Escritos da planície (1): Florestas, rios e vidas vindas

"Escritos da planície" é um textão que, também, pretendo publicar em livro. Enquanto isso, quero compartilhar com leitores das redes sociais os trechos que considero prontos para receberem avaliação crítica. As postagens não obedecerão a uma sequência igual a de capítulos. Serão fragmentos que indicarão prováveis percursos da narrativa em construção. Agora é só conferir:

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Nasci no dia 8 de setembro de 1958, em Parintins (AM), em um casebre ao lado da casa dos meus tios Oseas Simas Souza e Ester Batista Souza, na antiga avenida Vicente Reis, hoje avenida Lindolfo Monteverde, a cem metros da beira do rio Amazonas.

A imagem mais recôndita que tenho da minha mãe, Dona Júlia, é a d’ela fugindo do papai, Sr. Adolfo.

Vivíamos no rio Uaicurapá, no município de Parintins (AM). O papai pediu, por meio de um prolongado uooooiiioooi!, que ela fosse buscá-lo de canoa no outro lado do rio.

Mas ao invés de atendê-lo, a jovem mulher arrumou algumas roupas, açúcar, sal e farinha em um jamaxi, pegou a mim e meu meio-irmão Heinar pelos braços e se embrenhou na mata, já ao cair da noite. Acordei, no dia seguinte, debaixo de um tapari, um barraco improvisado com estacas e folhagens, aquecido pelo fogo que consumia lenha ainda fresca.

Minha mãe, Julia Souza Nogueira, interpretava à distância o estado de embriaguez do papai. Naquele dia, ele retornava de uma jornada de corte de palha silvestre, usada para cobrir casas, e a mamãe percebeu que o marido estava passado da conta. Nesse estado ele se tornava insuportavelmente intolerante e nos causava medo.

Passamos dois ou três dias abrigados nesse tapiri, perto de uma enorme castanheira. O meio-irmão, filho do pai em outro relacionamento, ia pela manhã e pela tarde verificar, por meio de campana, o estado de embriaguez dele.

Enquanto não retornávamos, comíamos castanha e ovos de tracajás que íamos coletar cedinho na praia.

O cheiro da floresta, a praia alvíssima a perder de vista, a água cristalina represada em lagoas de pedras jacaré e a textura da atmosfera silvestre compõem os meus sonhos no sono e na vigília até hoje.

Três almas perambulando pela floresta, como faziam os nossos ancestrais, coletando comida ofertada pela mãe natureza. Se éramos apenas três, assim como a minha memória registra, eu teria no máximo dois anos de idade, e a mamãe já carregaria na barriga o próximo dos sete filhos que vieram depois.

Quando retornamos para casa, o papai ainda estava ressaqueado. À certa distância o vimos a escovar os dentes e minha mãe decidiu: “Vamos entrar, ele já acabou toda a cachaça que trouxe do barracão”.

Naquele momento, meu pai era um trabalhador do sertão amazônico, vítima dos barracões de aviamento, um sistema que escraviza o ser humano por meio do aviltamento do trabalho e dos altos preços da comida e da bebida alcoólica. A pessoa trabalha unicamente para comer e embriagar-se para esquecer que é prisioneiro desse sistema.

A relação do casal deveria ser mesmo terrível: o pai passava semanas no centro da mata, trabalhando para palheiros e madeireiros. Ficávamos a sós em casa, um barraco de taipa, pé alto, cobertura de palha e arrodeado por alguns cajueiros. O vizinho mais próximo ficava a uma hora de caminhada pela praia.

Eu conhecia bem os caminhos para as casas dos vizinhos. Quando faltava açúcar ou sal em casa, a mãe determinava que eu ou o meu meio-irmão fosse emprestá-lo dos vizinhos. Certa vez, fui emprestar açúcar na casa do sr. Pratinha, no começo da manhã. O orvalho mal ultrapassava a copa dos arbustos. Armado de arco e flecha, eu caminhava rente à margem do rio, para sentir os meus pés penetrarem na areia lavada pelo banzeiro do vento da manhã; eu sentia o peso da importante missão, mas a realizava sem perder a inocência, e agia como um pequeno caçador.

Andar sozinho era um desafio, e assim eu ia construído a minha autonomia nos caminhos da floresta. Nesse dia, na beirada da mata, avistei uma onça – penso hoje que ela me viu primeiro – no galho de uma árvore rasteira, a uns cinquenta metros.

O belo animal me fitou com certa impaciência. Eu, cheio de coragem, retesei o arco, armei a flecha e a apontei na direção dela, que parou de mexer a cabeça e permaneceu firme me olhando. Então, continuei caminhado com o arco e a flecha em punho, sem perdê-la de vista.

