Primeiras pesquisas sobre as flechas envenenadas na Amazônia

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As necessidades das guerras e da caça sugeriram o uso, entre as populações primitivas de todos os continentes, de flechas portadoras de venenos.

Ainda hoje é corrente o seu emprego em grupos indígenas da Oceania, da América do Sul e da África Oriental.

Desde os cantos homéricos encontramo-las assinaladas. E o termo tóxico que se aplica a qualquer espécie de veneno, vem do grego taxon, que significa arco.

É extremamente variada a série de produtos utilizados nas pontas das flechas, desde a mais remota antiguidade.

Mas três entre eles merecem destaque: o antiar, encontrado na Austrália, na Indochina, na região de Malaca, e extraído da planta da Oceania: antiaris toxicaria; um veneno este-africano, proveniente da espécie do gênero Strophantus;  e o Curare, frequente em toda a região equatorial da América do Sul e, especialmente, nas bacias do Amazonas e do Orenoco.

Uns e outros vêm sendo objetos de múltiplos estudos bioquímicos, mas nenhum atrai a atenção dos pesquisadores como o veneno dos Tupis-Guaranis.

Sir Walter Raleigh levou, pela primeira vez, das Guianas Inglesas à Europa, em 1595.

Desde então deles se ocuparam quase todos os viajantes, missionários e naturalistas que percorreram as regiões centrais da América do Sul.

La Condamine publicou a primeira descrição de tal veneno cujos efeitos sobre o homem e os animais observou. Humboldt assistiu ao seu preparo ritual, nas margens do rio Pandamo e colheu informações sobre as plantas utilizadas em sua fabricação: uma trepadeira da família dos Stricnos, denominada pelos índios de Mavacure, e uma árvore de largas folhas, pelos mesmos chamada de Quiracagueiro.

Não sendo o extrato de Mavacure suficientemente espesso para aderir às flechas, juntam-lhe o suco extremamente pegajoso do Quiracagueiro.

No momento em que este é derramado sobre o licorvenenoso, em ebulição, produz-se uma coagulação, a masse enegrece e, por evaporação, adquire a consistência do alcatrão.

Este produto constitui o Curare, de fabricação indígena.

Acrescenta Humboldt que os processos de fabricação parecem, por toda a parte, os mesmos, mas que não existem provas de que sejam idênticos os diversos Curares encontrados no Amazonas e no Orinoco, nem que provenham das mesmas plantas.

[…]

O primeiro exame químico do Curare foi empreendido em Bogotá, em 1827, opor Boussingaudt e Roulin.

Quase ao mesmo tempo, J.Pelletier e H. Petroz publicaram em Paris , uma memória sobre o mesmo assunto.

Limitam-se, aliás, uns e outros a descrever os extratos brutos contido por precipitação com ácido tânico.

Em 1865, estabelece Preyer, pela primeira vez, uma fórmula empírica para a substância básica por ele obtida do Curare, servindo-se, para isso, do cloroplatinato correspondente: C10 H35 N.

Refaz Sachs, em 1897, o mesmo estudo e atribui ao alcaloide em questão uma fórmula mais rica em carbono: C18 H35 N.

Reduzido até essa data, esses sumários apanhados, ampliam-se o conhecimento do Curare com os trabalhos de Boehm.

De diversas amostras examinadas, separa ele a Curina, a Protocurina e a Protocuridina, de fórmulas C18, H19, O3, N; C20, H23, O3, N e C19, H21, O3, N, bases ternárias, cristalinas, mas fisiologicamente inativas.

Além dessas, assinala ela a presença de uma quaternária, amorfa, amarelo avermelhada, muito tóxica: a Tubocurarina.

Hoehm põe desde então em voga uma classificação  empírica das variedades do Curare, segundo os recipientes que o contém (tubos de bambu, potes ou cabaças).

[….]

Em 1928, verificam Apäth, Leithe e Ladeck, com o material empregado por Boehm, a identidade entre a Curina e a Bebeerina, alcaloide extraído das raízes de Condrondendron tomentosum Ruiz e Povoa, da família Menísopermaceas.

A Crurina, segundo Späth, é um isómero levógero da d-Bebeerina.

Tornou-se essa afirmação, o ponto de partida de nova série de investigações sobre a composição química e a origem botânica do Curare. 

[…]

Paulo E. de Berredo, em O Curare, veneno das flechas na Amazônia. Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, 1945.

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