Conflito, Confronto e Ruptura

Por Walmir de Albuquerque Barbosa*

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Das lembranças bem vivas na memória, guardo o dia 24 de agosto, dia em que Getúlio Vargas, bem longe da minha cidade de interior, com um tiro no peito, saía “da vida para entrar na história”. Foi o meu batismo na política. Tinha cinco anos de idade e a sala da casa de um vizinho, o único das proximidades a possuir um rádio, serviu de pia batismal. Ele, generosamente, abriu a sua casa para que todos os interessados acompanhassem os acontecimentos transmitidos, em cadeia, pela Rádio Nacional. Mesmo sem saber bem do que se tratava, achei bonito e triste quando o locutor fez a leitura da famosa Carta Testamento: “Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o direito de defesa… Sigo o destino que me é imposto…” Não que isso seja bom e, de coração, se deseje a alguém, mas foi o último Chefe de Estado de que temos notícia, no Brasil, que pôs fim à crise política com a própria vida.

Mesmo assim, a política e os políticos não tomaram isso como lição. Veio logo a seguir uma sucessão de malsucedidos golpes militares, sendo o mais grave dessa quadra política o levante de Jacareacanga, tentando depor o Governo recém-empossado de Juscelino, patrocinado pela Força Aérea acantonada na Amazônia. Em 1961, veio a Renúncia de Jânio Quadros; em 1964, o Golpe Militar, que mergulhou o país numa Ditadura militar/civil por mais de 20 anos. Tudo em nome do desejo de mando indevido.

Todos passaram, mas ficaram as marcas de um confronto com feridas abertas, que não sararam. A mentira histórica de um país harmônico fica evidente nos olhos dos beligerantes que agem em nome de um falso nacionalismo: que só conhece a intolerância; que não aceita o conflito e as diferenças como práticas sociais e parte da convivência humana; que menospreza o Estado Democrático de Direito; que busca incessantemente o confronto e se regozija com o tiro no peito e com os golpes armados como formas de entrar para “história”.

Os tempos estão difíceis e o que ocorre por aqui, embora seja do pleno consentimento expresso no voto, ainda não é a ideologia dominante, mas uma “tendência” que ganhou a alma de uma maioria, em grande parte formada por descontentes com as práticas dos agentes no poder. Mesmo assim, tem consequências que merecem análises sociopolíticas mais profundas. Não é somente uma onda, um revival da direita radical, é uma ordem econômica, política e social que desmorona e inaugura o caos. Para os inseguros, parece o fim de tudo e, por isso, esses se agarram ao retrovisor do conservadorismo, dando asas aos que já têm o vício do poder a qualquer custo. Ao romperem com as conquistas do processo civilizatório, elegem o que há de mais radical na direita contemporânea, suas falsas promessas de segurança e estabilidade; mesmo tendo que mandar às favas toda a ética, todo o pudor e, por fim, todas as conquistas que definem a nossa humanidade.

Manuel Castells, debruçado sobre o estudo desse “claro-escuro do caos”, em “Ruptura” (2018), editada no Brasil pela Zahar, convida-nos a uma saída, já que não podemos construir uma nova ordem da noite para o dia: “mas sim, quem sabe, para configurar um caos criativo no qual aprendamos a fluir com a vida, em vez de aprisioná-la em burocracias e algoritmos. Dada a nossa experiência histórica, aprender a viver no caos talvez não seja tão nocivo quanto conformar-se à disciplina de uma ordem” (p. 148). Os que viveram os tempos sombrios dos autoritarismos, das ditaduras e do desrespeito à dignidade humana sabem do que falamos. Aos que, ainda, felizmente, não passaram por tais horrores, que jamais alimentem a curiosidade de experimentá-los.

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