Havia em mim a certeza de que conseguiria abater aquela onça com arco e flecha feitos para criança. Compreendo que houve uma comunicação entre nós: presa e predador, antagônicos, mas em relação de sobrevivência.

Ao encontrar-me com o sr. Pratinha, ainda no terreiro, sequer comecei pela missão designada pela mamãe. Todo orgulhoso e cheio de mim, contei-lhe que uma onça havia me espreitado no caminho. E ele, meio assustado, comentou: “Curumim, tu estás vivo porque esse animal está de estômago cheio”.

Imediatamente, ele pegou uma espingarda e se encaminhou para o lugar onde deveria estar a onça. Voltou de mãos vazias. Agora brabo, me ralhou: “Nunca mais brinque com coisa séria!”. Mesmo diante da dúvida, colocou um pouco de açúcar na vasilha que eu carregava e me acompanhou, com a espingarda pendurada no ombro, até a nossa casa.

Essa imagem – eu cara a cara com a onça – me assusta até hoje. Mas também acredito que o animal compreendeu a minha condição de filhote de uma espécie que maneja desde cedo ferramentas mortíferas. Ou simplesmente, não estava mesmo com fome; sendo assim, por que matar? Uma onça não mata por matar ou não mata para desperdiçar proteínas.

Lago do Xibuí

As lembranças do Lago do Xibuí, zona de várzea próxima a Parintins, também se apresentam por intermédio da mamãe. Ela nasceu e passou a infância no Xibuí, com os pais, o vovô Joaquim Gonçalves de Souza, o Joaquim Paca, e Domingas Simas de Souza, a Domingas Paca.

As terras de várzeas são fartas ainda hoje. A mamãe e o pai plantavam juta, mandioca, macaxeira e milho. O terreiro de casa estava sempre lotado de galinhas, criação sob os cuidados da mamãe.

Imagino que existiam mais de cem bicos de aves. Eu, designado por ela, protegia os pintinhos dos predadores – do lagarto jacuraru, do gavião e da cobra sucuri principalmente. Eu estava sempre a posto, com arco e flecha em punho. Pontaria não faltava, mas aos outros predadores também não faltam astúcia e destreza. Do meu lado, havia baixas sim.

Eu adorava coletar os ovos das galinhas, os quais estavam espalhados na capoeira, em vários ninhos. A mamãe preparava deliciosas gemadas. Primeiro, ela batia uma porção da clara até que ela tufasse bastante; depois, adicionava as gemas à clara espumosa e liguenta; a mistura, depois de batida, formava um creme amarelo vivo, ao qual era acrescentado bastante açúcar.

Não pode faltar, desde a primeira fase, cascas de limão fresco, para retirar o pitiú dos ovos. Hummm! Só mamãe sabia fazer essa gemada cremosa e deliciosa. Dia desses senti o gosto dessa iguaria e tentei fazê-la. Impossível! Não houve limão que tirasse o pitiú dos ovos de granja.

O vovô e a vovó criavam gado, bode e carneiro. Uma pequena criação, mas o suficiente para gerar fartura em casa: leite in natura, coalhada, queijo, doce de leite e carnes. Os peixes eram pescados no Chato, o lago localizado nos fundos do terreno família.

Na vazante, participei, com os meus tios, da pesca de pirarucu com as mãos. Enormes peixes eram retirados do lodo e mortos a porretadas.

Aproveitava-se o máximo dos peixes que, fatalmente, morriam nos lagos e lagoas secas, na fabricação de piracuí, a farinha de peixe. Para se obter o piracuí, assa-se os peixes no moquém; em seguida, separa-se a carne das espinhas, para torrá-la; a torrefação é feita no mesmo forno em que se fabrica a farinha de mandioca. Essa tecnologia de preparação de alimento em larga escala, sem o uso de conservante ou corante, é uma das muitas heranças dos povos indígenas.

A fabricação do piracuí reunia muitas famílias em torno dos fornos. Dependendo da necessidade de aproveitamento do pescado, o mutirão do piracuí podia durar semanas. Às vezes o trabalho emendava dia e noite em regime de revezamento.

Ao redor do forno, renovava-se a solidariedade, a afetividade e a amorosidade entre as parentelas. Havia, certamente, intrigas, fofocas e até brigas, mas nada que pudesse desmanchar o sentido e o objetivo do mutirão. Assisti a esse ritual pelo tempo que vivemos na fazenda de várzea dos meus avós.

