Pesquisadora da UFPA relata estudos sobre doença da urina preta

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Não bastasse a pandemia da Covid-19, outra doença vem deixando os paraenses em alerta. A doença de Haff, popularmente chamada de urina preta, já teve casos diagnosticados no Pará, e alguns estão “em suspeita” em Belém.

Novamente circulam fake news, o que gera pânico e desinformação. Qual o papel da academia, além de auxiliar as pesquisas sobre a disseminação da doença?

Auxiliar a conscientização da população acerca dos riscos e das medidas reais de proteção, conforme explica a pesquisadora doutora Lílian Lund Amado, coordenadora do Laboratório de Ecotoxicologia – Labecotox (ICB/UFPA) e do setor de Ecotoxicologia do Laboratório de Pesquisas em Monitoramento Ambiental Marinho – Lapmar (IG/UFPA).

A doença de Haff, assim chamada por ter sido descrita pela primeira vez na região de Königsberg Haff (costa do mar Báltico) é um tipo de rabdomiólise, que significa destruição de fibras musculares em virtude do lançamento, na corrente sanguínea, de todo o conteúdo que se encontrava dentro das células que compõem essas fibras, o que inclui uma série de enzimas, como a creatina fosfoquinase (CPK), e de proteínas, como a mioglobina.

Neste processo, os rins são sobrecarregados, já que a sua principal função é a “limpeza” ou depuração plasmática, sendo lançado na urina o que o organismo não necessita ou precisa eliminar para evitar toxicidade.

Daí vem o principal sintoma, a urina preta, derivada do alto conteúdo de mioglobina vinda da destruição das fibras musculares.

Os principais sintomas da doença estão relacionados com rigidez muscular repentina, fraqueza, muita dor muscular, urina escura e elevação da CPK, dentro de 24h após o consumo de animais aquáticos, mesmo cozidos.

Em alguns casos, também são observados tontura, dor de cabeça e sintomas gastrointestinais.

Origem

Quanto ao motivo exato da relação entre o consumo de animais aquáticos e o estabelecimento da doença, até hoje não é bem compreendido, já que a relação foi feita com base em estudos epidemiológicos.

“Muitos estudos relacionam a doença com toxinas (geralmente palitoxinas) produzidas por organismos também aquáticos, como algas/microalgas, anêmonas, dinoflagelados e celenterados. Alguns estudos também apostam em micro-organismos devido à ampla distribuição de casos pelo mundo. Segundo essa teoria, tais organismos produziriam a toxina e esta bioacumularia nos animais que, quando consumidos, causariam a doença de Haff, geralmente peixes e lagostins”, explica a professora.

As pesquisas ainda são muito iniciais, e, inclusive, uma revisão recente (Pei et al., 2019) afirma que a etiologia da doença permanece desconhecida, já que os estudos que buscaram identificar agentes causadores de rabdomiólise em restos de alimentos de pacientes e em animais de locais com vários relatos da doença não foram conclusivos.

Observa-se em vários estudos que o pico de ocorrência dos casos em todo o mundo ocorre em períodos sazonais de maior temperatura, levando a crer que o organismo produtor da toxina desconhecida tenha sua proliferação favorecida por essa condição.

Desta forma, é possível inferir que, caso a doença seja provocada por uma toxina derivada de um organismo presente nos corpos d’água, as altas temperaturas da região amazônica teriam o potencial de favorecer a proliferação desses organismos, que, consequentemente, levaria ao aumento da concentração da toxina nos corpos d’água/animais de consumo humano. Mas precisa ficar claro que isso é apenas uma especulação com base nos dados epidemiológicos. Cientificamente, não se tem nada concreto a respeito.

Lilian Lund, pesquisadora da UFPA.

Atenção

A pesquisadora chama atenção que, ainda assim, o público precisa estar atento à Ciência. “A desmistificação vem da ampla divulgação de dados reais baseados em ciência de qualidade. Enquanto não se sabe exatamente a etiologia da doença de Haff, é necessário atentar para a procedência dos pescados antes do consumo, principalmente se estes passaram por inspeção sanitária antes da comercialização”.

Ao poder público, ela recomenda “investimento em Ciência, em estudos que possam identificar as reais causas dessa patologia, já que há um grande volume de evidências que apontam para a necessidade de mais estudos para a compreensão da etiologia da doença de Haff. Cabe à população cobrar o poder público neste sentido. Só com estudos de qualidade, chegaremos a informações conclusivas sobre a patologia”.

Por enquanto, permanece o alerta para que não sejam consumidos os peixes das espécies pacu, pirapitinga e tambaqui que não sejam provenientes de cativeiro e que não tenham passado por inspeção sanitária para a comercialização. As demais espécies de pescados estão liberadas para a comercialização e o consumo humano.

Sobre a pesquisadora

A professora Lilian Lund Amado é bacharel e licenciada em Ciências Biológicas, possui especialização em Educação Ambiental, mestrado em Oceanografia Biológica e doutorado em Ciências Fisiológicas – Fisiologia Animal Comparada, com tese realizada na avaliação de efeitos tóxicos de uma cianotoxina (microcistina).

Realizou pós-doutorado na Universidade Federal do Pará, na qual atualmente é pesquisadora e professora, ministrando disciplinas de Bioquímica nos cursos de Ciências Biológicas e Medicina, e de Ecotoxicologia, na graduação e pós-graduação.

Participa do quadro de professores permanentes do Programa de Pós-Graduação em Ecologia Aquática e Pesca, do Programa da Pós-Graduação em Oceanografia e do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia e Bioquímica da UFPA. Tem experiência nas áreas de Fisiologia e Bioquímica, com ênfase em Biomarcadores Bioquímicos de Poluição Aquática, Ecotoxicologia e Estresse Oxidativo.

Ela também está vinculada ao Núcleo de Ecologia Aquática e Pesca da Amazônia, localizado na UFPA, nas dependências do Parque de Ciência e Tecnologia (PCT/Guamá).

O NEAP é constituído pelo Laboratório de Biologia Pesqueira e Manejo de Recursos Aquáticos e incorporou o Programa de Pós-Graduação em Ecologia Aquática e Pesca, até então ligado ao Instituto de Ciências Biológicas.


Fonte: Assessoria de Comunicação da UFPA

Texto: Jéssica Souza

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