Gestores da cultura municipal reafirmam apoio às culturas indígenas

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Os principais gestores da cultura de Manaus reafirmaram o compromisso de reconhecer e acolher os indígenas na pauta do município para o setor.

O lançamento da 1ª Mostra de Arte Indígena de Manaus ontem, no Palácio Rio Branco, foi mais uma ação da parceria entre líderes indígenas e Prefeitura nessa direção.

Entre os dias 22 de setembro e 22 de novembro, o público conhecerá parte das obras dos artistas das 47 etnias, que representam cerca 20 mil pessoas que moram em Manaus.

Ao menos 10 artistas tiveram obras aprovadas pela curadoria da mostra.

“É preciso varrer o preconceito e a incompreensão, para que toda a diversidade humana seja valorizada”, disse o presidente do Conselho Municipal de Cultura (Conclultura), responsável pela organização da exposição.

O Concultura é vinculado à Fundação Municipal de Cultura, Eventos e Turismo (ManausCult), que atua na implantação e gerenciamento do programa de apoio e incentivo à cultura manauara.

O presidente da ManausCult, Alonso Oliveira, lembrou o primeiro passo de inserção dos indígenas na política cultural do município foi dado em 19 de abril deste ano, com a inauguração do Aldeia Memorial Indígena de Manaus, na Praça D. Pedro II.

Nesse espaçou foram encontradas e protegidas urnas funerárias dos povos que habitaram o hoje território manauara muito antes da chegada dos colonizadores.

Referindo-se à mostra, que faz parte da programação do aniversário de Manaus, Alonso foi enfático: “Os grandes protagonistas desse evento são os nossos irmãos indígenas”. Ele também assegurou que a atual gestão não faltará com apoio às atividades culturais que deem visibilidade política e social aos indígenas que moram em Manaus.

O antropólogo João Paulo Barreto, um dos curadores da amostra, acredita que o evento ajudará na visibilização dos artistas indígenas e, também, numa melhor compreensão da presença dos povos indígenas e suas culturas nas cidades.

Para ele, a iniciativa estimula uma percepção de igual para igual entre indígenas e não indígenas, e isso reduz o preconceito entre a diversidade humana.

A líder indígena Marcivana Sateré entende que os gestores culturais, por meio da realização da mostra de arte indígena, reconhecem “a cara indígena” da cidade, a qual se manifesta por intermédio da pintura, do artesanato, da dança, dos grupos e cantores indígenas, da culinária etc.

Árvore da vida

Entre os expositores e expositoras estão Otília Almida Valdez e Daise Josefina Pérez, da etnia venezuelana Warao, que moram em Manaus na condição de migrantes. Elas formam um grupo de quinze parentes que se dedicam à cestaria com matéria-prima retirada do buritizeiro.

Essa palmeira, segundo elas, é endêmica nas terras onde elas moravam, no Delta Amacuro, no nordeste da Venezuela. Os Warao migram para outros países em busca de proteção humanitária e melhores condições de vida.

“O buriti é a árvore da vida. Dela tiramos fibras para fazer a rede de dormir e os frutos para nos alimentarmos”, explica Dayse Pérez .

Amanda Rossa, do Fundo Pan-Americano de Desenvolvimento (PADF), Dona Otilia, Dayse e parenta

Ela acredita que a arte Warao exposta em evento promovido pelas instituições de cultura da cidade ajuda no combate ao preconceito que eles sofrem como índios e migrantes.

Cosmos

O professor, escritor e artista plástico Jaime Diakara vai participar da mostra com duas telas: uma representando a cobra canoa que veio da região do oceano e espalhou os atuais 23 povos indígenas pelo do alto rio Negro e outra que retrata a unidade cósmica, na qual interagem céu, terra e águas.

Ele define as suas telas como “livros que contam histórias da tradição dos nossos povos”. Explica que não há traços soltos nem cores aleatórias: são simbólicos e ao mesmo tempo reais. “As tintas e as cores não são apenas tintas e cores, elas são a vida dos nossos povos”, explica Diakara.

Encantada

Tuniel Ferreira, da aldeia mura de Murutinga, Autazes (AM), recebeu aval da curadoria da mostra para a tela inspirada no encantamento de uma anciã da sua comunidade.

Ela mesma afirmava ter tido uma filha, Maria, e um filho, Manoel, com um boto vermelho.

Sua decisão se deu depois de um desentendimento com o marido. Desorientada, ela foi até a beira do rio e dirigindo-se ao boto que por ali boiava, rogou ter um caso com ele, motivada por vingança.

O boto então passou a visitar a sua casa durante a noite, metamorfoseado em um belo rapaz. E assim, ela concebeu o casal de crianças que foram levadas pelo pai para o fundo do rio.

De vez em quando ela entrava em transe e visitava os filhos.

Em vez de morrer, a anciã encantou-se. E agora reaparece na obra de Tunuel, que foi elaborada com pincéis feitos de talo de capim pé-de-galinha.

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