No geral, as várzeas amazônicas são muito fartas, a começar pela fertilidade renovada das terras a cada enchente. As culturas de curto ciclo, juta, feijão, milho, melancia, melão e hortaliças se desenvolvem sem a necessidade de adubação ou irrigação.

A pastagem para o gado, ovelhas, bodes e cavalos é natural na vazante; no Xibuí, esse período vai de agosto a fevereiro. Na enchente, os animais são transferidos para a terra-firme, terras altas, ou são retidos em marombas, assoalhos ao ar livre que se ajustam conforme o ritmo das águas. A maromba é um recurso usado principalmente em cheias consideradas normais. As várzeas, pela fatura e segurança que oferecem, são santuários naturais de renovação da biodiversidade amazônica.

Os lagos e lagoas são berçários de peixes, aves, répteis, capivaras e outros pequenos e médios animais. Não há lagos e lagoas de várzeas sem as revoadas de garças, mergulhões, marrecos e patos do mato. Na época de friagem, quando a temperatura das águas baixa e o oxigênio rareia, os peixes aiuam e podem ser capturados com as mãos. Acompanhei meu pai e meus tios em muitas pescarias de aiaua. Escolhíamos os peixes a serem capturados.

Hoje o paraná do Xibuí e seus lagos e lagoas estão depredados. Não há mais fartura como antes. Não existem mais peixes para se pegar com as mãos. Não se faz mais os mutirões do piracuí. Mas continua um lugar belo e cheio de vida persistente.

A mamãe também me faz lembrar as visagens e os encantados. Suas histórias da visagem do pé de tacacazeiro, uma enorme árvore no meio do caminho entre as terras dos meus avós e as do vizinho Pinguí, e aparição do Boto Jerimum, um boto vermelho, que nos fazia pegar no sono mais rápido. Ela nos contava que a árvore de tacacazeiro falava com aqueles que passavam por ela à meia noite, a hora do Separador.

Pois isso teria acontecido com o meu meio-irmão, o Heinar, que foi acompanhar o meu pai, embriagado, ao porto dos Pinguí, onde ele embarcou em uma canoa que o levaria até Parintins. Coincidiu que, no retorno, o Heinar passou pelo tacacazeiro à meia noite, e então ouviu uma voz cavernosa que chamava pelo nome do papai: “Adolfo! Adolfo!…”. O Heinar, já curuminzote, empreendeu desabalada carreira e se jogou para dentro de casa rompendo as divisórias feitas de palhas silvestres.

O Jerimum era um robusto boto vermelho que entrava no paraná Xibuí assim que as águas começavam a tufar. O animal emitiu um som aterrador: fammraam! Ouvia-se esse fammraam! desde a boca até a cabeceira do paraná.

As mulheres, principalmente as virgens, endoideciam ao ser afetadas por esse enfeitiçado som cetáceo. Algumas moças desapareciam dos seus lares e, quando retornavam, justificavam-se com o encantamento pelo Jerimum. O Jerimum transformava-se em um belo rapaz que aparecia tanto no sonho das donzelas quanto nas festas dançantes da comunidade. E assim elas engravidavam, mesmo virgens.

Certa noite, o papai, a mamãe e o meio-irmão foram torrar farinha de mandioca no forno do seu Emiliano. Ficamos em casa sob a responsabilidade da prima Ana, filha do tio Ozéias com a tia Ester. Entrou a noite e nada do retorno dos três. O Jerimum havia entrado no paraná e o seu fammraam! afetou a prima, que já estava com o mandacaru em floração. Ela nos deu mingau na rede, para que dormíssemos logo, e não parava de falar que estava com medo do Jerimum, cujo fammraam! ouvira no final da tarde.

Coincidência ou não – eis a questão! – fomos sacudidos por três assobios horripilantes: um na frente, um no meio e o outro nos fundos da casa. Foi como se esse estranho som tivesse injetado sonífero nos nossos ouvidos.

A prima acordou perturbada. Disse que o boto, transfigurado em um esbelto rapaz, havia lhe visitado em sonho e feito o convite para que ela passasse alguns dias e algumas noites com ele, na cidade dos encantados, no fundo do rio Amazonas, na frente de Parintins. Meus pais, assustados, colocaram Ana no primeiro barco com destino a Parintins. Mesmo na cidade, ela permaneceu desanuviada por duas semanas.

Naquela época, não se matavam botos. Os botos vermelhos pertenciam ao mundo dos encantados. A morte de um boto implicaria na morte de algum ser, um humano, por exemplo, que a qualquer momento, poderia desencantar-se e, assim, ser transferido para um lugar nefasto. Além disso, muitas curas para doenças corporais e mentais procedem dos encantados, aos quais os pajés e curandeiros recorrem para assistir os seus pacientes.

