Mas como pode seu doutor?

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Nada mais universal que a sua aldeia, seguindo a trilha das frases de Liev Tolstói (1828-1910). Assim sendo, lembrei-me de um “causo” da minha aldeia que retrata a vontade de uma pessoa do povo, que tinha a alcunha de “Rabo de Porca”, tudo isso antes do “politicamente correto”. Era magrinho, meia idade, trabalhava prestando pequenos serviços. Resolveu candidatar-se à vereador pela oposição. Foi uma surpresa para a cidade, já descontente com os mesmos de sempre; o nome do “Rabo de Porca” bombou (viralizou) e ameaçou os ilustres políticos de carreira.

Juntaram-se as elites locais (o pároco e os coadjuvantes, comerciantes, funcionários do Banco do Brasil, da Mesa de Rendas etc.) e a reação foi fulminante. Os comícios dos poderosos eram animados com a paródia de uma musiquinha “chiclete” da época, cujo refrão dizia: “como é que pode seu doutor, o Rabo de Porca ser vereador?”. Preconceituosa e cruel, revela o comportamento ao qual nos acostumamos quando se fala em política e eleição: os “rabos de porca” do mundo todo enfrentam sempre muitos obstáculos para ascender ao poder.

As eleições estão por aí, em todo o mundo e aqui entre nós, mesmo que alguns digam que foram antecipadas, o que discordo, visto que o verdadeiro político vive em campanha. Se é sério, fá-la com boas obras e responsabilidade; se não, burla as circunstâncias e as faz às custas do erário, usando os mais sórdidos artifícios.

A política é necessária e as eleições o seu corolário; ainda não encontramos coisa melhor. Que bonito ver Angela Merkel, depois de submeter-se ao ritual da política e das eleições sucessivas, voltando para planície como estadista. Que triste ver Trump brigando até hoje com a realidade e incendiando o parquinho da democracia americana com sua horda de loucos inconformados. Mas, pode ser ingenuidade pensar que política e eleições são coisas de anjo. São sempre manifestações das ebulições do mundo econômico e social.

Na contemporaneidade, a correlação entre ideologia e classe social está desgastada. A práxis social da esquerda ou da direita nem sempre encontra coerência ideológica e tampouco correspondência com os interesses da maioria de fora desse espectro; visto dessa forma, a classe social não é mais a determinante da consciência política ou das escolhas partidárias dos sujeitos.

Tenho batido cabeça para entender esse fenômeno e a necessidade de rever nossos postulados. Pelo meu lado, estou contando com a ajuda de Thomas Piketty, na sua substancial obra “Capital e Ideologia”, uma pesquisa de fôlego relacionando poder econômico, poder político, voto e ideologia, desde os regimes desigualitários da antiguidade até os tempos atuais, incluindo Brasil e a Índia, dentre outros.

Segundo ele, a sociedade de classes vem dando lugar ao sistema de “múltiplas elites”: “as duas coalizões tradicionais, a esquerda eleitoral e a direita eleitoral, são, hoje em dia, divididas por abismos sociais e ideológicos profundos.

Para representar essa complexidade, uma estruturação do eleitorado em quatro quartos parece mais adequada que uma visão binária ou unidimensional” (p.683). Piketty dá nome a essas elites: “a esquerda brâmane”, reunida nos “partidos dos diplomados”, subdividida entre aqueles “pró mercado” e os mais radicais, “distributivistas”; “a direita mercantilista” se bifurca entre aqueles que são “pró-mercado” (globalistas) e uma “direita nativista nacionalista”.

A união dos blocos ou fração deles ou, ainda, o confronto entre ambos pelo poder vem seguindo as conveniências de momento, as crises do capitalismo e os resultados eleitorais em cada eleição. Aqui já há sinais dessas tendências.

Quando pensamos nos estratos sociais que povoam esse abismo entre as “múltiplas elites”,  estamos pensando nos desempregados, nos desalentados, nos vulneráveis de todos os desastres econômicos já havidos e nos desvalidos de sempre, a legião de “rabos de porca”, que carregam secularmente sua miséria, sem alento e sem poder.

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