O mito, o rito e a política

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“Dizem que o que procuramos é um sentido para vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo  que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos”( p.3). Esta é a abertura do primeiro capítulo do Livro Entrevista de Joseph Campbell/Bill Moyers, O Poder do Mito.

As coisas vão se revelando, o livro fica ali pertinho da gente e, de repente, aparece uma conexão entre os acontecimentos e a obra; aí vem a vontade de pedir ajuda. E, ao folheá-la vamos encontrando os rastros dos marcadores de texto sobre as páginas e alguns rabiscos ao lodo. É o sujeito pensante, em outros momentos; mas, agora, é a vontade da razão querendo discutir a atualidade e livrar-se das grandes mentiras ou ilusões.

Vamos à obra: nela, Campbell, logo na abertura, cuja fração de texto reproduzimos acima, parece recusar a busca de sentidos e valorizar a experiência. Procurar sentidos para a vida parece um modo errático de viver, pode nos levar a qualquer lugar, até mesmo à mentira. Já a experiência é concreta, é coisa de quem está vivo e quer percorrer uma boa trilha. Neste sentido, os mitos nos ajudam a encontrá-la ou, pelos menos, “enlevar-nos”.

Estar vivo implica aceitar o que é contingente, o que é bom e o que nem sempre é muito bom ou pode até ser mal. É da vida! E “a vida vive de vida”. Para exemplificar essa sentença o autor descreve um mito hindu, atribuído ao deus Shiva, uma das três maiores divindades do hinduísmo (p.70). “Um monstro veio até ele e disse: Quero sua mulher como minha amante”. Shiva “abre o seu terceiro olho” e faz surgir, após um ritual, um monstro mais poderoso para devorar o pretenso rival.

Vendo-se em inferioridade, o intruso conquistador se rende e pede piedade. Então, o deus Shiva concede a ele sua misericórdia e manda que o outro monstro não o devore. Mas este, se dirige a Shiva e reclama que havia sido criado por ele para devorar o outro monstro, era de sua natureza e exigia que tal se cumprisse, posto que ele precisava de vida para viver.

Então o deus Shiva ordena ao monstro por ele criado que “devore-se a se mesmo”. E assim é feita a vontade do deus; e, do monstro por ele criado para defendê-lo do outro (aquele que se tornou submisso), restou somente a cabeça. Shiva olha o cabeça do monstro, a única parte que sobrou da autodestruição e diz que a transformará em Kirtmukha – a face da glória, alegoria que até hoje orna o pórtico dos seus templos e tem como dístico: “aquele que não se prostrar diante de você não será digno de vir até mim”. Isso é o mito!

A política é uma prática ritual a reunir vários mitos que glorificam o poder, a bondade, a lealdade e, também, a discórdia e a tirania. Todos, nos devidos momentos, orientam a arte de governar a polis. O poder se alimenta de mitos e de ritos; sem eles fenece, perde o sentido.

Os mitos miram uma certa conduta moral. Os ritos não operam resultados quando não são cumpridos todos os seus termos; quando os praticamos de forma incompleta não evocam, devidamente, o beneplácito dos deuses; quando desvirtuados, tornam-se a encenação de uma farsa.

Pessoas não são mitos, nem mesmo os grandes astros da cultura de massas, os “olimpianos”, como nominados e estudados foram por Umberto Eco, em Apocalipticos e Integrados. O mito é coisa séria. A política, mesmo nos dias de hoje, tem “três olhos” como o deus Shiva e, se desprezarmos o mito da democracia e os ritos obrigatórios de suas práticas, monstros sedentos de outras vidas nos colocarão em sérios riscos.

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