Creio que o Jerimum morreu de velho. Não se tem notícia de que teria caído em alguma rede ou malhadeira de pesca. Esse animal possuía uma enorme cabeça, toda amarrotada e parecida com um jerimum. O fammraam! era emitido pelo seu orifício de inspirar e respirar, o correspondente ao nariz, localizado no meio da cabeça. É por isso que as moças ribeirinhas quando escolhidas por um desconhecido para dançar, criam subterfúgios para passar a mão sobre a cabeça do cavalheiro, para verificar se se trata ou não de um boto metamorfoseado em gente

Parintins

A mamãe me faz lembrar os primeiros dias em Parintins. Suponho que eu teria oito anos. Éramos ainda cinco ou seis irmãos. Meus pais se mudaram para Parintins para nos dar a oportunidade de estudar. Na cidade não havia fartura, havia miséria. O papai, embarcadiço de profissão, ganhava pouco; mal pagava as suas despesas pessoais, entre as quais, uns goles de pinga, seu trabalho de embarcado o tirava de casa por semanas a fio.

A mamãe plantava hortaliças no quintal: feijão de corda, quiabo, maxixe, chicória, alfavaca, tomate, pimenta, pimentões etc. Mas era tudo muito pouco, nada comercial; migalha de dinheiro se conseguia com alguma venda dessas hortaliças. Não havia para quem as vender, eram mais compartilhadas com a vizinhança.

A mamãe sempre improvisava uma salada de mãe: feijão de corda, maxixe e quiabo cozidos ao dente, misturados com azeite e sal. Hummm! Com as amigas – lembro-me bem da dona Dominga – a mãe coletava tucumã, no Campo Grande, na madrugada, para conseguir algum dinheiro com a venda desses apreciados coquinhos. Mas havia uma época em que tudo isso sumia: as hortaliças, os tucumãs, os peixes doados pelos vizinhos pescadores.

O sr. Argentino, o sr. Duca e o sr. Tertulino sempre nos foram generosos com os resultados das suas pescarias. As bocas sem comida choromingavam e a mamãe, desesperada, sumia na boca da noite, na companhia da dona Dominga, e retornava uma ou duas horas depois com umas comidas estranhas, porém gostosas.

Ela nos contou mais tarde que conseguia sobras de alimentos nas casas dos judeus, principalmente na casa do sr. Elias Assayag, onde ela havia trabalhado quando jovem, como doméstica. Tínhamos os judeus como ricos comerciantes, mas corria à boca pequena que essa riqueza era resultado da avareza que latejaria no sangue da raça deles.

Um judeu, dizia a boca infame, prepara os bifes e as guarnições na medida exata de cada comensal, de modo que os pratos sejam lavados sem passar pela pia. Ora, se isso fosse verdadeiro, não havíamos matado a nossa fome em dias difíceis.

Quando caminho ali pelas praças do centro de Parintins, sempre guardo um tempinho para contemplar aqueles casarões por onde imagino terem vivido os judeus que se sensibilizavam com as mãos estendidas da mamãe e da dona Domingas. Vejo-a por aquelas calçadas, constrangida, na companhia da amiga, a mendigar algum pedaço de pão para aplacar a fome das bocas famintas. A boca da noite lhe protegia do escárnio público.

Fui uma criança que gostava de brincar. Na cidade, não demorei a me enturmar com a criançada do futebol, do papagaio de papel e do banho nas águas da Baixa da Xanda. Meu pai me ensinou a chutar com o pé esquerdo e, graças a esse diferencial, não ficava fora das peladas com bolas feitas de meias enxertadas com panos.

Não era raro que essas peladas terminassem em brigas e lá estava eu envolvido em confusão nos terreiros alheios. Quando a mamãe era avisada, logo chegava ao campo conflagrado, mas não vinha em meu socorro. Em vez disso, quando me agarrava, me sapecava uma surra de galho de goiabeira, para que eu deixasse de brigar na rua.

Nessa época ganhei um apelido surreal: Povo da rua. É que, quando ela batia forte e sem piedade, eu enchia os pulmões e gritava: “Povo da rua, pelo amor de Deus, me acode. E sempre aparecia uma boa alma para me tirar das mãos austeras da minha mãe.

É assim: há situações que só o povo resolve.

Mas é preciso muito cuidado para não recorrer às ruas em momento insano, como neste de ódio fumegante. Eu, certamente, tive mais sorte que Jesus Cristo, sinal de que o povo que O mantou estava inflamado pelos poderosos.

