João Rosário, o perfil de um afrodescendente fazendo história em Portugal

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O jornalista e apresentador de telejornal João Rosário, nascido em Cabo Verde, já vive em Portugal há cerca de 50 anos. Foi para Lisboa muito pequeno, com apenas dois anos de idade.

Enquanto na infância, Rosário sequer percebia fazer parte de uma minoria racial, foi na adolescência que as diferenças ficaram claras. Já adulto, iniciou a carreira no jornalismo e conseguiu fazer história num país que segundo ele não está preparado para ver “rostos com cores na televisão”.

Raridade 

João Rosário foi convidado a ser apresentador de TV na emissora pública RTP, cargo que ocupa até hoje, sendo um entre os três únicos apresentadores negros do telejornalismo em Portugal.

O depoimento de João Rosário foi gravado na emblemática Praça do Comércio, em frente ao Cais do Porto, onde chegaram a desembarcar milhões de escravos. Um dos pontos centrais da capital de Portugal, a região é também local turístico, recebendo centenas ou milhares de pessoas todos os dias.

Lágrimas e sangue  

Mas quem por ali passa atualmente, sequer faz ideia do passado escravocrata que o local carrega, onde era, inclusive, negociada a venda dos escravos:

“Este é o porto da cidade de Lisboa, dos tempos dos Descobrimentos, do século 15, do século 16, do século 17, por onde entraram milhões de seres humanos escravizados em África. A praça central de Lisboa, sendo este um sítio de dor, de lágrimas, de sangue, de milhões de seres humanos escravizados que passaram por aqui, é impressionante que hoje não haja uma única placa, uma lápide que seja, a lembrar o sofrimento dessas pessoas. Este é um lugar carregado de fantasmas.”

Na época da escola, na década de 1970, João Rosário era o único negro da sala de aula. Afirma que queria ter o cabelo liso como o dos colegas e não entendia porque tinha o cabelo “diferente”. Na adolescência, percebe que não é bem-vindo na casa dos amigos:

Receios e preconceitos  

“Mais tarde, já adulto, sei que não sou bem-vindo porque os pais (dos amigos) achavam que eu iria roubar. Este é o primeiro momento em que eu sinto essa diferença. No momento seguinte, é o momento dos namoros, em que eu sou o único negro num grupo de jovens brancos e é muito difícil para mim arranjar namorada. Elas tinham vergonha de namorar comigo e sobretudo, de me apresentar aos pais.”

Mesmo passando por momentos de discriminação, João Rosário seguiu em frente. Entra na universidade, com a intenção de se tornar professor de língua portuguesa.

Trabalha como empregado de mesa (garçom), funcionário de um armazém, vende computadores porta-a-porta e finalmente, começa a trabalhar como redator em uma revista. Pensou que seria algo temporário, afinal, queria mesmo ser professor.

Mas quando consegue emprego em uma emissora de rádio, coloca de lado a ideia inicial e foca a carreira no jornalismo.

Na rádio, um “mundo sem rostos”, como declarou, João Rosário sentiu-se mais à vontade para fazer um caminho dentro da emissora. A televisão era ainda “um espaço reservado a portugueses brancos”:

Rejeição  

“Infelizmente não há um número de portugueses negros e negras capaz de fazer pressão no mercado de trabalho para atingir este tipo de lugares. E há, por parte das organizações, uma rejeição. Só recentemente é que um grupo de poucos pivots negros conseguiu impor-se, onde estou eu, está a Conceição Queiroz, na TVI, um mais jovem, na SIC (Cláudio Bento França). É esta a dificuldade que Portugal tem, que os portugueses têm, de se verem com muitas cores.”

Com uma trajetória de lutas, mas muito bem-sucedida profissionalmente, João Rosário ainda tem dificuldades de ver progressos no combate à discriminação racial, mesmo 20 anos depois da Declaração de Durban. Acredita ser difícil quebrar a hegemonia e que as transformações podem levar “dezenas ou centenas de anos”.


O depoimento de João Rosário foi colhido na capital portuguesa, Lisboa, como parte da série especial da ONU News sobre os 20 Anos da Declaração de Durban, considerada um marco na luta global contra o racismo.

Fonte: ONU News

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