Pronto, falei!

Compartilhe:

O texto indica algo muito pessoal. Ledo engano! Interessa a todos nós! Tinha pensado em começá-lo assim: “Auriverde pendão da minha terra, / Que a brisa do Brasil beija e balança, / Estandarte que a luz do sol encerra/ E as promessas divinas da Esperança…!” Não, sequestraram nossa bandeira e perdemos também a paleta de cores da nação!

Pensei de novo: “Andrada! arranca esse pendão dos ares! / Colombo! fecha a porta dos teus mares!” E nada! Todo o socorro pedido a Castro Alves foi em vão diante daqueles 14 quarteirões da Avenida Paulista, que viraram, sem querer, a medida da nossa consciência política.

Comecei a ficar temeroso, pensando naquela volta apoteótica de Napoleão para retomar o trono da França e governá-la por mais Cem Dias e as manchetes do jornal Le Moniteur: “O Monstro fugiu do Exílio”, “O Ogro corso desembarcou em Cabo Juan” …E na medida em que Napoleão se aproximava das imediações da capital francesa, o jornal ia melhorando a manchete e as adjetivações até que, por último, escancarou: “Ontem à tarde, Sua Majestade o Imperador entrou solenemente em Paris…”.

Parecia até que as coisas se repetiam, mas não! Tudo estava acontecendo aqui, nas inacreditáveis manchetes da TV: “O Presidente discursa na Praça dos 3 Poderes”; “O Presidente embarca para São Paulo”; “O Presidente repousa no hotel de trânsito do Comando Militar”; “O Presidente, de Helicóptero, se aproxima da Avenida Paulista…” E eu tremi: agora, a próxima manchete será o anúncio do Golpe, que Deus nos livre! Não foi.

O mundo político é cheio de truques e de simbologias. Os espertos pensam mais no truque, os sensatos pensam na liturgia dos cargos que ocupam. As leituras de marketing podem ser diversas, mas tudo converge para um mundo de incertezas quando se coloca o carro adiante dos bois.

Não deveria ser campanha política, pois esta ainda não foi autorizada por lei. Não poderia ser um grito de liberdade, porque estão reivindicando o autoritarismo. Não pode ser um grito pela paz, eis que tudo foi feito para ser uma declaração de guerra, um ultimato.

Só sabemos que tudo foi combinado: escolheram os palcos; mediram-se o tempo dos discursos e a força das palavras; graduaram-se a emoção e a esperteza para fazer tudo às custas do erário, pondo as despesas na conta das comemorações do dia da Independência.

Mas que espécie de “Napoleão” é esse que faz um caminho inverso como se estivesse num estado de consciência incontrolável? Por que sair de Brasília, ir à São Paulo, se o alvo maior estava em frente ao palanque armado na capital da República? Mas temos precedentes: a famosa foto de Jânio Quadros querendo caminhar para frente com os pés voltados para trás; Collor, encurralado, pedindo para todos irem às ruas vestidos de verde e amarelo e o povo comparecendo de preto para pedir sua deposição, com a cara pintada.

São sinais que repetem coisas ditas pelos Evangelistas, ouvidas a cada ano litúrgico: parábolas que falam da figueira que não dá mais frutos como sinal do fim dos tempos. Sinais não faltam. Os ratos do poder não gostam de porões inóspitos; os espertos de verdade enxergam longe; os ingênuos guardam sempre o instinto de sobrevivência para cair em outro engodo; os sectários são tão soberbos que preferem a morte a renunciar às suas convicções; os covardes capitulam.

Aos sobreviventes cabe decidir, mas o mundo muda, independente de direção, e aí mora o perigo. É melhor recorrer à bússola da sensatez! Não é fácil governar, mas não é difícil ver o que falta, o que pode ser feito, como priorizar o que é mais necessário neste momento. A política existe, sobretudo, para isso; e o poder só é legítimo quando se afasta do sectarismo e das parcialidades e reconhece o direito de todos; quando não exclui, acolhe!

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.