Aprendi a fazer a minhas curicas e os meus papagaios de papel logo cedo. Colhia as talas de inajá nos arredores da cidade, com as quais montava as armações presas com linha de carretel e as cobria com papel de seda, com aplicação de grude feita de tapioca de mandioca. Meus papagaios preferidos eram enraiados com o vermelho e branco prevalecentes, as cores da Baixa da Xanda.

No jogo do papagaio de papel, melhor que cortar e aparar ou embiocar é correr atrás daquele que cai, com uma turma de curumins, olhando para os céus, rasgando quintais, capinzais e capoeiras. Naquela época, os carros eram raros e as ruas de hoje da Baixa da Xanda ainda eram caminhos. Aqui e acolá, perdia-se uma unha do pé, cortava-se os pés em cacos de vidro, enfiava-se um espinho de tucumã ou de limorana no corpo.

Certa vez, eu liderava um grupo de aparadores de papagaio, uns cinco meninos, na capoeira do terreno do Paulo Corrêa, na estrada do Macurani, quando me deparei com um homem nu, que, assustado, tentava proteger a sua namorada em estado de Eva. Eu, mais assustado ainda, dei um grito e retornei na mesma pisada. Os meninos, também assustados, me seguiram e me interpelavam: “O que houve! O que você viu!”. Imagino que eles pensaram que eu havia me deparado com um juma ou com um curupira.

Parei no descampado, na beira da estrada, com o peito perto de rachar. E os curumins não paravam de me interrogar.

Já aliviado, eu revelei: “Vi um homem e uma mulher nus!”

– Puta que pariu! Por causa de uma foda tu quase mata a gente de susto e de tanto correr. É isso que dá pegar corda de curumim que nunca fodeu –, gritou o mais taludo entre nós.

Eles me colocaram num corredor polonês e recebi de cada um tapa no cangote, para nunca mais desistir de uma caçada a um papagaio de papel.

O prazeroso dessa correria é pôr a mão no troféu, no papagaio, exibi-lo aos demais caçadores fracassados e empiná-lo novamente. Mas é comum, também, que esse jogo termine em confusão e até em luta corporal entre os aparadores. Isso acontece quando alguém descumpre alguma regra, como não reconhecer que o papagaio é daquele que o tocou primeiro; e a linha e a rabiola são partes do troféu.

A confusão se instala com uma ordem geral: “Guisa!”. Guisa quer dizer estraçalha, transforma o papagaio em papel picado ou picadinho de papel. Mas essa é uma confusão que entre mortos feridos sempre sobram todos.

Quando eu chegava em casa com algum ferimento, hematoma ou galo na cabeça, dona Júlia completava a surra com a sua vara de galho de goiabeira, para que eu aprendesse a não brigar na rua. Era feio brigar na rua. Era mais feio ainda apanhar na rua. Era o mesmo que: Quem não acha mãe em casa, acha mãe na rua.

A Baixa da Xanda, na minha infância, era um cavado de uns cinquenta metros de boca[1] por uns trezentos de comprimento que se enchia das águas do rio Amazonas. Do lado direito de quem entra pelo rio, localizam-se, predominantemente, as casas dos filhos e parentes do fundador do boi-bumbá Garantido, Lindolfo Monteverde, pescador, agricultor e poeta de toadas e repentes.

Do lado esquerdo estava o curre, como se chamava o matadouro de bois, com enorme curral de estacas de madeira de lei, que, pela lateral direita, fazia extremo com os fundos dos quintais que começavam na antiga avenida Vicente Reis, hoje avenida Lindolfo Monteverde, e pela frente, com o rio Amazonas.

O gado chegava ali em embarcações boiadeiras e era despejado na fila da morte. Era um gado triste, com a beira dos olhos encharcada de lágrimas. Assim, soube, desde cedo, que os bois a caminho do matadouro choram. E naquela altura, o gado era morto da maneira mais cruel possível: com machadadas na cabeça e uma faca enfiada à altura do coração, como golpe de misericórdia.

Esse urro do desespero até há pouco tempo era usado nas apresentações dos bois-bumbás, no bumbódromo.

Baixa se refere à uma área rasa, alagável, e Xanda, à Alexandrina, a mãe de Lindolfo Monteverde, filha de negros escravizados. Na vazante, as águas da Baixa sumiam, mas, na enchente, se apresentavam em profundidade, comprimento e largura. Atingiam os pés dos tucumanzeiros, dos araticunzeiros, dos abieiros, dos murucizeiros, das cuieiras e das sete seringueiras que ficavam perto de onde hoje passa a avenida Lindolfo Monteverde.

