Os deserdados de Angicos

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Liminar concedida pela Juíza Geraldine Vital, da 27ª. Vara Federal do Rio de Janeiro, a pedido do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), proibiu o Governo Federal de “praticar qualquer ato institucional atentatório à dignidade intelectual” de Paulo Freire (1921-1997).

Foi sob o pálio desse ato jurídico que, no dia 19 passado, comemoramos o centenário do Patrono da Educação do Brasil, Educador Emérito, Prêmio Educação para a Paz da Unesco de 1986 e, até o fim da vida, um homem que não renunciou às suas ideias de humanização da Educação como forma de redenção dos pobres e oprimidos.

Para objetivar essa ideia-força, Paulo Freire criou um método revolucionário de alfabetização de adultos a partir de duas premissas: motivar os aprendentes, pelo diálogo, a fazer uma leitura política do seu mundo; e, posteriormente, selecionar e apropriar-se das palavras que o identificam e o qualificam na leitura social da realidade, verbalizando, escrevendo e dissertando.

Em 1963, um grupo de educadores realiza a experiência pioneira aplicando o método de alfabetização a um grupo de trabalhadores da cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte.

O sucesso obtido em Angicos ganhou notoriedade nacional e seria levado a todo o país através do Plano Nacional de Alfabetização, com início previsto para 1964. Veio o Golpe de Estado e tudo foi interrompido pela Ditadura, que o considerou subversivo.

O Brasil era um país de população majoritariamente analfabeta, “uma imensa Angicos”, e Paulo Freire queria um país diferente.

Foi preso, teve seus direitos políticos cassados e foi banido do país. Amargou o exílio e saboreou humildemente, também, o reconhecimento do seu trabalho de educador pelo mundo afora.

Retornou ao Brasil após a anistia. O fim da Ditadura garantiu-lhe a retomada da missão de renovação da Educação Nacional, a tal ponto que se tornou impossível apagá-lo ou, pelo menos, reduzir sua importância.

Sua obra não se resume, apenas, ao método de alfabetizar, mas a toda uma concepção de educação, de escola, de educador e de libertação do sujeito que aprende e ensina numa relação dialética aluno-professor; benéfica ao pensamento educacional brasileiro, até então muito influenciado, como dizia ele, por uma “educação bancária”.

Como educadores, introjetamos seus ensinamentos e muito mais, incorporamo-los às nossas práticas em salas de aula como guias do processo de educar; tornamo-los presentes na nossa devoção ao processo libertador da educação.

Isso, em parte, explica porque não conseguiram apagar a força da filosofia de educação freiriana, apesar da existência de grupos políticos que o perseguem até hoje. Expurgá-lo da Educação no Brasil fez florescer o analfabetismo funcional e a vergonha de ainda hoje termos mais de 10 milhões de analfabetos, os “deserdados de Angicos”.

Tudo que se diga aqui sobre Paulo Freire será sempre muito pouco, mas, quem fez de sua obra um caminho; quem teve a felicidade de pô-la em prática e ver o resultado nos olhos, no coração e na vida das pessoas por ela beneficiadas; quem o viu atuando, pessoalmente, como professor, palestrante ou animador de políticas públicas, guarda na lembrança a competência, a firmeza no dizer e o encanto da práxis.

Tive a felicidade de conhecê-lo em alguns dos seus momentos, mas guardo clara em minha mente a imagem do professor de Pós-Graduação da PUC-SP, já com mais de 60 anos, nas aulas semanais, com duração de cerca de quatro horas, durante um bom tempo.

Não como aluno (pois cursava a disciplina ministrada por Octavio Ianni), porém, através da minha janela, a pouca distância: vê-lo e imaginar o que provavelmente estava dizendo era um alento para alma de um educador, que escrevia, naquele tempo, sua tese de doutorado, buscando fazer mais uma leitura do mundo rural brasileiro.

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