarro, provavelmente goza de todos os prazeres da conversa e da mesa, mas sempre com a sensação de que está sendo manipulado e estimulado pelo tema de sua arte.

Sabores, sons, movimentos, algumas palavras aqui, um gesto ali, u, homem entrando, uma mulher saindo, o automóvel que passa na rua ou o mendigo que se arrasta pela calçada, e todos os vermelhos, azuis, luzes e sombras das cenas pedem sua atenção e despertam sua curiosidade.

É-lhe impossível deixa de receber impressões, assim como é impossível a um peixe no oceano deixar de ter água passando pelas guelras.

Mas, se essa sensibilidade é uma das condições da vida do romancista, é evidente que todos os escritores de livros duradouros sabiam controlá-la e usá-la para seus fins.

Terminavam o vinho, pagavam a conta e iam embora sozinhos, para algum quarto solitário onde, com esforço e hesitação, em agonia (como Flaubert), com luta e precipitação, em tumulto (como Dostoiévski), dominavam, fortaleciam e convertiam.

É tão drástico o processo de seleção que, na fase final, muitas vezes não encontramos vestígios da cena verídica em que o capítulo se baseava.

Pois, naquele quarto solitário, cuja porta os criticam tentam constantemente abrir, passam-se os mais estranhos processos.

A vida é submetida a mil disciplinas e exercícios. É refreada; é morta.

É misturada a isso, é enrijecida com aquilo, contrastada com aquilo outro; assim, um ano depois, quando fica pronta nossa cena no café, já desapareceram os sinais superficiais pelos quais nos recordávamos dela.

Da abruma emerge algo firme, algo tremendo e resistente, a própria medida em se sustentava nosso fluxo de emoções indiferenciadas.

Entre esses dois processos, o primeiro – receber impressões – é sem dúvida o mais fácil, mais simples e mais agradável.

E, se a pessoa for dotada de uma índole receptiva e de um vocabulário com riqueza suficiente para atender a suas exigências, é plenamente possível criar um livro a partir dessa exclusiva emoção preliminar.

Três quartos dos romances que aparecem hoje em dia são preparados com experiências às quais não se impôs nenhuma disciplina, a não ser o brando freio da gramática e os ocasionais rigores da divisão em capítulos.

[…] o romancista que é escravo da vida e produz seus livros a partir da efervescência do momento faz algo que é difícil, algo que agrada, algo que – dependendo do leitor – pode até instruir.

Mas a sua obra passa como o ano de 1921 passa, como os foxtrotes passam, e em três anos fica esquisita e sem graça como qualquer outra moda que cumpriu seu turno e foi embora.

[…] retirar-se para o estúdio por medo da vida é igualmente fatal. Sem dúvida é possível fazer nessa quietude imitações plausíveis de Addison, por exemplo, mas são insípidas e quebradiças como gesso.

Para sobreviver, cada frase precisa ter uma pequena centelha em seu cerne, e essa centelha, por arriscado que seja, o romancista precisa extrair das chamas com as próprias mãos.

Sua situação, portanto, é precária. Precisa se expor à vida; precisa enfrentar o perigo de se extraviar e se ludibriado por suas aparências enganosas; precisa arrancar-lhe seu tesouro e deixar os refugos.

Mas em dado momento ele precisa abandonar a companhia e se recolher sozinho àquele quarto misterioso em que seu corpo se enriquece e se molda adquirindo permanência, graças ao processo que, embora escapem ao crítico, guardam para ele um profundo fascínio.

Virginia Woolf, em A arte do Romance (LPM, 2019)

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