Os perrechés – as gentes de pés rachados – do Garantido registraram esse fenômeno em toada:

Lá vai, lá vai, lá vai…

Lá vai a turma de fé

Eu vou brincando

Só no timbó da maré

Contrário arreda da frente

Tu sabes meu boi quem é

Eu não te trago enganado

Quem avisa

Amigo é

A escola   

A mamãe me matriculou na unidade da Escolas Reunidas Rafael Faraco que funcionou no barracão-sede do Boi-bumbá Garantido, na Baixa da Xanda. Morávamos a uns duzentos metros da escola, na rua Nações Unidas, numa casa de taipa em terreno cedido pelo titio Elcinho, o caçula dos irmãos da minha mãe.

Dos meus treze tios da parte da mamãe, o tio Elcinho foi o que conseguiu se destacar por meio da formação técnica e intelectual, fez o grau correspondente hoje ao ensino médio.

Tornou-se, ainda muito cedo, a referência dos meus sonhos.

Eu também queria saber o que ele sabia.

E ele sabia coisas incríveis. E porque não dizer: coisas mágicas.

Afinal, ele sabia como funcionavam os rádios, sabia montar antenas de emissoras de rádio e antenas receptoras de satélites.

Já eu, não entendia patavinas disso.

Não entendia como essas coisas podiam funcionar.

Conheci pessoalmente esse tio, o qual já admirava por meio dos elogios da mamãe que, aqui e acolá, dizia a nós, sobrinhos, que deveríamos tê-lo como exemplo.

Elcinho, até então só o imaginado, morava em Manaus, cidade que, também, era apenas uma imagem na vigília e nos meus sonhos infantis.

Um dia o tio apareceu. Estava em gozo de férias.

Hospedou-se, claro, na casa da vovó Domingas e do vovô Joaquim, na frente do curral do boi-bumbá Garantido, na Baixa da Xanda.

Diante de mim, agora feito gente, estava aquela figura miúda, bem vestida, cabelos penteados e voz pausada.

Uma pessoa admirável e exemplar. A mamãe estava certíssima.

Certo dia, visitei o quarto do titio. Ele não estava lá. Aproveitei para abelhudar os seus instrumentos de trabalho que, para mim, eram estranhos.

Depois de passar os olhos sobre fios, caixinhas pretas, bastões com cabos para eletricidade e lâmpadas bizarras, recolhi, para observá-la, uma caneta preta, com a ponta igual a uma minúscula colher.

Ao manipulá-la senti logo o cheiro da tinta.

Um cheiro mais forte que o das lapiseiras.

Aí eu não me contive: desmontei a caneta para ver de onde vinha aquele cheiro tão expressivo.

Ela transformou-se em vários pedaços e a tinta se esparramou pela mesinha de trabalho do titio.

Não consegui mais remontar a caneta misteriosa e quanto mais eu limpava a mesinha, mais a tinta preta se espalhava, se impregnava na madeira e um cheiro metálico tomava conta da casa.

Eu quis dar no pé, mas a mamãe foi mais rápida.

Abecou-me na altura do tronco e já se encaminhava para a goiabeira, cujos galhos verdoengos vergavam-se até encostar no chão.

O tio, vendo minha mãe enraivecida, perguntou a ela, com a sua voz mansa:

– O que houve? O que esse menino fez?

Ora, vê lá o que ele fez com as tuas coisas.

O tio se encaminhou para o escritório improvisado, e a mamãe seguiu comigo para o pé de goiabeira.

Antes de esquentar o meu lombo, ouvi a voz suave do meu tio:

– Júlia, largo o menino, ele não fez nada de errado. Ele só é curioso.

E tirou-me das mãos da mamãe.

Mas esse susto não foi suficiente para conter meus impulsos de curiosidade.

Mais tarde, apareceu em casa um radiozinho de pilha, daqueles das primeiras remessas japonesas para o comércio da Zona Franca de Manaus.

Esse objeto mágico intrigou-me à exaustão.

Perguntei à mamãe e ao papai sobre quem falava naquela minúscula geringonça.

As explicações dele e dela, por mais que bem elaboradas, não me convenceram.

O pai me disse que quem falava naquela caixinha era um homúnculo.

Então, na primeira oportunidade que fiquei sozinho, peguei uma faca de cortar pão, desparafusei a caixinha e fui em busca do minúsculo homem falador.

Imaginei: ele foi mais esperto que eu. Ao perceber que eu iria pegá-lo, deu no pé. E, como é tão pequenino, saiu da caixinha sem eu vê-lo.

O pai estava certo.

Mas quem retornou primeiro para casa foi a mamãe, e ao ver aquela maquininha toda desmontada e espalhada sobre a mesa, enraiveceu-se.

Apanhou-me pelo toutiço e me conduziu, desta vez, para debaixo de uma cuieira.

O lombo esquentou. A mamãe, do jeito dela, também estava certa ao se utilizar da caligrafia de Deus para acalmar a minha curiosidade perturbadora.

Roguei tanto aos deuses e aos anjos para que o tio Elcinho aparecesse.

E ele sempre apareceu nas horas das minhas inspirações e curiosidades de criança pesquisadora.

Fui alfabetizado pela professora Alexandrina Monteverde, filha de Lindolfo Monteverde, o hoje legendário fundador do Boi Garantido. Alexandrina, negra, alta, olhos puxadinhos, ensinava com paciência e maestria.

A Baixa da Xanda era a nossa piscina natural, principalmente para os curumins e cunhantãs pequenos e pequenas. Se a mamãe se descuidasse da vigilância, eu passava o dia todo tomando banho. Na água brincávamos de derrubada em cima dos paus da serraria do sr. Abimael Brelaz, de manja, mergulhando por baixo dos paus e dos barcos, e outras estripulias que o tempo sequer dava conta.

Mamãe me arrancava das águas com o seu olhar de reprovação e com a sua indiscreta vara de goiabeira. “Menino, sobe, tá na hora da escola!”. Eu corria o suficiente para que, quando ela chegasse em casa, eu já estivesse vestido, e, assim, não viesse a pegar umas bordoadas; ela não me tocava mais para não encerutar a única farda escolar que ela lavava quase diariamente.

No retorno das aulas, à tardinha, eu não resistia a uma passada na Baixa, nem que fosse para apreciar os meus coleguinhas tomando banho. Às vezes, com um empurrão do Separador, quem sabe, descia o bermudão e me jogava nu nas águas. A farda e os cadernos ficavam na moita, bem arrumadinhos, para que a mamãe não suspeitasse que eu estivera no banho.

Em uma dessas escapulidas, fui o último a deixar as águas. Já escurecia e, de repente, me vi sozinho na beira do rio, porque meus amiguinhos haviam deixado o local rapidamente. Apressei-me também. Corri para a moita e, para a minha desgraça, só encontrei os cadernos e o lápis. A bermuda e a camisa haviam sumido. Revirei o mato e não os encontrei.

Engoli o choro e sai correndo de biqueira em biqueira de casas, para não ser notado. Mamãe já estava à minha  procura na vizinhança, interrogando curumins e cunhantãs sobre o meu paradeiro. Ela, coitada, entrou em desespero, porque todos disseram que eu havia ficado para trás.

Enquanto ela investigava, eu chegava em casa e me enrolava na rede de dormir. Não demorou muito, fui acordado do pseudosono com o chicote de goiabeira. Ela já havia sido informada pelos vizinhos que eu corria nu entre as casas, com o material escolar nas mãos.

– Cadê a tua farda, Wilson!

Essa pergunta, bem arrumada e bem articulada em suas palavras, percorreu o meu corpo inteiro. Ela doía e me desarrumava mais que o galho da goiabeira.

– Não minta! Já sei tudo o que aconteceu.

Ele me pegou pela orelha e me levou até a Baixa.

– Diga: onde deixou a tua farda?

– Ali, mamãe.

Caminhei com ela até o arbusto onde eu havia escondido os cadernos, o lápis, a bermuda e a camisa.

Pois é: lá estavam, bem dobradinhos, a bermuda e a camisa.

Morro sem saber quem fez isso comigo, se foi gente ou uma anga ribeirinha; quanto a mim sei dizer que só queria me divertir.

Apesar dos pesares, em razão do meu desempenho atestado por Alexandrina, pulei algumas etapas e logo estava matriculado no Colégio Waldemar Pedrosa, na série correspondente à minha idade. O ensino fundamental eu fiz na Escola São José Operário, de 1973 a 1977. Em 1975 iniciei, mas não conclui o ano escolar. O segundo grau comecei no Colégio Batista de Parintins, em 1978, abandonando-o no ano seguinte.

Não fui um bom aluno nos termos que o ensino tradicional espera. Talvez tenha sido hiperativo não diagnosticado. A escola era muito rígida em procedimentos que não cabiam na economia da minha família.

Tínhamos que estar, impecavelmente, bem-vestidos na fila da entrada, que era vistoriada por um bedel. Ninguém entrava sem sapatos bem engraxados e meias brancas esticadinhas na canela. A tolerância para o descumprimento dessas normas era zero.

Num dos semestres, o meu sapato Vulcabrás, feito de borracha, se arrebentou de vez. Não houve sapateiro que o remendasse. Ainda tentei entrar calçado de sandálias e meias, mas fui barrado antes de pisar sala. Passeia a assistir às aulas do lado de fora, na calçada do prédio. Ouvia e anotava todas as aulas.

Uma semana depois, minha mãe recebeu um recado da diretora da escola para que eu retornasse à sala de aula com os pés sem sapatos. Fui mesmo! No meio da aula do primeiro tempo, a professora Benedita Simas fez uma pausa para me comunicar que os coleguinhas haviam feito uma vaquinha e comprado os meus sapatos. Fiquei meio sem graça, mas o meu estado moral crescia à medida que a professora elogiava a minha vontade e esforço para continuar na escola, enquanto muitas crianças que foram barradas por falta de calçados ou porque estavam com o colarinho da farda amassado nunca mais retornaram à sala de aula.

Depois de muitos anos, já em Manaus, soube que os sapatos foram comprados pela professora.

As leis do regime militar eram cumpridas à risca nas instituições do estado e do município. Raros se contrapunham a elas.

Em 2020, quando entregava 1.600 títulos da minha biblioteca ao acervo da Biblioteca Municipal de Parintins Tonzinho Saunier, o meu amigo Jorge Simas, enviou uma mensagem digital para a professor Benedita, sua irmã, que está aposentada e reside no estado do Ceará.

Ele perguntou, no rodapé de uma foto do evento.

– Benedita, conheces essa figura?

E ela respondeu:

– Como posso esquecer esse aluno.

Meu coração se encheu de alegria e saudades.

A rigidez das leis não me dizia nada. Os calçados não tinham nada a ver com as minhas inquietações. Envolvia-me, com frequência, em confusão com alunos e professores. No fundamental, eu e o Dulcimar Vaz de Campos criamos um jornalzinho mimeografado chamado O malho, no qual malhávamos todos do colégio.

Em uma das edições criticamos explicitamente as aulas de um professor. Primeiro, nossos pais foram chamados à secretaria da escola. Como a mamãe e o papai estavam trabalhando na zona rural, fui eu mesmo ouvir o beabá da diretora, a professora Olinda Hatta Garcia.

Reincidimos no crime, e o caso foi encaminhado para a supervisora estadual da educação em Parintins, a professora Aldair Kimura. Novamente meus pais estavam fora da cidade. Fui informado de que poderia ser expulso da escola, porque o jornalzinho estava fora da lei, era subversivo. Contei o teor dessa conversa ao vereador José Maria Pinheiro (MDB). Ele denunciou o caso da tribuna da Câmara.

Noutro dia, fui chamado à secretaria, para ser informado que poderia continuar estudando, desde que parasse com a edição do jornalzinho. O pai do Dulcimar, o gráfico Dulcídio Vaz de Campos, apontou uma engenhosa solução para o jornal não parar: “Criem um outro jornal que eu o assino como editor”.

E o próprio Dulcídio criou O Médio Amazonas, que circulou por vinte e cinco anos, agora com tiragem feita em mimeografo elétrico. O Médio Amazonas surgiu para que continuássemos a escrever, mas acabou se tornando, mais tarde, um meio de ganhar pão do Dulcídio, um lugar do mundo-cão.

Mas, enfim, o jornal havia sido criado por ele, e nós, eu e o Dulcimar, trilhamos caminhos distintos na vida. O meu colega de aula e amigo de infância, expert em contabilidade, foi executado com vários tiros, na porta da sua casa, no conjunto Eldorado, em Manaus. Não me lembro se esse assassinato foi esclarecido, porém, correu no meio policial que ele quis passar a perna em algum cliente do submundo dos negócios.

Foi nesse período do jornalzinho que tomei conhecimento de que o Brasil era governado por uma ditadura militar. Até então, cantávamos o hino nacional antes de entrar na sala de aula todos os dias, para reverenciar uma gloriosa revolução que havia livrado o Brasil dos comunistas.

Muito tempo depois tomei consciência de que a minha geração havia sido enganada pelos próprios professores que, por ingenuidade, má-fé ou medo, esconderam que os militares deram um golpe na revolução social, econômica e cultural em marcha no governo de João Goulart. Uma ditadura tão paranoica que rastreava até ingênuos jornais escolares.

Wilson Nogueira, em Escritos da planície (na bancada da carpintaria)

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